Arquivo do mês: setembro 2012

Teologia do Evangelho de Mateus

BIBLIOGRAFIA

AUNEAU, J. et al. Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1985. p.179-190. MARCONCINI, B. Os Evangelhos sinóticos: formação, redação, teologia. São Paulo: Paulinas, 2001. p.130-146. QUEIROZ, Carlos. Ser é o bastante: felicidade à luz do Sermão do Monte. Curitiba: Encontro, 2003. LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Exodus, 1997. p.113-125.

INTRODUÇÃO

O evangelho de Mateus desenvolve uma teologia da história em dupla perspectiva: do passado, com as genealogias (1,1-7), as citações e frases evocativas de amplos contextos do Primeiro Testamento, como a “Boa Notícia do Reino” (4,23; 9,35; 24,14), palavra e doutrina do Reino (13,19.52); do futuro, anunciando que todos os povos serão feitos discípulos graças à pregação dos enviados (cf. 28,16-20). Deus faz história com os seres humanos de maneira única e decisiva em Jesus, Cristo e Filho de Deus.

O itinerário terreno de Jesus proposto por Mateus é único. Pouco a pouco, Jesus vai se revelando às multidões enquanto formava seus discípulos na construção progressiva de sua Igreja – instrumento para o mundo da presença do Reino dos Céus.

O ponto de partida desse itinerário aparece no evangelho da infância. Com o auxílio dos profetas, Mateus explicita a maneira como Jesus realiza as esperanças judaicas. Mateus atribui-lhe os títulos messiânicos tradicionais. Segundo o anúncio profético, ele nasce em Belém, cidade real: é verdadeiramente “Filho de Davi” (9,27). Mas Jesus não é o Messias nacionalista esperado pelos seus contemporâneos. A fim de corrigir este equívoco, Mateus apela para a figura do “Servo” de Deus (8,17); extraídas de Isaías (Is 42,1-4 e 53,4); se ele é rei (21,5), o é na humildade, segundo a visão de Zacarias (9,9). De toda maneira, são as Escrituras que, incessantemente, autenticam sua identidade.

As cinco unidades discursivas de Jesus compostas pela “Escola de Mateus” desenham o perfil da vida em Igreja. Esta encontra-se reunida (10,1), instituída (16,18) e enviada (28,19-20) pelo próprio Cristo, regra viva e única do comportamento dos discípulos. A comum relação dos seguidores de Jesus com o Pai cria a comunhão fraterna que é legitimada pelos atos. Este compromisso com Deus é parâmetro para as relações fraternas e abre espaço para a “regra áurea” da solidariedade humana (7,12), bem conhecida do helenismo e do judaísmo. O célebre doutor fariseu Hillel a retoma: “Não faças aos outros o que não desejarias que te fizessem. Eis toda a Lei; o resto é apenas explicação. Vai, aprende-a!” (Talmude de Babilônia, tratado Shabbat 31a).

NÚCLEO DO PENSAMENTO MATEANO

Para Benito Marconcini, o núcleo do pensamento de Mateus é dividido em três elementos fundamentais que dão sustentação à teologia do evangelho:

1. Eclesiologia. A dimensão eclesiológica é fortemente enfatizada. Dos Sinóticos, Mateus é o único que introduz o tema da Igreja (16,18; 18,17). O evangelho é uma catequese continuada referente à construção da comunidade, constituída de regras próprias, o perdão, a oração, a correção fraterna (18) e que termina no Reino. A Igreja está aberta para todos os povos, fazendo aí uma diferença com o Antigo Israel (21,43).

2. Cristologia. Jesus é o fundamento da Igreja. A Igreja pertence a Ele. Ele é o seu Senhor. Entre os vários títulos dados a Jesus, Filho de Deus (2,15) unido a Senhor (Kýrios) fortalece a imagem referencial para as comunidades em formação. Jesus é o único mestre (23,10) capaz de iluminar, exortar, julgar e tornar leve o jugo (11,28-30) da Igreja. Ele está constantemente presente, desde a encarnação, quando se apresenta como Emanuel (Deus conosco, 1,23), no dia-a-dia, quando garante “estar no meio” daqueles que se reúnem para orar (18,20), continuando a assistência também após a ressurreição (“estarei com vocês todos os dias até o fim do mundo”, 28,20).

