Ecoteologia

A ecologia pode ser uma nova chave hermenêutica para pensar e fazer teologia. O drama dos acontecimentos ambientais decorrentes da exploração do planeta tem uma força pedagógica no sentido de mobilizar as igrejas para missão integral. Gostaria de enumerar pelos menos seis diretrizes do diálogo entre ecologia e a teologia da criação.

Primeira, o desafio de dar ao sujeito pós-moderno o sentido de um universo teologal. Isto é, os humanos estão nivelados pelos ecossistemas que compõem a grande rede da vida. O ser humano não foi chamado para explorar e dominar (Gn 1,28), mas para cuidar e cultivar (Gn 2,15) o planeta. A criação não pode ser pensada numa perspectiva antropocêntrica, cartesiana e newtoniana que visa objetivar a natureza em prol do progresso ilimitado.

Segunda, a criação é intrinsecamente boa, e carrega em si um sentido, uma inteligibilidade interna advinda do próprio ato criador. Deus cria, isto é, suscita uma verdadeira novidade, uma realidade que tem em si mesmo uma estrutura imanente de autogênese e de criatividade, que no ser humano alcança o nível de liberdade. A criação não é fabricação de coisas prontas. Criar é fazer com que o outro seja ele mesmo, de modo que, a criação é um campo aberto, dinâmico e criativo.

Terceira, é preciso afirmar que Deus está presente em suas criaturas e todas as coisas estão voltadas para Ele pelo dinamismo do Espírito que habita o mundo. Em vez de panteísmo (Deus é tudo), podemos falar corretamente em um panenteísmo (Deus está em tudo). Em outras palavras, de forma poética, a tradição do antigo Oriente expressou a onipresença do Espírito em toda criação: “O Espírito dorme na pedra, sonha na flor, acorda no animal e sabe que está acordado no ser humano”.

Quarta, a Trindade como modelo para o pensamento ecológico que, priorizando a dimensão sistêmica ou relacional, vê todos os seres como membros de uma comunidade biótica, interligados por uma cadeia de conexões vitais. Este modelo é possível porque a comunicação de Deus para fora de si na criação já acontece na autocomunicação divina, isto é, no interior da própria Trindade. A Trindade é uma comunidade de pessoas distintas, amorosamente interrelacionadas, em comunhão de ser, de bem e de vida, de modo que o universo inteiro tem sua origem fontal nessa amorosa comunhão trinitária.

Quinta, o mundo tem uma marca de filiação. Deus cria no Filho. Isto é, Jesus Cristo é o modelo da criação e que esta carrega em si as marcas da presença do Filho. O destino do mundo é ser tomado pela filiação. Portanto, o senhorio de Cristo se estende a toda realidade, de modo que o efeito redentor de seu ministério pascal não se limita aos seres humanos, mas se estende a todo mundo criado. A bondade intrínseca da criação, já revelada na tradição do Primeiro Testamento, vê-se confirmada pela mensagem do Segundo Testamento: se a criação de Deus é dádiva do seu amor (1Tm 4,4), nada deve ser tido como impuro em si mesmo (Rm 14,14).

Sexta, a criação tem uma clara dimensão salvífica. A intenção de toda criação se manifestará, plenamente, no final, mas está atuante deste o início. Essa linha de continuidade entre protologia e escatologia é fundamental para uma adequada teologia cristã da criação. É na ressurreição de Cristo que a fé cristã vê, de forma antecipada, a futura completude não somente da espécie humana, mas de todo o universo. O olhar escatológico para a Nova Criação é, desse modo, para a teologia cristã que se depara com a crise ecológica, uma fonte de esperança.

Assim é que a teologia em uma perspectiva da ecologia oferece um novo movimento práxico às igrejas cristãs e as interpelam a se lançarem numa missão consciente do todo e participativa na construção do Reino de Deus aqui e agora.

Carlos Cunha

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