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Teologia do Evangelho de Marcos

BIBLIOGRAFIA

AUNEAU, J. et al. Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1985. p.96-115. MARCONCINI, B. Os Evangelhos sinóticos: formação, redação, teologia. São Paulo: Paulinas, 2001. p.104-115. LIBANIO, J.B. Linguagens sobre Jesus: linguagens narrativa e exegética moderna.v.2. São Paulo: Paulus, 2012. p.91-103. CARSON, D.A. et al. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997. p.99-122. Bíblia de estudo ALMEIDA. São Paulo: SBB, 1999.

INTRODUÇÃO

Desde o início do século XX, a teoria do “Segredo messiânico” colocava a leitura dos evangelhos, e particularmente a de Marcos, no terreno da teologia. A valorização da perspectiva teológica dos Sinóticos favorece o evangelho de Marcos como uma fonte singular que transmite uma mensagem, retomando e trabalhando as tradições.

Marcos, como fonte, oferece instrumentos para o estudo sobre a vida e a mensagem de Jesus Cristo. Nele podemos estudar a maneira como apresenta Jesus, como concebe o Reino, a vida de discípulo, a missão cristã etc. Na elaboração de uma teologia do Novo Testamento, vem a ser tão indispensável quanto Mateus e Lucas.

Mesmo apresentando desordens cronológicas e topográficas, Marcos supera um mero historicismo sobre a vida do Mestre. O seu enfoque consiste em refletir sobre a pertinência teológica da vida histórica de Jesus e seu ministério. O seu evangelho é uma prédica em que os atos e os ditos de Jesus compõem o tema fundamental para os seguidores do Filho do Homem.

O “evangelho”, como forma literária, criado por Marcos permite o entrelaçamento de temas “biográficos” e querigmáticos com a pretensão de transmitir ao leitor a relevância do evento Cristo e lembrar aos cristãos de que sua salvação depende desse ato realizado uma vez por todas por Jesus. Marcos vinculou inextricavelmente a fé cristã à realidade de acontecimentos históricos. A estruturação querigmática proposta por Marcos dá ao leitor a compreensão dos acontecimentos salvíficos e prepara-o para recitar esses eventos em sua própria evangelização.

Por isso, para uma devida apropriação do conteúdo marcano, a leitura do evangelho precisa ser global. O conjunto do texto mostra a convergência dos elementos que apontam para o reconhecimento de Jesus, proclamação do Reino e o convite a uma vida cristã. É preciso estar atento à correlação destes elementos.

É a partir desses três eixos: reconhecimento de Jesus como Filho de Deus, proclamação do Reino de Deus e o convite a uma vida de seguimento a Jesus, que a teologia de Marcos emerge com relevância para a contemporaneidade. Vejamos:

JESUS CRISTO, O FILHO DE DEUS

O evangelho de Marcos  proclama que Jesus é a revelação definitiva de Deus. É a epifania de Deus no homem Jesus. Em seu Filho eterno, Deus se integra na história da humanidade. Os vários títulos dados a Jesus mostram, sem a pretensão de esgotar, indícios da sua natureza e missão: Jesus Cristo, Filho de Deus (1,1), Filho amado (1,11), Santo de Deus (1,24), Filho de Deus (3,11), Jesus, filho do Deus altíssimo (5,7) Cristo (8,29), Filho amado (9,7), o Messias, o Filho do Deus Bendito (14,61), Filho do Homem (14,62), Filho de Deus (15,39). O singelo mestre chegado da Galileia (1,9) é o Cristo, o Messias a quem desde séculos antigos esperava o povo de Israel (8,29; 9,41; 14,61-62). O evangelista anuncia a presença de Jesus no mundo como o sinal imediato da vinda do Reino de Deus (1,14-15; 4,1-34).

Marcos faz questão de deixar transparecer também a identificação de Jesus com as vicissitudes humanas. Jesus de Nazaré, o Filho de Deus, é também o Filho do Homem. Ele participa dos sentimentos humanos e é sujeito ao sofrimento e à morte (8,31). O Jesus de Marcos atinge o leitor pelo realismo de sua vida humana. Ele provoca no ouvinte-leitor uma reflexão ativa.

