Hermenêutica bíblica de Paul Ricoeur

Paul Ricoeur, o filósofo francês protestante da hermenêutica filosófica, escreveu e pensou, por mais de 30 anos, a relação do texto com a realidade, e o lugar, ou as possibilidades, da hermenêutica bíblica. Ele nunca negou a sua fé e articulou o pensamento filosófico com e a partir dos textos fundantes do Cristianismo, as Escrituras enquanto Revelação.

Ricoeur define a hermenêutica não como a tarefa que visa provocar decisão no leitor, como entende Gadamer, mas o esforço de mostrar o mundo do texto, razão de ser do texto bíblico. Por isso, a compreensão não é contemporaneidade do leitor com o autor, mas distanciamento concreto, compreensão na distância, hiato pessoal e temporal. Tal compreensão corrige a tendência de imediatidade, perceptível na busca exegética da intenção do autor, que funde o “lá” do autor com o “aqui” do leitor, sem pudores.

A tarefa da exegese bíblica é, pois, fornecer certas informações complementares sobre os gêneros literários, as instituições, dados sociológicos e culturais, lingüísticos e lexicais, entre outros, ou seja, labutar na arqueologia do texto. Com esse auxílio, o leitor hermeneuta estará mais bem equipado para perguntar sobre relação entre o sinal e o intérprete, ou seja, perguntar por que é que está dito assim, por quem, com que objetivo, e porque agem os personagens de certa maneira, que motivos presidem a intriga, a narrativa. Na busca das respostas as estas questões de interpretação, que não partem da intenção autoral num primeiro momento, e que se encontra o mundo ali inscrito.

As Sagradas Escrituras, para Ricoeur, são vistas como conjunto de “auscultações epistolares” do Deus de Israel ao seu povo, construídas em longo período de tempo. A beleza da carta aberta que é a Sagrada Escritura está em que continua a conseguir criar nos seus leitores o desejo e a presença de Deus. Não explicam ou esgotam a realidade, aliás, como nenhuma linguagem humana o consegue, pois a realidade é maior do que as palavras, ainda que a realidade necessite aceder sempre à palavra, à linguagem, à escritura, ao texto. Assim, o texto bíblico não é conjunto de respostas sobre Deus, o humano ou o mundo. É palavra de Deus ao humano e ao mundo, o que é totalmente diferente, e como qualquer palavra digna desse nome é para ser lida, porque nela se encontra o sentido, desafia o leitor e incita-o a novo modo de ser. Por isso, sua antiguidade é apenas aparente. O texto bíblico lê Deus, o humano e o mundo, pois os contempla Nele e, o leitor recolhe-se na contemplação do mistério, logo não é uma leitura qualquer, pois narra, mais não pode fazer do que se colocar diante do leitor. Em face a este mistério, o leitor e o mundo são desafiados à possibilidade de um novo modo de ser, uma nova forma de olhar as coisas.

A diversidade da linguagem bíblica reproduz a pluralidade da vida humana na sua diversidade contextual e actancial, na polifonia do texto e do mundo bíblicos. Daí, as diversas nomeações de Deus, a realidade plural da experiência bíblica, ou seja, a humana, com as respectivas contradições e aporias.

Para Glaude Geffré, o “mundo do texto” de Ricoeur está no fato de que a proposição do mundo do qual se apropria, não está “atrás” do texto, como o estaria uma intenção oculta, mas “diante” dele, como o que obra desdobra, descobre, revela. Desde então, compreender é compreender-se diante do texto.

Carlos Cunha

3 Comentários

Arquivado em Reflexão teológica

3 Respostas para “Hermenêutica bíblica de Paul Ricoeur

  1. cleilton amaral

    SERIA POSSÍVEL FALAR DE HERMENÊUTICA COM UMA ABORDAGEM DIFERENTE DA QUE JÁ TEMOS A ´´MILHÕES…MILHÕES…DE ANOS?´´. A tarefa da exegese bíblica é, pois, fornecer certas informações complementares sobre os gêneros literários, as instituições, dados sociológicos e culturais, lingüísticos e lexicais, entre outros, ou seja, labutar na arqueologia do texto. Com esse auxílio, o leitor hermeneuta estará mais bem equipado para perguntar sobre relação entre o sinal e o intérprete, ou seja, perguntar por que é que está dito assim, por quem, com que objetivo, e porque agem os personagens de certa maneira, que motivos presidem a intriga, a narrativa. Na busca das respostas as estas questões de interpretação, que não partem da intenção autoral num primeiro momento, e que se encontra o mundo ali inscrito.
    PARECE QUE TODOS DIZEM A MESMA COISA SEMPRE! MAS SERÁ QUE NÃO É A MESMA COISA SEMPRE? DITA DE PONTO DE VISTA DIFERENTE?
    TANTAS BOBAGENS SENDO PREGADA, ACREDITO SER NECESSÁRIO REPETIR E REPITER TAIS ENSINAMENTOS.
    PARABÉNS CARLOS CUNHA.

    • Olá, Cleiton.
      Obrigado pelo seu comentário.
      Paul Ricoeur deixa claro que não se deve entender hermenêutica bíblica como um conjunto de regras “infalíveis” na busca do sentido pleno das Escrituras. Assim como a Bíblia é o conjunto de textos dinâmicos, vivo e interpelante, a hermenêutica necessita ser vista também como disciplina teológica dinâmica, aberta à polissemia dos textos bíblicos. Os textos bíblicos são passíveis de leituras, releituras e aplicações diversas, dependendo do contexto em que o leitor está inserido e por aquilo que busca na Bíblia. Não há como se negar a capacidade de ler o mesmo texto em contextos distintos, e daí extrair possibilidades de sentido aplicáveis ao meio em que se vive. Aí está a riqueza e a contribuição de uma hermenêutica que explora toda a potencialidade dos textos bíblicos.
      Abraços, meu amigo.

  2. Parabéns Paul Ricoeur, por ser tão atualizado depois de tanto tempo suas idéias era tudo que eu gostaria de ler , muito obrigada por ter existido Mª da Penha Leite

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