Linguagem religiosa

Na contemporaneidade, a linguagem é uma alternativa de explicação da nossa relação com a realidade enquanto relação de significação. A análise do significado e de nossos processos de simbolização constitui-se em uma nova via na busca do fundamento, de se encontrar um elemento mais básico. É significativo, portanto, que a questão sobre a natureza da linguagem, sobre como a linguagem fala do real,  sobre o sentido dos signos e proposições linguísticas, emerge como um problema central na filosofia, na teologia e em outras áreas do saber a partir do século XIX.

Várias correntes teóricas, na passagem do século XIX para o XX, embora apresentem diferentes formas de tratamento dessa questão, compartilham o ponto de partida comum na linguagem: A filosofia analítica da linguagem de Gottlob Frege, Bertrand Russel e Ludwig Wittgenstein; a semiótica de Charles Sanders Peirce; o positivismo lógico do Circulo de Viena com Rudolph Carnap e Moritz Schilick; a filosofia das formas simbólicas no neokantiano alemão Ernst Cassiner; a hermenêutica que surge na Alemanha a partir de Friedrich Schleiermacher e, posteriormente, Hans G. Gadamer; o estruturalismo linguístico do suíço Ferdinand de Saussure, desenvolvido na antropologia do francês Claude Lévi-Strauss e depois no pós-estruturalismo de Louis Althusser, Jacques Lacan, Michel Foucault e Roland Barthes; a linguagem teológica de Paul Ricoeur; a antropologia linguística de Borislaw Malinowski e a teoria linguística de Noam Chomsky são alguns dos exemplos da importância do tema da linguagem como decodificadora das relações humanas.

A simples existência dessas várias vertentes, muitas vezes divergentes entre si, e nem sempre tendo raízes históricas comuns, revela a centralidade do interesse pela questão da linguagem no pensamento contemporâneo. A análise da linguagem torna-se assim o caminho para o tratamento não só de questões teológicas e filosóficas, mas de questões dos vários campos das ciências humanas e naturais no pensamento contemporâneo.

Atualmente, tanto a Teologia como a Ciência da(s) religião(ões), cada uma a seu modo, buscam lucidez e relevância temática a partir da articulação da linguagem conceitual, que tem um particular poder científico, crítico e provante, e a linguagem simbólica, que tem de próprio comover o coração, promover a conversão e mover à ação. Só assim, tais disciplinas, conseguem se comunicar com a contemporaneidade mostrando a sua relevância pública.

Teologia e Ciência da(s) religião(ões), como ação que interpreta, conduzidas pelos sinais dos tempos, também devem levar em conta o momento social inerente a qualquer hermenêutica criadora. Não são sujeitos, individualmente, que leem e interpretam os textos teológicos: são as comunidades. Isso significa que uma comunidade religiosa existe se há comunhão real entre seus membros. O momento social, ao qual se alude, pode se concretizar também, mediante a noção de diálogo. Uma hermenêutica compassada aos “sinais dos tempos” institui diálogo, cuja característica mais relevante é o consenso na verdade. Não o consenso baseado em prática estratégica da compensação, mas aquele consenso que se origina no reconhecimento do direito a ser diferente, no inevitável caráter construtivista da realidade e da norma.

Falar acerca de Deus e deuses é ação cultural e histórica, porque se encontra sempre no seio de determinada tradição, que se transmite de forma oral e escrita. Isso significa que nunca se tem acesso imediato aos oráculos divinos. No melhor dos sentidos, a palavra divina é circunstancial. São as circunstâncias que, em cada momento, podem desvelar as dimensões da palavra divina e de suas exigências. Assim, a revelação é magnitude histórica. Isso significa que, necessariamente, precisa de interpretação, ou seja, de adequação espaço-temporal. O potencial de sentido dos textos teológicos descobre sua eficácia histórica em processo de incessante problematização. A problematização permite a passagem do geral e do abstrato ao concreto e imediato: a palavra divina se encarna e adquire vigência em um aqui e agora com fisionomia própria.

A hermenêutica não se relaciona só com os textos. Deve ser levada muito em consideração na constituição polifônica do ser humano. A realidade do divino, do humano e do mundo, em cada momento histórico, expressa-se polifonicamente no meio da complementariedade das dicções e expressões. Essa linguagem é fruto da interpretação do fenômeno religioso que, ao mesmo tempo, conjuga pensamento crítico, ação eficaz e experiência espiritual tornando possível o restabelecimento criativo, ecológico, pacífico e poético da relação entre mística e política. O crer, o fazer e o experimentar devem se reinventar, a cada dia, já que são atividades humanas. Interpretar é destruir e construir, morrer e renascer, como o aponta o Eclesiastes (Ec 12,1-14).

Carlos Cunha

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Arquivado em Reflexão teológica

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