Não é sem motivos que Marcos dá destaque aos discípulos como “privilegiados e perplexos” (Guelich). Privilegiados por pertencerem ao Reino de Deus e perplexos por apresentarem reverses diante do sofrimento. Os seus discípulos, principalmente os Doze, aparecem com destaque em Marcos e servem como exemplo para os destinatários de Marcos. No entanto os Doze não são modelos a serem imitados: o seu fracasso evidente é especialmente proeminente em Marcos. O evangelista não oculta esta informação. Marcos descreve os discípulos como duros de coração (6,52), espiritualmente fracos (14,32-42) e incrivelmente obtusos (8,14-21).

O ANÚNCIO DO REINO DE DEUS

Marcos dá atenção especial ao “Reino de Deus” (Basileia tou theou). No evangelho de Marcos, a expressão grega designa a realeza, a dignidade real, e pode tanto qualificar a grandeza que é um reino, quanto o poder exercido ativamente. Conviria escolher em cada contexto o sentido mais possível.

Marcos cria correlações entre o Reino de Deus, o seu evangelho e o ministério de Jesus Cristo. O tema surge como elemento-chave para clarear as relações com:

  1. O Evangelho: Reino de Deus e Evangelho estão ligados na estrutura do texto proposto por Marcos. O Reino traz nova dimensão à existência humana: desvenda uma nova vida, premente para hoje e para o futuro. Atua na história, enquanto a lei de iminência não permite especular sobre a data de seu estabelecimento definitivo (9,1; 13,30-32);
  2. Jesus Cristo: a pregação de Jesus segundo Marcos centraliza-se na iminência do Reino. Aos discípulos revela o segredo deste Reino (4,11); nele só se entra ouvindo a revelação do Filho do Homem (9;10); por fim, é a visão do Filho do Homem que é esperada (13). Jesus conduz ao Reino, o Reino conduz a Jesus.

SEGUIR A JESUS

“Evangelho” em Marcos é a Boa-Nova da salvação trazida por Cristo e pregada pelos apóstolos. Portanto o termo pertence ao vocabulário da missão cristã. Utilizado três vezes no prólogo e introdução, ele orienta a leitura do livro (1,1.14.15). Está intrinsecamente ligado a Jesus, que dele é o objeto, mas também o sujeito ativamente presente em sua pregação. O seguimento a Jesus se faz na proclamação do Evangelho de Deus, isto é, a plenitude dos tempos e a iminência do Reino de Deus, e provocar, assim, a conversão e a fé. Marcos remonta ao princípio da pregação do evangelho ou ao princípio que a fundamenta.

O termo “evangelho”, que Marcos introduz sem explicação, como algo conhecido de seus leitores, traduz bem sua preocupação missionária. Permite unir e integrar diferentes elementos constitutivos no seu texto: ministério histórico de Jesus, presença do Ressuscitado entre os seus, missão da Igreja.

Marcos explora muito o itinerário de Jesus. A vida de andarilho revela a vocação missionária, desprotegida, desapegada, livre para consagrar-se ao anúncio do Reino. A transformação de vida que Jesus exige ao proclamar a Boa-nova do Reino concretiza-se numa vida de fé. O plural “crede” interpela uma comunidade de crentes. O texto indica que o caminho da fé lhe é difícil.

Ao dizer “convertei-vos e crede no evangelho” (1,15), Marcos elabora uma mensagem de conforto e incentivo dirigida a uma comunidade que vive um período de crise. Tal mensagem de ânimo esbarra nas limitações dos discípulos que respondem com a prece do pai do menino endemoninhado: “Eu creio! Mas ajuda a minha incredulidade!” (9,24). Viver na fé é seguir Jesus por áridos caminhos. Itinerário obscuro que, paradoxalmente, ilumina as dimensões profundas do relacionamento que o evangelho instaura entre o crente e Jesus, Filho de Deus.

Carlos Cunha

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Introdução ao Evangelho de Marcos: características gerais

BIBLIOGRAFIA

AUNEAU, J. et al. Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1985. p.57-131. KÜMMEL, Werner G. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1982. p.93-121. KONINGS, Johan. Marcos. São Paulo: Loyola, 1994. MARCONCINI, B. Os Evangelhos sinóticos: formação, redação, teologia. São Paulo: Paulinas, 2001. p.85-115. LIBANIO, J.B. Linguagens sobre Jesus: linguagens narrativa e exegética moderna.v.2. São Paulo: Paulus, 2012. p.91-103. Bíblia de estudo ALMEIDA. São Paulo: SBB, 1999.