3. Ética e moral. O evangelho de Mateus oferece indícios da ética e moral da comunidade cristã. O que importa é agir (cf. 7,21). O juízo final, fortemente enfatizado, é feito com base nas obras de caridade. Não basta pertencer fisicamente à comunidade: tem-se o chamado, mas ainda não se é eleito. A condição de eleito transparece diante de ações cristãs concretas.

AS BEM-AVENTURANÇAS (Mt 5,1-16)

As bem-aventuranças dão o tom inicial do Sermão do Monte. O grande discurso reflete um estilo paradoxal capaz de criar admiração e angústia no ouvinte/leitor pela dificuldade em pô-lo em prática. C.H. Dodd esclarece a perspectiva ética do Sermão: “Não devemos supor que sejamos capazes neste mundo de amar nossos inimigos, ou mesmo o nosso próximo, na plena medida em que Deus nos amou; ou mesmo de sermos tão completamente desinteressados e ingênuos, tão puros quanto aos desejos e ansiedades do mundo e tão predispostos ao sacrifício, quanto as palavras de Jesus o exigem; e contudo estes são os padrões pelos quais nossas ações são julgadas […] Os preceitos de Cristo não são definições estatuárias como as do código mosaico, mas sim indicações da qualidade da direção de ação que devem ser aparentes mesmo nas mais simples atitudes”.

A mensagem contida no Sermão tem uma dimensão social e não apenas individual. A praticabilidade não diz respeito nem a qualquer pessoa excepcional nem a todos os seres humanos indistintamente, mas à comunidade cristã, salva pela graça de Deus. A possibilidade de os homens viverem essa insólita mensagem é provocada pelo ingresso na comunidade cristã.

As bem-aventuranças descrevem o povo de Jesus. Que tipo de vida, caráter e ação deveriam ter os discípulos do Mestre. O Sermão não descreve a felicidade, mas diz o porquê o seu povo é feliz. A ética de Jesus proposta nas bem-aventuranças descreve o ideal do ser humano em cuja vida o Reino de Deus é absolutamente realizado. Por isso, a palavra “bem-aventurado”, do grego Makarios aparece em forma exclamatória, “como são felizes!”; significa mais que “feliz”, porque a felicidade é um sentimento que muitas vezes depende das circunstâncias externas. Esta palavra refere-se aqui ao bem-estar máximo e à alegria espiritual exclusiva dos que têm parte na salvação do Reino de Deus.

Qual é o perfil ético e moral do povo de Jesus?

Bem-aventurados os pobres em espírito. É um povo carente e dependente de Deus. Povo assim, consciente da dependência, prioriza a comunhão com Deus e com o próximo.

Bem-aventurados os que choram. São os que lamentam tanto os seus próprios pecados e falhas, como o mal tão preponderante no mundo, causando tanto sofrimento e miséria.

Bem-aventurados os mansos. Povo que por Deus abre mão dos seus próprios direitos.No Reino de Deus a conjugação é feita de forma diferente: o maior no Reino de Deus não é o que manda e sim o que serve (20,25-28).

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça. Povo que quer ver a vontade de Deus sendo feita. Povo que tem fome e sede de solidariedade, fraternidade e justiça social.

Bem-aventurados os misericordiosos. Aqueles que constatam que são pecadores e, por isso, sentem compaixão pela vida dos outros.

Bem-aventurados os limpos de coração. São os íntegros. Pessoas livres da tirania de um “eu” dividido. Um povo transparente que fala com o coração.

Bem-aventurados os pacificadores. São os propagadores da paz de Jesus. Povo portador de uma mensagem de paz com Deus, consigo mesmo, com o próximo e com o planeta.

Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça.  Pessoas que sabem do preço pela obra de Jesus. A vitória do cristão não é sofrer, mas não ser derrotado pelo sofrimento. É isto que torna o povo de Jesus inabalável.

Bem-aventurados os injuriados e perseguidos por amor a Cristo. São aqueles que sofrem injustiças, calúnias e violências por amor a Cristo. O sofrimento do povo de Jesus é um indicador da linhagem dos profetas.

A GRANDE COMISSÃO

Junto à mensagem das bem-aventuranças aparecem as condições do testemunho prestado pelos enviados por Jesus. A comunidade reunida por Jesus é automaticamente missionária, pois a missão nada mais é do que a participação do discípulo na ação do Mestre (10,24-25).

O teste decisivo da pertença ao Reino é a prática das obras de misericórdia, não somente em relação aos discípulos, essas “pequeninas” vítimas da perseguição (18), mas ainda para com todos os seres humanos em situações angustiosas.

A Igreja constrói-se enquanto vive e proclama Jesus que reúne todas as nações do mundo e mergulhadas, pelo batismo, em sua morte e ressurreição, para fazê-las compartilhar da vida do Pai no Espírito. Esse é um grande desafio! Infelizmente, o texto da Grande Comissão (28,19-20) foi mal interpretado. William Carey, missionário protestante, em Inquérito sobre a obrigação dos cristãos usarem meios para a conversão dos pagãos (1792), enfatizou que a Grande Comissão é uma ordem para ser obedecida. Isto não é bom. Não há passagens paralelas que contém um imperativo para a evangelização. Evangelização surge não de ordem e sim de Pentecostes. É uma dívida de gratidão e não de dever. Evangelismo não se define pelo “ide” e sim por “fazer discípulos”.

Carlos Cunha

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Onde está o teu irmão?

A relação entre a teologia e a espiritualidade, nas últimas décadas, encontrou na exegese bíblica uma aliada importante para a reflexão teológica. Os estudos bíblicos críticos revelam que a experiência espiritual narrada na Bíblia não é uma experiência sobre Deus, mas de Deus. Há um a priori absoluto e gratuito de Deus que penetra na trama histórica e que produz as mais diversas manifestações de espiritualidade. Neste processo, Deus é o primeiro e o último de toda espiritualidade.

A Bíblia não oferece uma teoria sobre a espiritualidade. Não há nos textos bíblicos elementos normativos para isto. Os conteúdos bíblicos oferecem, no seu conjunto, indícios inspirativos para uma espiritualidade. Assim quando nos referimos à espiritualidade bíblica, estamos falando de um: “conjunto de conteúdos bíblicos, de cunho inspirativo, que caracterizam a vida de um indivíduo ou um grupo de pessoas referido ao Divino – Deus de Abraão, Isaque e Jacó e Pai de Jesus Cristo”.

Esse conceito de espiritualidade bíblica tem dois importantes aportes: 1) Ajuda a corrigir os excessos de uma espiritualidade desvinculada de uma leitura bíblica efetiva. É preciso entender que Deus é imutável, mas a nossa compreensão sobre ele muda constantemente. Não se deve ler o Primeiro Testamento sem entender o Sitz im leben dos relatos. Deve-se avaliar criticamente o relato à luz de uma espiritualidade madura. 2) A espiritualidade bíblica emerge da compreensão integral dos textos das Escrituras. Os textos precisam ser lidos e entendidos no conjunto. É a visão integral dos personagens e dos acontecimentos que possibilita pinçar elementos de espiritualidade.

A característica marcante da Bíblia é a espiritualidade comunitária, com prioridade na comunidade de fé e com interesse no indivíduo como membro nela inserido. Nisso aparece a dimensão comunitária como o lugar ideal para a espiritualidade. Portanto, a espiritualidade bíblica é uma espiritualidade de comunidade. A relação entre Deus é o próximo expressa no Decálogo (Êx 20,1-17) e reafirmada por Jesus (Lc 10,25-28) reforça essa compreensão.

