Igrejas de mercado e sucesso

As igrejas neo(pseudo)pentecostais constituem-se comunidades de mercado, em razão das transações comerciais realizadas nelas. Isso se evidencia já na localização geográfica. Instaladas em áreas estratégicas (avenidas, pontos de ônibus, etc.), estas igrejas têm transações comerciais regidas pelo que é típico de todo comércio: a troca do “dou para que dês”. Fomenta-se barganha também pelo apelo midiático. Ao contrário do que se vê como Igreja, uma profunda comunhão, as igrejas de mercado e sucesso privilegiam o encontro breve, típico do shopping Center, “com clientela flutuante e móvel, convidada a comparecer por meio da propaganda da televisão. O estilo desse hipermercado é, via de regra, festivo, com muita música e diversão, tendo a finalidade de estimular e de aumentar o comércio” (DREHER).

Segundo Martin Dreher, há mais semelhanças entre as INP e o sistema econômico dos hipermercados: “Oferece-se um produto apetitoso por um preço adaptado à economia do momento. Simplifica-se a filosofia mercantil, que é a de sempre vender mais, e adapta-se a mesma a uma cosmovisão: a criação de Deus, no princípio muito boa, foi danificada por Lúcifer e pelos demônios; estes invadiram o mundo e provocam todo tipo de males entre os seres humanos. Deus, porém, estabeleceu uma solução através de seu filho Jesus Cristo e através do Espírito Santo para vencer os demônios: o exorcismo e as curas divinas. Para que o exorcismo e a cura divina sejam realizados com êxito, deve existir aquela relação entre Deus e o ser humano estabelecida em Malaquias 3,10: […] Estabelecido esse convênio, há reciprocidade de deveres e obrigações entre ambas as partes de cumprir e de exigir cada um o que lhe interessa”

Esse tipo de barganha afeta a relação de Jesus com o ser humano. Não mais relação entre redentor-redimido e nem de libertador-libertado, mas de patrão-empregado. E mais grave: quem assume o papel de patrão é o ser humano que “exige”, “determina” e “ordena”! Não há mais espaço para a gratuidade. Todo esforço em direção a Deus é movido por jogo de interesses em prol da satisfação de interesses individuais como afirma Kenneth Hagin: “Se eu permanecer em Deus e junto dEle, meus direitos estarão plenamente assegurados. Ninguém poderá oferecer-me nada melhor. Nem o próprio Senhor Jesus tem uma posição melhor diante de Deus do que você e eu temos”.

Com esta postura de “super crente”, cria-se outra questão fundamental em que há divergência no tocante ao discurso protestante e pentecostal tradicional em relação a Jesus: o sofrimento. No neo(pseudo)pentecostalismo, não se permite que o fiel sofra. Caso contrário, o crente está sob maldição. Não há a consciência de que o sofrimento de Jesus tem consequências para a vida do cristão como parte integrante da catequese. Ao acentuar: “Pare de sofrer!”, Edir Macedo traz um discurso estranho aos ouvidos pentecostais e protestantes.

Carlos Cunha

Deixe um comentário

Arquivado em Reflexão teológica

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s