INTRODUÇÃO

Para uma visão geral da estrutura do evangelho de Marcos, eu faço uma opção pelo esboço sugerido pela Bíblia de Estudo Almeida (SBB, 1999). Evidentemente, que há esboços mais bem trabalhados como é o caso do material oferecido por Jean Auneau (cf. AUNEAU et al., 1985, p.59-64). Mas, para o momento, o texto de Marcos, esboçado por meio de grandes blocos narrativos, atende o objetivo proposto nessa introdução ao evangelho de Marcos. Vejamos:

Prólogo 1,1-15

Pregação de João Batista 1,1-8

Começo do ministério de Jesus 1,9-15

1. Jesus, o Messias 1,16-8,30

a)      Atividades e ensinamentos de Jesus 1,16-3,12

b)      Proclamação do Reino de Deus 3,13-6,6

c)      Jesus se revela como o Messias 6,7-8,30

2. Jesus, o Filho do Homem 8,31-16,20

a)      Jesus anuncia a sua morte 8,31-11,11

b)      Atividades de Jesus em Jerusalém 11,12-13,37

c)      Paixão, morte e ressurreição 14,1-16,20

De imediato, percebem-se dois momentos distintos no evangelho de Marcos: 1. Jesus, o Messias e 2. Jesus, o Filho do Homem. No primeiro momento, o ambiente predominante é o da Galileia enquanto, no segundo momento, Jerusalém passa a ser o espaço em foco. O itinerário proposto por Marcos deixa transparecer, na maneira como divide a história de Jesus (Galileia e Jerusalém), sua concepção teológica da salvação que escapa das mãos dos judeus incrédulos para os gentios que creem.

A estrutura geográfica-teológica de Marcos realça a natureza cristológica do evangelho. No primeiro momento (1,1-8,26), há alusões esporádicas ao significado da pessoa de Jesus (ex. 1,34; 2,10.17b.19.28; 3,11; 4,41 etc.). Não se põe claramente a questão relativa a este Jesus, como também não há referências à necessidade, para a salvação, de sua morte e ressurreição – tema para o segundo momento (ex. 8,27-31; 9,2ss; 12.31.41; 10,33s.45 etc.).

Marcos exibe, embora de maneira um tanto sumária e grosso modo, certa organização geográfica. Jesus é encontrado na maioria das vezes na Galileia e adjacências e caminhado rumo à Jerusalém. A grande concentração da atividade de Jesus na Galileia tem um motivo de ordem teológica. A marca da concepção teológica do significado da Galileia, como o lugar da atividade escatológica de Jesus e do ponto de partida da evangelização dos gentios, é guiada em sua marcha pelo Ressuscitado. Com isso dá a entender claramente que Marcos está se dirigindo aos cristãos provenientes da gentilidade, que não têm mais ligação com Jerusalém ou com os judeus de lá.

Além disso, torna-se evidente por meio da concentração proposital do material cristológico, que Marcos está plenamente concebido de acordo com o querigma pós-pascal. Fato este cada vez mais claro diante do tema do “Segredo messiânico”. Isto é:

“No evangelho de Marcos, Jesus proíbe sistematicamente que alguém publique ser ele o Messias (ou ‘Cristo’, em grego), sejam os demônios que o reconhecem como vencedor ao serem expulsos, seja alguém que é curado, seja Pedro que dos milagres deduz ser ele o Messias (8,29). Jesus faz segredo de seu messianismo, ainda que as pessoas não respeitem sua proibição (1,44-45). A razão pode ser dupla: em primeiro lugar, não quer ser identificado com o que geralmente se espera do Messias: um novo Davi, um guerreiro que expulse os estrangeiros, levante a grandeza nacional de Israel etc. Por outro lado, se Jesus não faz tudo o que se espera do messias davídico, ele faz muito mais. Mas para identificar esse ‘programa’ inesperado e incompreensível, ele usa outro termo: ‘filho do homem’ (8,31). No evangelho de Mc, o ‘segredo messiânico’ aponta para a manifestação escondida do ‘filho do homem'”(KONINGS, 1994, p.37).

Atenção à imagem do Filho do homem que se pretende ocultar, mas que não pode continuar a fazê-lo, como expressão da fé, a qual reconhece já na vida terrena de Jesus a dignidade oculta do Filho de Deus perpassa toda a sua vida, desde o nascimento até a morte e à ressurreição. Fica claro que Marcos modelou teologicamente a tradição palestina a respeito de Jesus de acordo com pressupostos gentio-cristãos.

