Arquivo do mês: agosto 2012

Missão Integral e os seus impactos

Com o tema “Para que o Mundo ouça a Sua (Deus) voz”, o Congresso de Lausanne I (1974) foi responsável por impactar a maneira de ver e fazer missão das igrejas reformadas no Brasil por meio do movimento da Missão Integral.

O primeiro impacto foi produzido pela ruptura com o mito da polarização teológica entre ação social e evangelização. Para muitos grupos reformados, ação social, ou melhor, serviço social, era visto como instrumento para evangelização. Satisfaziam-se, socialmente falando, com serviços sociais assistencialistas e muitas vezes usados como “iscas” para ações proselitistas.

Estes grupos perceberam que não se pode desvincular evangelização da ação social. Estas são duas realidades inseparáveis que se sustentam e se fortalecem mutuamente numa espiral ascendente de preocupação crescente. Evangelização e responsabilidade social são partes integrantes da missio Dei, portanto inseparáveis e indispensáveis na missão integral da Igreja de Jesus no mundo e para o mundo.

O segundo impacto foi provocado pelo resgate da categoria missio Dei. Conceito importante para a Missão Integral. Originalmente pensada por Karl Barth, o conceito de missio Dei foi popularizado no Brasil por Georg Vicedom no livro A missão como obra de Deus: introdução à teologia da missão, publicado pela editora Sinodal em 1996. Segundo Vicedom, missio Dei significa que a missão é obra de Deus: “Ele é o senhor, o doador da tarefa, o proprietário, o executante. Ele é o sujeito ativo da missão. A Igreja é instrumento de Deus, isto é, se ela se deixar usar por ele. Não cabe à Igreja decidir se ela quer fazer missão, mas ela só pode decidir se quer ser Igreja. Ela não pode determinar quando e onde será feito missão; pois missão sempre é iniciativa de Deus, como fica evidente, sobretudo no livro dos Atos dos Apóstolos. Deus não se torna apenas o enviador, mas também o enviado. O derradeiro mistério da missão, do qual ela emana e do qual vive, é: Deus envia seu Filho, Pai e Filho enviam o Espírito. Com isso ele não apenas se torna o enviado, sem que com essa trindade da revelação fosse anulada a consubstancialidade das pessoas divinas”.

O terceiro impacto foi sentido quando se rompeu com a ideia do dualismo humano. O evangelismo do protestante de missão (EUA) limitou o conceito de salvação, achando que Cristo veio salvar apenas a alma do ser humano. De inspiração platônica, este conceito de salvação é deveras espiritualista.

O ser humano é um todo. Partindo da perspectiva bíblica, o ser humano poderia ser definido como sendo uma comunidade integrada de corpo e alma. Entretanto, a ausência de compreensão do indivíduo como ser integral, pela própria Igreja, tem levado a mesma a desvalorizar não somente o ser humano na sociedade, como também o próprio evangelho para o qual ele foi chamado a proclamar no mundo. Só existe fidelidade na evangelização quando existe fidelidade na missão integral da Igreja.

Finalmente, o movimento da Missão Integral também legou às igrejas reformadas no Brasil a capacidade de pensar e fazer missão a partir de situações sociais concretas. A articulação entre a hermenêutica do texto bíblico e a hermenêutica da vida, a partir de igrejas autóctones, passou a ser o lugar teológico ideal.

Carlos Cunha

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Evangelhos Sinóticos: origem, natureza e finalidade

 BIBLIOGRAFIA

AUNEAU, J. et al. Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1985. p.11-56. KÜMMEL, Werner G. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1982. p.34-93. BERGER, Klaus. As formas literárias do Novo Testamento. São Paulo: Loyola, 1998. p.312-322. MARCONCINI, B. Os Evangelhos sinóticos: formação, redação, teologia. São Paulo: Paulinas, 2001. p.17-73. MAINVILLE, Odette (Org.). Escritos e ambiente do Novo Testamento: uma introdução. Petrópolis: Vozes, 2002. p.161-193. LIBANIO, J.B. Linguagens sobre Jesus: linguagens narrativa e exegética moderna.v.2. São Paulo: Paulus, 2012. p.79-85.

