Jesus não foi vítima do Pai

Aos poucos os primeiros cristãos vão relendo a sua história e entendem que Deus-Pai nunca abandonou o seu filho Jesus. Deus não permaneceu passivo diante da execução de Jesus. Interveio para libertá-lo do poder da morte. São diversas as maneiras e linguagens que retratam este episódio. Por volta dos anos 35 e 40 d.C., uma parte da tradição cristã, ao tratar sobre a ressurreição de Jesus nos textos bíblicos, utilizava-se de dois verbos para destacar o evento: “despertar” e “levantar”. O que estas metáforas sugerem? Os termos permitem uma leitura alusiva à descida de Deus ao sheol. Deus adentrou o “país” da morte, onde tudo é escuridão, silêncio e solidão. Ali jazem os mortos cobertos de pó, adormecidos no sono da morte. Dentre eles, Deus “despertou” Jesus, o crucificado, o pôs de pé e o “levantou” para a vida”.

Independente da diversidade de interpretações, Deus não abandonou Jesus na cruz do Calvário. Antes saiu em sua defesa como faria qualquer bom pai. A identificação do Pai com Jesus é o testemunho do amor de Deus para com o seu Filho e, consequentemente, a rejeição frente às injustiças cometidas a Jesus. Esta confirmação do amor do Pai por Jesus dá novo sentido à ressurreição. A ressurreição de Jesus não é só uma vitória sobre a morte; é a reação de Deus, que ratifica o discurso e a vida do seu Filho. Entender esta boa nova passa a ser o primeiro conteúdo da pregação dos primeiros cristãos. (Cf. At 2, 23-24; 4,10; 5,30).

O Pai nunca esteve separado de Jesus. Mesmo quando Jesus agonizava, estava com ele, sustentando-o e sofrendo junto com ele e nele. O Pai nunca quis ver Jesus sofrer. O que Deus quer é que Jesus seja fiel até ao fim, que continue na caminhada em prol da justiça do Reino de Deus. Nem o Pai busca a morte vergonhosa de Jesus, nem Jesus lhe oferece seu sangue pensando que lhe será agradável. Os primeiros cristãos nunca disseram algo parecido. Na crucificação, Pai e Filho estão unidos, não buscando sangue e destruição, mas enfrentando o mal até às últimas consequências.

Se Deus fosse alguém que exige previamente o sangue de um inocente para salvar a humanidade e aplacar a sua ira, a imagem de Deus como um pai compassivo ficaria totalmente desvirtuada. Que Deus é esse que exige sacrifícios para manifestar o perdão? Seria Deus um credor implacável? Não saberia Deus perdoar gratuitamente? Esse não é o Deus-Pai de Jesus Cristo. Deus não exigiu o sofrimento de Jesus e sua destruição para que sua honra e sua justiça fiquem satisfeitas e todos os seres humanos sejam perdoados.

Outro engano é pensar que Deus descarrega a sua ira sobre Jesus. Jesus não sofre a cruz como castigo de Deus que faz dele o responsável pelos pecados da humanidade, pecados que ele não cometeu. Jesus é inocente. Ele não pecou. O sofrimento de Jesus na cruz é resultado dos que se opõem a seu Reino. Jesus não é vítima do Pai, e sim daqueles que rejeitaram o seu convite para “entrarem” no Reino de Deus. São os poderosos, movidos por ambições diversas, que infligem sobre Jesus o sofrimento, e não Deus. Aliás, o Pai abraça o Filho de tal maneira que carrega com ele o seu sofrimento também (cf. 1Pe 2.22-24).

Carlos Cunha

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2 Comentários

Arquivado em Reflexão teológica

2 Respostas para “Jesus não foi vítima do Pai

  1. Carlos meu professor querido que texto maravilhoso..exatamente isso que falta a muitos “pregadores” uma compreensão mais lúcida da paixão de Cristo…

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