“Entendes o que lês”

“Disse então o Espírito a Filipe: ‘Adianta-te e aproxima-te da carruagem”. Filipe correu e ouviu que o eunuco lia o profeta Isaías. Então perguntou-lhe: ‘Entendes o que lês?’ ‘Como o poderia, disse ele, se ninguém me explicar?” (At 8,29-31).

O texto supracitado narra o contexto do batismo de um eunuco etíope, alto funcionário de Candace, por Filipe. O texto diz que o eunuco estava lendo o profeta Isaías quando foi interpelado por Filipe sobre a compreensão do que lia. Nesse pequeno diálogo, emergem duas perguntas de fundo interpretativo: “Entendes o que lês?” e “Como o poderia, disse ele, se ninguém me explicar?”.

Essas são perguntas geradas pelo anseio de apreender – assimilar com profundidade – o conteúdo do texto. Quando Filipe se propõe a explicar, tornar claro, o texto bíblico para o Eunuco (At 8,31-35), ele se coloca na posição de exegeta; de hermeneuta. I.é. Filipe conduz o eunuco pela leitura do texto e em seguida expõe o seu conteúdo de maneira clara e contextual.

Passagem como essa, também pode ser extraída do Primeiro Testamento. O texto é o do Neemias. No capítulo oito, o livro de Neemias narra a leitura da Lei de Moisés feita pelo escriba Esdras. Esdras não somente leu o livro, mas o explicou como um exegeta/hermeneuta: “E Esdras leu no livro da Lei de Deus, traduzindo e dando o sentido: assim podia-se compreender a leitura” (8,8). Interessante observar a reação dos ouvintes após a compreensão do que havia sido lido: “E todo o povo se retirou para comer e beber; distribuíram porções e se expandiram em grande alegria: pois haviam compreendido as palavras que lhes foram comunicadas” (8,12).

Episódios como o de Filipe (At) e de Esdras (Ne) estão por toda a Bíblia. Escribas, profetas, reis, discípulos e gente simples de modo geral leem, explicam e traduzem mensagens. O próprio Jesus fez isso por várias vezes, segundo os Evangelhos. Ele foi durante todo o seu ministério terreno o exegeta/hermeneuta do Pai. Desde a abertura do profeta Isaías na sinagoga dos judeus (Lc 4,16-20) até o brado na cruz de confiança e de esperança no Deus em cujas mãos se “abandonou” e entregou seu espírito (Mc 15,34 releitura do Sl 22), Jesus exerceu a função de hermeneuta da vontade do Pai.

Esses textos servem de ilustração para chamar a atenção para a importância da hermenêutica bíblica. A percepção de que não sabemos as coisas direta e imediatamente sugere que o conhecimento é o resultado da interpretação. A realidade é um texto a ser interpretado, mediado pela linguagem, história, cultura e tradição. De modo que, quando vamos aos textos bíblicos, nos deparamos com textos já interpretados. Entender isso é fundamental para uma leitura bíblica crítica. A ideia não é criticar a Bíblia ou procurar descobrir erros em seu contexto, mas usar critérios científicos para julgar o texto o mais objetivamente possível, no que diz respeito aos aspectos históricos e literários, empregando todos os estilos de crítica literária (textual e redacional).

Carlos Cunha

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Arquivado em Reflexão teológica

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