INTRODUÇÃO

O objetivo desse estudo consiste em fazer uma introdução à origem, natureza e finalidade dos Evangelhos Sinóticos. Para isso, analisaremos, numa perspectiva etimológica, as palavras “evangelho” e “sinótico” com o intuito de entender o longo processo de reconceituação que os termos passaram. No outro momento, versaremos sobre “os evangelhos” enquanto gênero literário, suas características e finalidades.

1. EVANGELHO(S)

A palavra “evangelho” é a transcrição do termo grego “euangelion”, formada por: “eu”, advérbio, que significa “bem”, e “angello”, verbo, que pode ser traduzido por “eu anuncio, trago uma mensagem, uma notícia”.

“Evangelho” situa-nos no plano da interpretação: naquele evento do qual se toma conhecimento, reconhece-se uma boa notícia. Implica, pois, um julgamento de valor positivo, um reconhecimento.

A expressão “Boa-nova” exclui qualquer neutralidade, é uma opção de fé. Certa feita, um autor judeu, numa tradução do Novo Testamento, sugeriu que o termo “euangelion” fosse substituído pelo termo neutro “anúncio”. Assim a passagem de Mc 1,1, “Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus”, seria traduzida por “Início do anúncio de Yeshua o messias, ben Elohim”. Tal proposta corrompe a essência do Evangelho, pois por trás dele há uma testemunha engajada; já por trás de “anúncio”, há um relator “neutro”.

O significado dado à palavra “evangelho” como conhecemos hoje é o resultado um longo processo cultural de resignificação. A origem do termo passa pelos autores profanos. No início, a palavra significou “o presente dado ao portador de uma boa-nova”. No grego clássico, além do sentido de presente, designava, mais especificamente, “o sacrifício oferecido por ocasião de uma boa notícia”. Já no grego helenístico, equivale à própria boa notícia. A diferença é que, aqui, a ideia, é a de uma boa notícia de uma vitória militar (uso confirmado pelo historiador grego Plutarco). Durante o Império Romano, a palavra fora utilizada com referência ao imperador, tido como deus. A notícia no nascimento de um príncipe herdeiro e dos possíveis benefícios que isto poderia gerar para o império eram motivos de “boas novas”.

Jesus e os primeiros cristãos não instituíram o uso que fazem da palavra “evangelho”; parece terem-na tomado emprestado da Septuaginta (LXX). A LXX emprega 20 vezes o verbo euangelizesthai e 6 vezes o substantivo euangelion, euangelia. A palavra “evangelho” tomou por derivação o termo hebraico “bissár”, “evangelizar”, dimensão alegre do anúncio que, gradativamente, foi adquirindo um significado religioso como proclamação da salvação (cf. Sl 40,4.10; Is 52,7). O sentido da palavra, tanto no Dêutero como no Trito-Isaías, é particularmente significativo: a “boa nova” que anunciam é a iminente vinda do Reino de Deus, e conferem-lhe, como sinais, a paz, a libertação, a felicidade (cf. Is 40,9; 52,7; 62,6; 61,1). Assim, para os judeus só há uma boa nova vinda do Reino de Deus. É esse o sentido empregado por Jesus também.

No ambiente do Segundo Testamento, “euangelion” passa por uma significativa evolução. São 130 citações da palavra com suas variantes: 54 empregos do verbo “euangelizei” e 76 do substantivo “euangelion”. A ideia que perpassa como pano de fundo do uso dos termos aponta para:

1)      Os discípulos anunciam a Boa-nova de Jesus;

2)      Marcos escreve a Boa-nova de Jesus;

3)      O anunciador tornou-se o anunciado e ato de proclamação tornou-se o texto.

