Como ler a Bíblia?

Desde a Alta Crítica literária, século XVIII, já não se pode ler mais os textos bíblicos de forma acrítica, sem as preciosas contribuições oriundas das escolas críticas: Crítica das Fontes (Formgeschichte), Crítica da Tradição (Tradition-geschichte) e Crítica da Redação (Redactiongeschichte). Somadas as essas contribuições, o estudioso da Bíblia de hoje ainda tem os aportes da Crítica da História das Tradições, a Análise Estrutural, a Filologia, a Paleografia e a percepção dos gêneros literários da Nova Crítica Literária. É bom que se diga: Tais instrumentos de análise literária são ferramentas secundárias, limitadas, para a leitura da Bíblia, fonte primária. Mas, mesmo sendo instrumentos secundários e falíveis, as ferramentas hermenêuticas cooperam muito na correção de leituras equivocadas.

 Mas, qual é a leitura bíblica equivocada? É aquela que vai contra o texto. É a leitura que não respeita o processo de composição do texto. Rejeita o princípio da ecdoticidade, que examina o texto bíblico, considerando-o como texto antigo que exige uma crítica textual e recomposição por meio da arqueologia do texto. Além disso, ser contra o texto é não observar o caráter teândrico da Bíblia. A Bíblia enquanto Palavra de Deus é divina e humana. Enquanto divina, a Bíblia tem relevância eterna, pois comunica a Palavra de Deus aos seres humanos em todos os tempos e em todas as culturas. Já enquanto humana, a Bíblia tem particularidades históricas próprias dos seus autores, tradições e contextos existenciais (Sitz im leben). Assim a hermenêutica bíblica é uma disciplina teológica em tensão entre a relevância eterna e particularidades históricas presentes nos textos bíblicos.

Ao ler a Bíblia, o leitor encontra testemunhos dos acontecimentos narrados, compreendidos e interpretados. A autoridade da Bíblia é de caráter teológico, não científico e/ou histórico. É por isso que se pode afirmar que a “Bíblia tem erros, mas não é errada” (J. Konings). Ela contêm erros científicos e também históricos. Mas quem disse que a pretensão dos textos bíblicos é fazer ciência e história? A Bíblia é uma coletânea de textos religiosos e nada mais. Afirmar que a Bíblia contém erros não é negar a sua inerrância ou a sua infalibilidade. A Bíblia é inerrante e infalível para aquilo que se propõe: salvação de toda criação por meio de Jesus Cristo, o filho de Deus encarnado.

No fundamentalismo bíblico nada disso tem valor. O que vale não é a verdade religiosa contida no texto, mas a verdade histórica do que está relatado e tal como está literalmente. Embora afirme que o único fundamento é a Bíblia, o fundamentalismo, na verdade, parte da ideia que se tem da Bíblia – texto ditado por Deus (ditado verbal), livre de erros, manual de doutrinas. Em grupos assim, não há lugar para os recursos da hermenêutica bíblica. Não se admite o processo de interpretação e de atualização da Escritura. “Passa diretamente de Deus (autor) e ao texto e deste ao presente, como se tivesse sido escrito ontem e aqui” (E. Arens). Não comporta processos diacrônicos e sincrônicos de leitura. É uma leitura anacrônica.

Um dos erros do fundamentalismo bíblico é a leitura literalista. Nesse ambiente, os gêneros literários existentes na Bíblia são ignorados ou reduzidos a qualquer narração do gênero histórico, de modo que tomam tudo ao pé da letra. Leem a Bíblia como qualquer texto histórico ou jornalístico. Ou pior: Leem as Escrituras pelas margens dos textos com o intuito de descobrir a “última revelação”. A exegese é substituída pela eisegese: faz dizer a certos textos o que querem que digam. Memorizar algumas passagens, fora do contexto, e repeti-las constantemente são indícios do verdadeiro conhecedor da Bíblia, segundo o fundamentalismo.

Carlos Cunha

3 Comentários

Arquivado em Reflexão teológica

3 Respostas para “Como ler a Bíblia?

  1. eduardo amorim

    carlos, ler a biblia com uma vista epistêmica não me projeta para o fundamentalismo? mesmo tendo por intuito fugir das predefinições, o seja, mesmo lendo-a com sob a perspectiva hermeneutica, onde preciso visar um contexto, nao pego reduzindo o texto a padronizações e me fecho para discussões? gostaria de entender se a vista do texto como um todo não me torna padronizador de ideias?

    • Oi, Eduardo. Que bom vê-lo por aqui…
      Veja só, se entendi corretamente as suas perguntas, eu diria o seguinte: Primeiro, não há leitura bíblica sem orientações epistemológicas. Elas são necessárias. Elas só projetam o leitor para o fundamentalismo quando se tornam um fim em si mesmo. Segundo, os texto bíblicos são polissêmicos. Embora tenham origens pontuais (contexto/autor), eles se abrem ao processo de inculturação (contexto/leitor). Aqui, dois movimentos de interpretação, em conjunto, são necessários: diacronia (evolução do texto) e sincronia (contemporaneidade do texto). Terceiro, a visão do todo do texto não padroniza ideias, não engessa. Antes, permite captar no texto aquilo que é essencial para a sua devida compreensão e apreensão e, posteriormente, aplicação na vida do leitor.
      Espero ter esclarecido…
      Abraços.

      • eduardo amorim

        consegui entender sim, muito obrigado. O desafio para mim é conseguir conhecer o texto como ele é (tendo em vista sua possivel origem cultural) e contextualiza-lo logo em seguida.
        muito obrigado pela resposta, eu tenho lido os seus textos sempre que possivel, tem sido de grande valia.

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