“Ora a teu Pai que está lá, no segredo”

Gosto muito do texto do Evangelho de Mateus: “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechando tua porta, ora a teu Pai que está lá, no segredo; e teu Pai, que vê no segredo, te recompensará” (6,6). O versículo citado faz parte do ensinamento de Jesus sobre o prazer da oração. Prefiro dizer “prazer” a “dever” da oração. O prazer carrega em si uma carga de sensação ou emoção agradável, ligada à satisfação de uma necessidade, do exercício harmonioso de uma oração desinteressada movida pela pura gratuidade. Já o dever aponta para a obrigação, evoca um contexto de algo a ser pago a alguém, uma obrigatoriedade.

É evidente que o ensinamento de Jesus é um convite a uma vida prazerosa de oração. Pena que algumas pessoas não entendem assim e fazem da oração um momento de falatório enfadonho e repetitivo. Eu penso que esse tipo de “oração” incomoda os ouvidos de Deus. É barulho aos ouvidos do Altíssimo. Lembrei-me de Rubem Alves na crônica “Sobre deuses e rezas”: “Ora, se a gente fica no falatório é porque não acredita nisso. Não acredito em oração em que a gente fala e Deus escuta. Acredito mesmo é na oração em que a gente fica quieto para ouvir a voz que se faz ouvir no meio do silêncio” (Teologia do Cotidiano, p.68).

Diferente de um falatório sem sentido, a oração que encontramos nos textos bíblicos é composta por simples ações de graças. A Bíblia narra momentos de orações intensas em que homens e mulheres estiveram diante de Deus com o coração aberto ao mover do Senhor. O místico Walter Hilton (séc. XIV) definiu corretamente a postura correta do sujeito que ora: “Não devemos imaginar que o propósito da oração seja o de dizer a Deus o que necessitamos, porque ele sabe muito bem quais são as nossas necessidades. Pelo contrário, o propósito da oração é o de nos tornar prontos e aptos para receber, como vasos limpos, a graça que nosso Senhor livremente nos dá”.

Somos uma geração que desaprendeu a orar. A espiritualidade contemporânea é nutrida por inquietações e uma busca louca e insana por experiências que nunca satisfazem a alma. Precisamos voltar ao manancial perene de águas que satisfazem a sede de coração. O pedido dos discípulos de Jesus é também o nosso pedido: “Senhor ensina-nos a orar” (Lc 11,1). Orar é entrar numa relação única com o Pai e experimentar o prazer de conhecer sua vontade e cumpri-la; é desprender-se da própria vontade e permitir que a vontade de Deus molde o nosso caráter; é submeter-se à vontade de Deus e se converter à sua vontade. Orar é sempre um segundo ato. Primeiro, ouvimos a Deus, depois, em um momento de quietude, oramos a Ele.

Carlos Cunha

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