Isso significa que:

1)      Jesus situa-se exatamente na linha da mensagem de Isaías, da qual faz, segundo Lucas, a base de seu discurso-programa na sinagoga de Nazaré (Lc 4,18, citando Is 61,1-2);

2)      Para os cristãos, a Boa-nova não consiste, como entre os gregos e os romanos, numa multidão de acontecimentos sucessivos e passageiros, de importância mais ou menos relativa, mas num único evento, capital e fundamental: em Jesus Cristo, Deus se aproximou dos homens de modo decisivo e definitivo (cf. o discurso de Pedro At 10,36);

3)      Ao escrever um “evangelho”, Marcos inova. Ao reunir os diferentes elementos veiculados pela tradição e ao organizá-los numa história de Jesus, o evangelista abre caminho a um novo gênero literário sem precedentes em outras literaturas.

Somente na segunda metade do século II é que se veio a empregar a palavra euangelion no plural. Justino (+165), no livro Apologia, 66,3, foi quem usou primeiro o termo em memórias dos apóstolos. O enfoque na utilização do termo não era mais o conteúdo, mas o conjunto dos textos.

2. SINÓTICOS

Em 1776, um pesquisador alemão chamado J.J. Griesbach publicou, em Halle, a obra Synopsis evangeliorum (Sinopse dos evangelhos). Foi a primeira vez que se utilizou o termo “sinótico” aos escritos dos três primeiros evangelhos.

A ideia de Griesbach era a de elaborar uma edição de Mateus, Marcos e Lucas, que permitisse abranger “os três num único olhar” – a origem do termo “sinótico” é grega oriunda de duas palavras: syn (“junto”) e opsis (“ver”). Assim agindo, ele se fizera eco da opinião que Agostinho de Hipona, já em 399, expusera em seu De consensu evangelistarum. Para o bispo de Hipona, os evangelhos teriam sido escritos na ordem em que estão no Cânon.

Essa intervenção da sinopse no século XVIII contribuiu enormemente para instaurar a era da crítica evangélica. Até então, consideravam-se os evangelistas como testemunhas oculares dos fatos ocorridos, e tudo quanto haviam escrito era isento de qualquer erro ou contradição. Com a crítica literária, não só essa imagem tradicional sofreu críticas como a abordagem da vida de Jesus ia também sofrer profunda alteração.

A Sinopse evangélica dava como fim aquilo a que se chamava Harmonia evangélica. Tratava-se de uma narrativa seguida da história de Jesus, constituída exclusivamente dos elementos provenientes dos quatro evangelhos. Essa narrativa era organizada de modo a que todas as informações reunidas se completassem num conjunto coerente e harmonioso. Um bom exemplo desse esforço de síntese narrativa foi o Diatessaron (“através dos quatro”) de Taciano (séc.II) que tinha como objetivo provar a harmonia entre os evangelhos.

O trabalho de Griesbach contribuiu muito para o estudo da Questão sinótica. A questão girava em torno da relação literária dos três primeiros evangelhos entre si: Como explicar a notável e complexa teia de concordâncias e discordâncias entre Mateus, Marcos e Lucas?

A exposição sinótica consiste numa série de unidades distintas de narrativas e discursos, completas em si mesmas, e frequentemente colocadas uma após outra, independentemente de qualquer ligação espacial ou temporal. À vista das semelhanças, a conclusão parece se impor: os sinóticos, de alguma maneira, parecem depender literalmente uns dos outros. Na realidade, a questão se complica quando se sabe que os três evangelhos diferem também muito uns dos outros, tanto no conteúdo quanto na forma.

Basta observar as estatísticas do quadro abaixo para verificar a questão levantada.

Passagens

Mt

Mc

Lc

Comuns aos três

330

330

330

Comuns a Mt-Mc

178

178

Comuns a Mc-Lc

100

100

Comuns a Mt-Lc

230

230

Próprios a cada um

330

53

500

Com base nas estáticas do quadro, pode-se afirmar que:

1)      Um grande número de passagens se encontra nos três evangelhos (tríplice tradição);

2)      Algumas passagens são partilhadas por Mc e Mt e outras por Mc e Lc;

3)      Numerosos textos são encontrados somente em Mt e Lc (dupla tradição);

4)      Cada evangelho contém textos que lhe são próprios.

