Crer ou/e Não crer

Em 1927, Sigmund Freud, ateu convicto, fez publicar um livrinho com a pretensão de ser um manifesto contra a religião. O nome do livreto é O futuro de uma ilusão. Nele, Freud prognosticava um futuro sem religião, resultado da renúncia às possíveis ilusões criadas pelos sistemas religiosos diante do progresso ilimitado sugerido pelo avanço das ciências.

A provocação de Freud fez emergir reações diversas. Dentre elas, a do pastor e psicanalista Oskar Pfister é notória. Num artigo intitulado A ilusão e o futuro, Pfister rebate a previsão de Freud e assegura o lugar da religião em uma sociedade científica.

O debate entre Freud e Pfsiter no início do século passado revela as incertezas diante do fenômeno religioso. Atualmente, tomando a Europa como referência, Freud acertou em cheio. O Antigo Mundo está totalmente secularizado. Não há espaço para a dimensão religiosa em culturas que se sucumbiram às garras do racionalismo científico. Mas, olhando para  alguns países da América do Sul e da África, vemos que Freud falhou na sua análise e prevaleceu o otimismo do pastor Pfister. Nestes locais, a religião está mais viva do que nunca. É verdade que com uma nova perspectiva, mas a dimensão religiosa ainda é assunto para muitos debates.

Cada vez mais as pessoas, sobretudo jovens (p.ex. os movimentos jovens por mudança social e política), desistem de todas as certezas do passado: certezas religiosas, científicas, culturais, políticas e históricas são seriamente questionadas. Eles desconfiam daquilo que as autoridades de qualquer tipo digam atualmente, e tenham dito ao longo dos séculos. Estamos numa época de ceticismo sem precedentes.

A modernidade, com a sua visão mecanicista, criou no ser humano uma falsa certeza, a de que o progresso da ciência, da tecnologia e da razão solucionariam todos os problemas humanos. Assim a superstição religiosa pré-moderna e a crença na magia ir-se-iam dissipando gradualmente e relegadas para a esfera da crença particular. Aquilo que realmente importava para a raça humana era o progresso econômico e político.

Gradualmente, durante a primeira metade do século XX, o modernismo começou a ruir. “Os países industrialmente mais avançados, com a Alemanha, sob os nazistas, e outros estados fascistas do mundo, começaram a agir de forma irracional e desumana. A sua violência e crueldade e os seus métodos de tortura não se podiam ajustar de modo algum aos ideais do progresso humano” (Albert Nolan). Para quem acusa a religião de matar e torturar, temos na história as manchas provocadas pela mortandade do ateísmo.

Não admira que agora tenhamos uma geração que se mostra cética diante de qualquer ideologia. Não há mais espaço nesta geração para as grandes narrativas. É um mundo de ambiguidades: De um lado, avanços tecno-científicos, ética planetária, policentrismo cultural; do outro, miséria, posturas imperialistas e eurocentrismo cultural. A globalização reforça a cultura midiática que gira em torno do consumo, do sucesso, do culto ao corpo e da estética; relativizando a verdade por meio de informações televisivas.

O ser humano moderno é “irreligioso” (não “a-religioso”) diante do descrédito das ideologias e utopias. A máxima: “crer sem pertencer” (believing without belonging) baliza a mobilidade religiosa mundial que busca experiências de bem-estar espiritual e corporal, uma espécie de reencantamento do mundo, do homem e com Deus.

Segundo Alberto Nolan, a maioria dos seres humanos vive atualmente num estado de desespero reprimido, tentando encontrar formas de distraírem-se das duras realidades do nosso tempo. Essa incerteza da vida no nosso mundo pós-moderno consiste na tentativa de regressar ao passado. Há, na atualidade, uma tendência de retorno conservador. Nolan, assinala pelo menos três tendências:

a)      Neofundamentalismo religioso: Fundamentalismo cristão, muçulmano, hindu e judeu têm em comum a dependência de uma autoridade que forneça verdades absolutas – verdades que não podem ser postas em questão ou em dúvida. É o tipo de segurança que oferecem a um mundo muito inseguro;

b)      Neoconservadorismo é outra reação às inseguranças assustadoras do nosso tempo. É um regresso aos princípios, práticas, costumes, crenças e sentido de identidade que faziam alguns de nós sentir uma grande tranquilidade e segurança no passado;

c)      Neoespiritualidade: O ser humano pós-moderno está cada vez mais consciente da sua necessidade de espiritualidade. Tal necessidade ou fome é experimentada de muitas e diversas formas. A necessidade de alguma coisa que lhes transmita força interior para aguentar a vida, ou paz de espírito e libertação dos sentimentos de medo e ansiedade.

E assim, nesse vai e vem entre o velho e o novo, caminha a humanidade…

Carlos Cunha

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Arquivado em Reflexão teológica

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