A divisão baseada em critérios teológicos utilizados pelo evangelho de Marcos tem como eixo a progressiva manifestação da identidade de Jesus, que é um aspecto muito importante neste evangelho. Esta manifestação gira em torno de dois títulos: Messias e Filho de Deus (Mc 1,1).

Depois desta breve análise a partir do esboço sugerido, faremos uma introdução aos elementos referentes à autoria, linguagem, datação, destinatário e estrutura literária.

AUTORIA

Marcos, como fonte, é pioneiro no gênero literário conhecido como “evangelho”. Ele está subjacente aos outros dois evangelhos sinóticos como a forma mais antiga de evangelho. Se procurarmos a forma mais original da tradição de Jesus, deveremos olhar para o evangelho de Marcos. A Teoria das duas fontes traz à tona a tradição transmitida isoladamente ou pequenos grupos de unidades de tradição oral utilizadas pelo evangelista. Assim, ele teria combinado entre si pequenas coleções de diversas tradições e unidades dispersas da tradição, resultando disso tudo uma apresentação mais ou menos coerente.

Marcos não é um historiador, nem um mero compilador (transmissor de uma tradição), ou divulgador, e sim um autor que conscientemente reelaborou a tradição com algumas pecularidades literárias de sua composição. Marcos é um narrador que conta o que chegou ao seu conhecimento.

Para a exegese tradicional, Marcos é um convertido do Judaísmo:

“[…] Chamado João Marcos (At 12,12-25; 15,37), primo ou sobrinho de Barnabé (Cl 4,10), com quem está em estreita relação (At 15,36-40), bem como com Pedro, que após a sua milagrosa saída da prisão refugiou-se ao lado da mãe de Marcos, Maria, proprietária de uma casa que se tornou centro de oração para a comunidade cristã (At 12,12). Segue Paulo na primeira viagem missionária, ainda que depois o abandone (At 12,25; 13,5) e volta para Chipre junto com Barnabé. Estará novamente próximo do apóstolo dos gentios, prisioneiro em Roma (Fl 24), de quem ele se torna valoroso colaborador (2Tm 4,11). Está ligado à figura e à pregação de Pedro, de quem é reconhecido ‘intérprete’ (ermeneutés) por Papias, mais que um tradutor ou ‘porta-voz'”(MARCONCINI, 2012, p.91).

Outro elemento importante a favor da autoria de João Marcos é a sua relação com Pedro e Paulo. Só para ter uma ideia dessa relação, Pedro aparece 25 vezes no evangelho de Marcos. Pedro, na sua primeira carta o menciona como “meu filho Marcos” (1Pe 5,13). Quanto a Paulo, Marcos foi seu colaborador (At 12,25; 13,5.13; 15,37.39; 2Tm 4,11).

Já na exegese liberal, não se atribui a autoria de Marcos com tanta veemência. Há certa cautela em definir com precisão quem escreveu o evangelho que leva o nome de Marcos. É nesse espírito de temeridade atrelado às novas pesquisas redacionais que surge o elemento da pseudonímia.

“A redação dos Evangelhos usou um recurso que nos chocaria hoje, ao atribuir a um apóstolo ou a um discípulo determinado a autoria do texto a fim de vesti-lo de maior peso e autoridade, embora ele não tenha sido o real, ou pelo menos, o autor completo do texto. Alguma vinculação se buscou com ele, mas de difícil acesso para nós hoje” (LIBANIO, 2012, p.87).

É possível conciliar as duas opiniões no sentido de ver João Marcos como um dos autores do longo processo de composição do evangelho de Marcos.

LINGUAGEM

O grego utilizado pelo evangelho de Marcos apresenta a rusticidade característica de quem está usando um idioma que não lhe é próprio e, contudo, sabe desenvolver um estilo vivo e vigoroso. Recorre, provavelmente, à memória de coisas ouvidas, mas é capaz de criar no leitor a impressão de encontrar-se ante uma testemunha ocular dos fatos relatados.

A rudeza da linguagem e o imediatismo das cenas traduzem mais facilmente o estilo da linguagem falada, estilo improvisado, mais propenso a converter do que deixar-se admirar pela fluência de um texto, exigindo assim, com muita probabilidade, a pregação romana de Pedro. A linguagem utilizada no evangelho sintetiza a tradição querigmática de Paulo e a tradição narrativa de Pedro.

A língua é o grego popular koiné, com semitismos (talithà kum, effethâ, kordân, Abbà etc.), porém não de tal modo a justificar um original aramaico, com alguns latinismos (praitórion, kentyrion etc.), com estilo vivaz, próprio da oralidade, pouco cuidado gramatical e sintático.