Fato interessante a observar é que somente 53 versículos não estão em Mt e Lc. Quase todo o Evangelho de Marcos está presente nos evangelhos de Mateus e Lucas. Como explicar essa dependência mútua? Várias hipóteses surgiram a partir do século XVIII e dentre elas a Teoria das duas Fontes.

Weisse (1838), abrirá finalmente as portas à Teoria das duas Fontes. Obtém-se então o esquema que, há mais de um século e meio, serve de postulado de base a um número incalculável de pesquisas sobre os evangelhos sinóticos.

Segundo a Teoria das duas Fontes, Mateus e Lucas utilizaram dois documentos para escrever seu respectivo evangelho; esses documentos são Marcos e Q (fonte Quelle). Deve-se, entretanto, lembrar que o documento Q jamais foi encontrado e, por conseguinte, ele é completamente hipotético. Esta fonte seria anterior ao Evangelho de Marcos, escrito em grego e reuniria as palavras, discursos e parábolas de Jesus.

A teoria das duas fontes pode ser ilustrada da seguinte maneira:

3. GÊNEROS LITERÁRIOS

Vimos que Marcos, ao escrever um evangelho, reunindo diferentes elementos veiculados pela tradição e organizá-los numa história de Jesus, abre caminho a um novo gênero literário sem precedentes em outras literaturas.

Os evangelhos enquanto gênero literário é único, novo. Apresentam-se como textos narrativos, sem serem crônica ou biografia. Falam da mesma pessoa e dos mesmos fatos com intuitos específicos. O estilo literário é parecido com a midraxe Hagadá (narração) – designa ao mesmo tempo um método de exegese e a produção literária decorrente deste método. Faz-se uma pesquisa sobre a Escritura para ver de que modo ela atinge seu leitor contemporâneo; é uma tentativa de atualização da Escritura. Parecido com Hagadá (aggadah), o evangelho edifica ao atualizar a mensagem da salvação para o leitor hodierno.

Os evangelhos não são história e nem um livro de memórias. Não se interessam na história interior ou exterior do herói, mas manifestam um claro interesse pela atividade terrena de Jesus sem uma cronologia ou uma topografia precisa. São querigmas de um acontecimento único e definitivo, da intervenção de Deus em Jesus Cristo. Em vez de biografia de Jesus, trata-se de testemunho de fé, de anúncio para despertar a fé no ouvinte.

Os evangelhos não foram escritos para recordar Jesus ou para glorificar os seus milagres, constituindo estes últimos apenas uma parte de seu conteúdo, que contém bem outras coisas; o interesse dominante neles é suscitar a fé e fortalecê-la. As palavras e as ações de Jesus foram recolhidas à parte e repetidas na forma de simples narrativas,  destinadas a mostrar às primeiras assembleias cristãs o fundamento de sua fé e proporcionar aos missionários um sólido substrato para a pregação, a catequese e também para a argumentação contra os adversários.

Os evangelhos são textos populares e não eruditos. São textos destinados ao uso das comunidades e para o uso da propaganda missionária. Assim, é preciso admitir uma distância entre Jesus e os evangelhos, transbordante da contribuição da comunidade. Os evangelistas não podem ser reduzidos a meros compiladores: ele são ao mesmo tempo intérpretes e portadores de uma tradição, com um equilíbrio ímpar entre liberdade e fidelidade.

Os evangelhos não se reduzem a única primeira redação de único autor, mas sofreram diversas modificações ao longo da redação por força das tradições vivas que circulavam e das adaptações dos redatores para as respectivas comunidades a que se dirigiam. À medida que as comunidades iam lendo e pregando tais tradições, impingiam modificações conforme seu contexto existencial, refundindo os textos.

