Neopentecostalismo: na contramão da tradição

Os reformadores protestantes insistiram no valioso, porém arriscado, princípio do “livre exame das Escrituras”, ou seja, de que todo cristão tem o direito e o dever de ler e estudar por si mesmo a Palavra de Deus. Muitos viram na máxima da Sola Scriptura uma licença para a livre interpretação das Escrituras, o que nunca esteve na mente dos líderes da Reforma. Tanto reformadores da primeira geração, Martinho Lutero, quanto da segunda, João Calvino, lutaram contra abordagem individualista e tendenciosa das Escrituras, insistindo na adoção de princípios equilibrados de interpretação que levavam em conta o sentido histórico-gramatical.

As igrejas neo(pseudo)pentecostais não levam nada disso em consideração. O neo(pseudo)pentecostalismo não conhece nenhum método de interpretação bíblica. A Bíblia se torna joguete lançado de um lado para o outro ao sabor das conveniências. Tomam-se diferentes declarações, episódios e símbolos bíblicos e, sem esforço algum de interpretação, passa-se diretamente para a aplicação, muitas vezes de uma maneira que nada tem a ver com o próprio original do passado. O que é mais grave, usam-se textos bíblicos de modo mágico, como se fossem amuletos, como se tivessem poder imanente e intrínseco. Encara-se a Bíblia prioritariamente como livro de promessas, de bênçãos e de fórmulas para soluções de problemas. Curiosamente, nas igrejas neo(pseudo)pentecostais, a Bíblia perde espaço para a experiência de fé do fiel. Ela assume um papel secundário.

É neste ambiente de inúmeras experiências que o neo(pseudo)pentecostalismo surge com nova linguagem. Na releitura da Bíblia, sob o impacto da experiência, os “neopentecostais” por vezes criam nova terminologia, muito diferente dos conceitos bíblicos tradicionais. Privilegiam-se expressões como “eu determino”, “eu ordeno”, “eu decreto”, “exigo meus direitos”, “reivindico a bênção”. Todas apontam para pseudo-espiritualidade antropocêntrica voltada para as necessidades, desejos e ambições dos seres humanos. Não mais se fala em pecado, reconciliação, santificação, obediência. O evangelho corre o risco de ficar diluído em uma nova modalidade de auto-ajuda psicológica, deixando de ser “o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1,16).

O conceito de fé talvez sofra as maiores distorções. No discurso das igrejas neopentecostais, a fé se torna espécie de varinha de condão que os fiéis utilizam para obter as bênçãos que desejam. Deus permanece essencialmente passivo até que seja acionado pela fé do indivíduo. Coisifica-se as relações entre o ser humano e Deus ao ponto de Deus assumir função instrumental nas mãos de indivíduos materialistas.

Dentro da nova perspectiva “teológica” (ideológica) neo(pseudo)pentecostal a tese weberiana (Marx Weber, sociólogo alemão), segundo a qual os calvinistas buscavam no sucesso econômico a evidência da sua eleição, recebeu nova versão: as coisas mais importantes que Deus tem a oferecer são bom emprego, estabilidade financeira, vida confortável, felicidade no amor e nas coisas do gênero. Além disso, enquanto aquela tese suscitava a ética protestante, esta não tem ética alguma.

Carlos Cunha

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