DATAÇÃO

Há certa unanimidade com relação à composição do texto. Ele pode ser datado, com maior probabilidade, antes da destruição de Jerusalém e não depois. Marcos foi escrito entre 65 e 70 d.C. antes da redação de Mateus e Lucas.

DESTINATÁRIO

Os elementos oriundos da linguagem e da datação ajudam a montar o perfil do destinatário do evangelho de Marcos. Há fortes indícios de ser uma comunidade de origem como sendo Roma. Os Pais da Igreja testificam sobre isso (Clemente de Alexandria, Jerônimo, Eusébio etc.) e ratificam-no numerosos latinistas.

É uma comunidade que está passando ou passou pela perseguição de Nero (ano 65) e pelos efeitos da revolta judaica (anos 66-70). Portanto, uma comunidade sacudida em sua própria fé e sobre a messianidade e o poder de Jesus. A comunidade é convidada a reinterpretar a própria vida à luz do evento Cristo. É uma comunidade que se organiza, não apenas para ajudar os que creem a reconhecer a Jesus, como também a anunciá-lo a quem não o conhece. Por isso é uma comunidade aberta à missão, como as numerosas referências ao querigma e à catequese deixam entrever (1,21-28; 7,24-30; 14,9). Uma evangelização difundida por toda parte, de casa em casa (6,6b-7.10).

ESTRUTURA LITERÁRIA

Do ponto de vista da composição literária, o evangelho de Marcos pode ser chamado de evangelho da “desordem” (Papias). O exame do material literário e a sua estruturação em uma única obra constituem um problema tão controverso que chegam a desorientar os especialistas mais habilitados. Isto porque há pelo menos três critérios possíveis para a estruturação do evangelho: geográfico, literário e teológico. Que ideia teria guiado o evangelista neste trabalho de unir entre si estas passagens isoladas?

Elencaremos os elementos estruturais mais importantes:

  1. O autor não conhece pessoalmente a geografia da Palestina como o demonstram seus números erros.
  2. O autor privilegia a teologia dos espaços (Libanio). Faz frequentemente uso do expediente literário, de maneira a preencher determinado espaço de tempo (ex. 3,22-30 em 3,21.31-35; 5,25-34 em 5,21-24.35-43; 6,14-29 em 6,6-13.30s etc.).
  3. Costuma preparar antecipadamente o espírito do leitor para acontecimentos posteriores (ex. 3,9 antes de 4,1ss; 11,11 antes de 11,15ss etc.).
  4. Dá a impressão de uma visão de conjunto do acontecido, no sentido de que mais de uma vez insere resumos entre as narrativas distintas (1,32-34; 3,7-12; 6,53-56).
  5. Da grande destaque a Pedro (25 vezes) e “os Doze” (11 vezes). A comunidade reflete um ambiente popular, com tendências apocalípticas (Mc 13 e a demonologia), pouco afeita aos textos do Primeiro Testamente, citando-os apenas cerca de 30 vezes.
  6. Prevalecem as narrativas compostas de milagres, controvérsias, narrativas biográficas.
  7. Os ensinamentos consideram sobretudo as parábolas (14) e o discurso escatológico (13).
  8. Agrupamentos de breves episódios e de conjuntos maiores são mobilizados por toda uma série de técnicas, como palavras e conectivos (“e”, “de repente”, “de novo”, verbos de movimento).
  9. A ocorrência de títulos que revelam a pessoa de Jesus e as reações dos presentes constitui a estruturação que se estende a todo o evangelho: Jesus Cristo, Filho de Deus (1,1), Filho amado (1,11), Santo de Deus (1,24), Filho de Deus (3,11), Jesus, filho do Deus altíssimo (5,7) Cristo (8,29), Filho amado (9,7), o Messias, o Filho do Deus Bendito (14,61), Filho do Homem (14,62), Filho de Deus (15,39).
  10. Uma característica típica de Marcos é que dedica mais espaço aos atos que aos discursos de Jesus.
  11. O que realmente importa ao evangelista é testificar que à pergunta sobre quem é Jesus a primeira comunidade cristã respondeu com convicção: Jesus é o Filho de Deus. E, fazendo-se eco dessa afirmação de fé, Marcos inicia a sua mensagem enunciando solenemente Mc 1,1.

Carlos Cunha

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