Os evangelhos pertencem a um grande gênero literário e dentro dele há outros gêneros (narrativas, milagres, parábolas, alegorias, metáforas, apocalipse etc.)  que conservam elementos da tradição moldados por eles. O que está em jogo na atualidade não é a pluralidade de gêneros literários presentes nos Evangelhos, mas o grau de historicidade do que se relata e sua evolução.

Carlos Cunha / agosto de 2012

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Como ler o Novo Testamento?

O Novo Testamento (NT) é a base decisiva e orientadora de tudo aquilo que se designa por cristianismo e por Igreja. Ele contém as únicas fontes fidedignas a respeito da atividade de Jesus, sobre a formação da Igreja e da sua pregação. Embora se considere o valor de fontes extrabíblicas no processo de composição do  NT, por meio de derivação, influência e/ou criação análogo própria, os textos do NT tem um valor primário.

A leitura efetiva do NT passa pelo condicionamento histórico em que os textos foram elaborados a partir de situações históricas específicas. O Sitz im Leben refere-se à origem dos escritos: às situações sociológicas ou necessidades da igreja que deram uma característica distintiva de uma forma determinada ou unidade literária. Tanto o “contexto de vida”, quanto o “contexto de vida de Jesus” (Sitz im leben Jesu) e, o “contexto de vida da igreja” (Sitz im leben kirche), devem ser levados em conta no processo de leitura/interpretação do NT.

O objetivo da teologia do NT é o de deduzir, de escritos isolados ou de grupos de escritos, imagens objetivas e coerentes da atividade de Jesus ou da pregação e da doutrina das primeiras igrejas cristãs. Isso é possível por meio da exegese – interpreta o texto no horizonte de seu autor, contexto e cultura.

Assim, a teologia do NT é fruto da exegese. A teologia neotestamentária não somente coleta os resultados da exegese, mas desenvolve um panorama que enriquece a interpretação dos textos bíblicos para hoje (hermenêutica).

Não é bom submeter à compreensão do NT, de maneira estática, as premissas ideológicas do pensamento moderno, nem confrontar ser humano e a sociedade hodierna com meras citações do NT. Os dois aspectos, o Novo Testamento e o contexto atual, devem ser confrontados em um dialogo crítico de modo que os escritos neotestamentários tenham relevância temática para a contemporaneidade.

Carlos Cunha

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Crer ou/e Não crer

Em 1927, Sigmund Freud, ateu convicto, fez publicar um livrinho com a pretensão de ser um manifesto contra a religião. O nome do livreto é O futuro de uma ilusão. Nele, Freud prognosticava um futuro sem religião, resultado da renúncia às possíveis ilusões criadas pelos sistemas religiosos diante do progresso ilimitado sugerido pelo avanço das ciências.

A provocação de Freud fez emergir reações diversas. Dentre elas, a do pastor e psicanalista Oskar Pfister é notória. Num artigo intitulado A ilusão e o futuro, Pfister rebate a previsão de Freud e assegura o lugar da religião em uma sociedade científica.

O debate entre Freud e Pfsiter no início do século passado revela as incertezas diante do fenômeno religioso. Atualmente, tomando a Europa como referência, Freud acertou em cheio. O Antigo Mundo está totalmente secularizado. Não há espaço para a dimensão religiosa em culturas que se sucumbiram às garras do racionalismo científico. Mas, olhando para  alguns países da América do Sul e da África, vemos que Freud falhou na sua análise e prevaleceu o otimismo do pastor Pfister. Nestes locais, a religião está mais viva do que nunca. É verdade que com uma nova perspectiva, mas a dimensão religiosa ainda é assunto para muitos debates.

Cada vez mais as pessoas, sobretudo jovens (p.ex. os movimentos jovens por mudança social e política), desistem de todas as certezas do passado: certezas religiosas, científicas, culturais, políticas e históricas são seriamente questionadas. Eles desconfiam daquilo que as autoridades de qualquer tipo digam atualmente, e tenham dito ao longo dos séculos. Estamos numa época de ceticismo sem precedentes.

