Escatologia e Apocalipse

É comum nos segmentos católicos e protestantes a indistinção conceitual entre os termos “Apocalipse” e “Escatologia”. A falta de precisão no uso dos termos leva a equívocos e erros. A palavra “escatologia” vem de dois vocábulos gregos: éschatos (último, fim) e logia (palavra, discurso, tratado). Portanto, “escatologia” significa o discurso teológico que trata das coisas últimas ou finais da história do ser humano e do mundo. No âmbito católico, o termo também é conhecido como novíssimos.

 No Segundo Testamento, o escatológico pode se referir simplesmente a pessoas, coisas e situações que não têm nenhuma conotação teológica ou doutrinária. Por outro lado, o escatológico pode ter vinculação com o que tecnicamente chamamos “eventos finais”, “acontecimentos escatológicos”, ou seja, tem um sentido propriamente teológico que pertence a esse campo da escatologia bíblica.

Infelizmente, o estudo da escatologia se divide em estudos sérios e estudos superficiais. Os estudos sérios são frutos de exposições verdadeiras da escatologia bíblica e teológica, sustentados por sólidos trabalhos exegéticos e interpretativos que são construídos a partir dos dados bíblicos sobre o fim da história. Já os estudos superficiais, estão cheios de esquemas escatológicos que se apresentam como mapeamento do futuro, padecem de métodos exegéticos adequados e soltam as rédeas da imaginação e da especulação.

 Quanto ao termo “Apocalipse”, a palavra vem de dois vocábulos gregos: apo (dentro para fora) e kalypsis (cobertura, véu). Portanto, apocalipse significa “descobrir, tirar o véu para que algo possa ser visto”.

A literatura apocalíptica é um gênero literário surgido entre o século II a.C. e que se estende até o século II d.C. O ambiente ou a circunstâncias em que ele surgiu está vinculado a ideias como o “remanescente justo” e o problema do mal. A finalidade dos escritos apocalípticos, à luz dos estudos sérios sobre o tema, era dar uma resposta aos tempos de crise, tanto de índole cultural (influência de impérios pagãos) como da teodiceia.

O contexto histórico do livro Apocalipse se destina a consolar e fortalecer o povo de Deus em tempos de perseguição. Destina-se a recuperar a esperança. Não é um texto orientando para a “segunda vinda de Jesus” ou para o “fim do mundo”, mas está centrado na presença poderosa do Cristo ressuscitado, agora, na comunidade e no mundo. O Cristo ressurreto transforma o presente num kairós: momento de graça e de conversão; tempo de resistência, de testemunho e de construção do Reino de Deus. De modo que a mensagem do Apocalipse é: se Cristo ressuscitou, o tempo da ressurreição e do reino de Deus já começou.

Ao utilizar uma linguagem simbólica, o gênero apocalíptico se utiliza de um sistema no qual certas verdades e conceitos são transmitidos por meio de imagens de coisas, anjos, números, animais, sinais etc. Portanto, a linguagem apocalíptica não deve ser lida de forma literal. Antes, é uma linguagem cifrada, enigmática, que convida o leitor a captar o conteúdo da mensagem para além do texto recheado de verdades com uma roupagem simbólica. Enquanto o sinal é apenas informativo, indica uma realidade estranha; o símbolo representa a realidade à qual remete, desvela-a e participa de seu poder. Os símbolos religiosos desvelam a dimensão profunda da realidade, e remetem a uma realidade que transcende toda realidade condicionada, tornando possível a experiência da dimensão da profundidade, a experiência do incondicionado.

Carlos Cunha

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Arquivado em Reflexão teológica

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