Cristologias contemporâneas

A cristologia clássica procura responder a duas perguntas fundamentais: “Quem é Jesus Cristo?” e “Qual é o significado do que Jesus Cristo realizou na encarnação?”. Enquanto a primeira pergunta é de ordem ontológica, a segunda remete ao caráter práxico do ministério terreno de Jesus Cristo.

Em busca de respostas para as perguntas fundamentais, teólogos cristãos conservadores, veem sistematizando cristologias ontológicas a partir dos dados da encarnação de Jesus Cristo. A preocupação recai sobre a precisão dos termos que melhor, e de maneira mais precisa, abarquem as duas naturezas de Jesus Cristo; refutem as heresias e deem fundamentos para a crença dos fiéis.

Já as cristologias contemporâneas, mesmo considerando a importância dos credos cristológicos produzidos pelos vários concílios ecumênicos, buscam repensar a relação da cristologia clássica sob a luz das novas ciências. Ciências modernas associadas aos novos estudos bíblicos e exegéticos e o impacto sobre a sociedade interrogam o valor dos credos conciliares diante de uma postura cristã com um forte apelo existencial.

Desde então, muitos teólogos protestantes (P. Tillich, W. Pannenberg, E. Jünkel etc.) e católicos (H. von Balthasar, K. Rahner, E. Schillebeeckx etc.) produzem cristologias com o intuito de contextualizá-las ao testemunho bíblico; completar a cristologia ontológica por uma cristologia existencial; indagar a definição de Calcedônia, considerando o valor simbólico que remete à novas aplicações conceituais e não a fixidez conceitual; deduzir as condições de possibilidade no ser humano da credibilidade do evento Jesus Cristo.

As cristologias contemporâneas primam por afirmar que o valor das confissões de fé e definições conciliares está na associação com a história e o destino de Jesus Cristo. Enquanto a cristologia clássica partia imediatamente da encarnação, a teologia contemporânea, fiel nisso ao Segundo Testamento, dá prioridade à cristologia “de baixo” ou ascendente, i.é. à consideração do homem Jesus confessado como Senhor, Cristo e Filho de Deus. A cristologia “do alto” ou descendente vem então tomar sua vez, num segundo tempo, à luz dos textos paulinos e joaninos. Pela mesma razão, o movimento cristológico contemporâneo opera um retorno maciço à Escritura, respeitando a distância entre a cristologia implícita e a cristologia explícita, e a originalidade das diferentes tradições sobre Cristo.

Faz-se notório como as cristologias contemporâneas deslocam seu centro de gravidade tradicional da encarnação para o mistério pascal. Toma em consideração a história de Jesus e articula a relação entre história e fé à luz da correspondência entre o Jesus terrestre e o Cristo glorificado.

Mesmo com toda lucidez e em posse de importantes ferramentas científicas, as cristologias contemporâneas apresentam tendências polarizantes preocupantes para o estudo da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo e, consequentemente, para a fé do fiel. As antigas heresias cristológicas estão de volta. Dentre elas, o monofisismo e o nestorianismo ressurgem como impasses na busca por uma cristologia hodierna. Ao afirmar a divindade de Jesus em detrimento da sua humanidade (monofisismo) ou afirmar a sua humanidade em detrimento da divindade (nestorianismo), a cristologia hodierna peca por não manter o equilíbrio entre os movimentos ascendente e descendente.

Carlos Cunha

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