A modernidade, com a sua visão mecanicista, criou no ser humano uma falsa certeza, a de que o progresso da ciência, da tecnologia e da razão solucionariam todos os problemas humanos. Assim a superstição religiosa pré-moderna e a crença na magia ir-se-iam dissipando gradualmente e relegadas para a esfera da crença particular. Aquilo que realmente importava para a raça humana era o progresso econômico e político.

Gradualmente, durante a primeira metade do século XX, o modernismo começou a ruir. “Os países industrialmente mais avançados, com a Alemanha, sob os nazistas, e outros estados fascistas do mundo, começaram a agir de forma irracional e desumana. A sua violência e crueldade e os seus métodos de tortura não se podiam ajustar de modo algum aos ideais do progresso humano” (Albert Nolan). Para quem acusa a religião de matar e torturar, temos na história as manchas provocadas pela mortandade do ateísmo.

Não admira que agora tenhamos uma geração que se mostra cética diante de qualquer ideologia. Não há mais espaço nesta geração para as grandes narrativas. É um mundo de ambiguidades: De um lado, avanços tecno-científicos, ética planetária, policentrismo cultural; do outro, miséria, posturas imperialistas e eurocentrismo cultural. A globalização reforça a cultura midiática que gira em torno do consumo, do sucesso, do culto ao corpo e da estética; relativizando a verdade por meio de informações televisivas.

O ser humano moderno é “irreligioso” (não “a-religioso”) diante do descrédito das ideologias e utopias. A máxima: “crer sem pertencer” (believing without belonging) baliza a mobilidade religiosa mundial que busca experiências de bem-estar espiritual e corporal, uma espécie de reencantamento do mundo, do homem e com Deus.

Segundo Alberto Nolan, a maioria dos seres humanos vive atualmente num estado de desespero reprimido, tentando encontrar formas de distraírem-se das duras realidades do nosso tempo. Essa incerteza da vida no nosso mundo pós-moderno consiste na tentativa de regressar ao passado. Há, na atualidade, uma tendência de retorno conservador. Nolan, assinala pelo menos três tendências:

a)      Neofundamentalismo religioso: Fundamentalismo cristão, muçulmano, hindu e judeu têm em comum a dependência de uma autoridade que forneça verdades absolutas – verdades que não podem ser postas em questão ou em dúvida. É o tipo de segurança que oferecem a um mundo muito inseguro;

b)      Neoconservadorismo é outra reação às inseguranças assustadoras do nosso tempo. É um regresso aos princípios, práticas, costumes, crenças e sentido de identidade que faziam alguns de nós sentir uma grande tranquilidade e segurança no passado;

c)      Neoespiritualidade: O ser humano pós-moderno está cada vez mais consciente da sua necessidade de espiritualidade. Tal necessidade ou fome é experimentada de muitas e diversas formas. A necessidade de alguma coisa que lhes transmita força interior para aguentar a vida, ou paz de espírito e libertação dos sentimentos de medo e ansiedade.

E assim, nesse vai e vem entre o velho e o novo, caminha a humanidade…

Carlos Cunha

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Hermenêutica, ciência e sapiência

Falar acerca de Deus é ação cultural e histórica, porque se encontra sempre no seio de determinada tradição, que se transmite de forma oral e escrita. Isso significa que nunca se tem acesso imediato à palavra de Deus. No melhor dos sentidos, a palavra de Deus é circunstancial. São as circunstâncias que, em cada momento, podem desvelar as dimensões da palavra de Deus e de suas exigências. Assim, a revelação é magnitude histórica. Isso significa que, necessariamente, precisa de interpretação, ou seja, de adequação espaço-temporal. O potencial de sentido dos textos bíblicos e teológicos descobre sua eficácia histórica em processo de incessante problematização. A problematização permite a passagem do geral e do abstrato ao concreto e imediato: a palavra de Deus se encarna e adquire vigência em um aqui e agora com fisionomia própria.

 A hermenêutica não se relaciona só com os textos. Deve ser levada muito em consideração na constituição polifônica do ser humano. A realidade de Deus, do humano e do mundo, em cada momento histórico, expressam-se polifonicamente no meio da complementariedade das dicções e expressões.

Para o humano, existe o que é capaz de ser expressado. Por isto, a hermenêutica não se limita aos processos interpretativos, mas, previamente, tem muito a ver com as aprendizagens que propiciam a transmissão de ciência e sapiência. A hermenêutica, tradicionalmente, referiu-se a um movimento baseado na “compreensão”, a hermética, a um movimento baseado no “ser”. Essa distinção pode ser exemplificada mediante duas figuras: no Ocidente, o “professor” (hermenêutica) e no Oriente, o “mestre” (hermética). O “professor”, mediante a docência, possibilita que seus discípulos adquiram alguns “saberes” (ciência); o “mestre”, através de sua vivência pessoal, “transforma” seus discípulos em um novo ser (sapiência).

Carlos Cunha

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A teologia do “Eu e Tu”

Como teólogo cristão, prefiro me firmar na apreensão relacional da verdade. Quanto mais diálogo, maior será a compreensão sobre algo, mesmo cada um tendo tido uma experiência particular. A verdade enquanto relacional é um convite à escuta do outro e o compartilhar de experiências que enriquecem a todos.

Essa apreensão relacional da verdade ganhou notoriedade com o filósofo judeu Martin Buber (1878-1965). Buber, no livro “Eu e Tu” (1927), estabelece uma distinção fundamental entre duas categorias de relações: relações EU-ISTO e relações EU-TU. As relações EU-ISTO são entre o sujeito ativo e objeto passivo, próprias das filosofias e teologias conservadoras e/ou fundamentalistas. Já as relações EU-TU são entre dois sujeitos ativos e dinâmicos. O “EU” da palavra principal EU-TU aparece como uma pessoa e tornar-se cônscio de si mesmo.

A filosofia de Buber tem importantes aportes para a epistemologia do fenômeno teológico. Ela faz correções teológicas no modo de pensar e falar de Deus, ou para usar seu termo preferido: o “TU-ABSOLUTO”. Deus é um ser que escapa às tentativas de objetivação e transcende toda descrição. A teologia deve aprender a reconhecer e a combater com a presença de Deus, constatando que essa presença não pode ser reduzida a um pacote nítido de conteúdo. Por isso, “teologia” não pode ser conceituada como o “estudo de Deus”. Primeiro, porque Deus não é dado à mera objetivação teórica e, segundo, porque Deus transcende a ideia de objeto passivo de descrição.

Para a teologia cristã, a revelação de Deus não é simplesmente um dar a conhecer os fatos sobre Deus, mas uma autorrealização de Deus. “Conhecer a Deus” não significa simplesmente um conjunto de dados a respeito de Deus, mas um relacionamento pessoal. Assim, “teologia”, no primeiro momento, é o estudo das relações entre Deus e o ser humano e vice-versa.

Carlos Cunha

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Linguagem religiosa

Na contemporaneidade, a linguagem é uma alternativa de explicação da nossa relação com a realidade enquanto relação de significação. A análise do significado e de nossos processos de simbolização constitui-se em uma nova via na busca do fundamento, de se encontrar um elemento mais básico. É significativo, portanto, que a questão sobre a natureza da linguagem, sobre como a linguagem fala do real,  sobre o sentido dos signos e proposições linguísticas, emerge como um problema central na filosofia, na teologia e em outras áreas do saber a partir do século XIX.

Várias correntes teóricas, na passagem do século XIX para o XX, embora apresentem diferentes formas de tratamento dessa questão, compartilham o ponto de partida comum na linguagem: A filosofia analítica da linguagem de Gottlob Frege, Bertrand Russel e Ludwig Wittgenstein; a semiótica de Charles Sanders Peirce; o positivismo lógico do Circulo de Viena com Rudolph Carnap e Moritz Schilick; a filosofia das formas simbólicas no neokantiano alemão Ernst Cassiner; a hermenêutica que surge na Alemanha a partir de Friedrich Schleiermacher e, posteriormente, Hans G. Gadamer; o estruturalismo linguístico do suíço Ferdinand de Saussure, desenvolvido na antropologia do francês Claude Lévi-Strauss e depois no pós-estruturalismo de Louis Althusser, Jacques Lacan, Michel Foucault e Roland Barthes; a linguagem teológica de Paul Ricoeur; a antropologia linguística de Borislaw Malinowski e a teoria linguística de Noam Chomsky são alguns dos exemplos da importância do tema da linguagem como decodificadora das relações humanas.

A simples existência dessas várias vertentes, muitas vezes divergentes entre si, e nem sempre tendo raízes históricas comuns, revela a centralidade do interesse pela questão da linguagem no pensamento contemporâneo. A análise da linguagem torna-se assim o caminho para o tratamento não só de questões teológicas e filosóficas, mas de questões dos vários campos das ciências humanas e naturais no pensamento contemporâneo.

Atualmente, tanto a Teologia como a Ciência da(s) religião(ões), cada uma a seu modo, buscam lucidez e relevância temática a partir da articulação da linguagem conceitual, que tem um particular poder científico, crítico e provante, e a linguagem simbólica, que tem de próprio comover o coração, promover a conversão e mover à ação. Só assim, tais disciplinas, conseguem se comunicar com a contemporaneidade mostrando a sua relevância pública.

Teologia e Ciência da(s) religião(ões), como ação que interpreta, conduzidas pelos sinais dos tempos, também devem levar em conta o momento social inerente a qualquer hermenêutica criadora. Não são sujeitos, individualmente, que leem e interpretam os textos teológicos: são as comunidades. Isso significa que uma comunidade religiosa existe se há comunhão real entre seus membros. O momento social, ao qual se alude, pode se concretizar também, mediante a noção de diálogo. Uma hermenêutica compassada aos “sinais dos tempos” institui diálogo, cuja característica mais relevante é o consenso na verdade. Não o consenso baseado em prática estratégica da compensação, mas aquele consenso que se origina no reconhecimento do direito a ser diferente, no inevitável caráter construtivista da realidade e da norma.

Falar acerca de Deus e deuses é ação cultural e histórica, porque se encontra sempre no seio de determinada tradição, que se transmite de forma oral e escrita. Isso significa que nunca se tem acesso imediato aos oráculos divinos. No melhor dos sentidos, a palavra divina é circunstancial. São as circunstâncias que, em cada momento, podem desvelar as dimensões da palavra divina e de suas exigências. Assim, a revelação é magnitude histórica. Isso significa que, necessariamente, precisa de interpretação, ou seja, de adequação espaço-temporal. O potencial de sentido dos textos teológicos descobre sua eficácia histórica em processo de incessante problematização. A problematização permite a passagem do geral e do abstrato ao concreto e imediato: a palavra divina se encarna e adquire vigência em um aqui e agora com fisionomia própria.

A hermenêutica não se relaciona só com os textos. Deve ser levada muito em consideração na constituição polifônica do ser humano. A realidade do divino, do humano e do mundo, em cada momento histórico, expressa-se polifonicamente no meio da complementariedade das dicções e expressões. Essa linguagem é fruto da interpretação do fenômeno religioso que, ao mesmo tempo, conjuga pensamento crítico, ação eficaz e experiência espiritual tornando possível o restabelecimento criativo, ecológico, pacífico e poético da relação entre mística e política. O crer, o fazer e o experimentar devem se reinventar, a cada dia, já que são atividades humanas. Interpretar é destruir e construir, morrer e renascer, como o aponta o Eclesiastes (Ec 12,1-14).

Carlos Cunha

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