A espiritualidade narrada nos textos bíblicos tem uma dimensão vertical/horizontal. A busca por Deus se faz, concomitantemente, na busca pelo outro, próximo. Não há espiritualidade genuína, rumo ao Divino, que não passe pela mediação do outro. A pergunta de Deus sobre o meu irmão ou minha irmã ecoa pela história de homens e mulheres de Deus: “Disse o Senhor a Caim: Onde está Abel, teu irmão? E ele respondeu: Não sei. Acaso sou eu guardador do meu irmão?” (Gn 4,9). Claro que sim! Somos responsáveis uns pelos outros na grande família de Deus.

Carlos Cunha

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Introdução ao Evangelho de Mateus: características gerais

BIBLIOGRAFIA

AUNEAU, J. et al. Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1985. p.135-178; 191-199. KÜMMEL, Werner G. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1982. p.121-148. MARCONCINI, B. Os Evangelhos sinóticos: formação, redação, teologia. São Paulo: Paulinas, 2001. p.117-130. LIBANIO, J.B. Linguagens sobre Jesus: linguagens narrativa e exegética moderna.v.2. São Paulo: Paulus, 2012. p.122-142. Bíblia de estudo ALMEIDA. São Paulo: SBB, 1999.

INTRODUÇÃO

Dos Sinóticos, Mateus foi o evangelho mais citado pelos primeiros escritores eclesiásticos e os Pais da Igreja. Isto se deu ao fato desse evangelho ser o que dedicou maior espaço aos ensinamentos de Jesus. A tradição cristã o considerou como o “Evangelho Eclesial”, isto é, aquele a partir do qual se elaborou a doutrina da Igreja, o novo povo de Deus, com o propósito de instruir o fiel acerca de Jesus Cristo.

Mateus é o evangelho mais valorizado em toda a tradição da Igreja e tem sido objeto de numerosos estudos e comentários. Orígenes, João Crisóstomo, Cirilo de Alexandria, Ilário de Poitiers, Jerônimo, Agostinho são alguns dos Pais que dedicaram esforços no estudo de Mateus.

O texto proposta pelo evangelista é atrativo. A composição didática do evangelho impressiona. Há, de certa maneira, um quadro da cristologia das comunidades primitivas. Graças às pesquisas estruturais é possível identificar a estrutura mateana. Cinco grandes unidades discursivas de Jesus escalonam o evangelho:

  1. O sermão do monte 5,3-7,27
  2. O apostolado cristão 10,5-42
  3. O reino dos céus 13,3-52
  4. A vida da comunidade cristã 18,3-35
  5. O final dos tempos 24,4-25,46

Estas cinco unidades de discurso demonstram como Jesus vive com os seus discípulos sobre os quais vai construir a comunidade do Reino, e dá-lhes diretrizes para o tempo pós-Páscoa. As unidades são compostas com o objetivo de ajudar os crentes a aprendê-las de memória. Segundo J. Radermakers, os  cinco grandes discursos de Jesus “distribui a doutrina do Mestre conforme os progressos da formação de sua comunidade. Trata-se de uma catequese. Esses discursos são um vademecum para os responsáveis de comunidades e para os catequistas que atuam em meios cristãos saídos do judaísmo”.

Como Marcos, o evangelho de Mateus contará, numa primeira parte, o anúncio que Jesus faz do Reino de Deus, através de seus ensinamentos e suas curas, com a preparação longínqua da Igreja; e, numa segunda parte, o evangelista mostra a maneira como o Mestre, caminhando para a sua paixão, reúne seus discípulos a fim de constituir a comunidade, testemunha do Reino em gênese.

O esboço sugerido pela Bíblia de Estudo Almeida ajuda a perceber esse processo:

1. Infância de Jesus (1,1-2,23)

a)      Genealogia de Jesus Cristo (1,1-17)

b)      Nascimento e infância de Jesus (1,18-2,23)

2. Começo do ministério de Jesus (3,1-4,11)

a)      Pregação de João Batista (3,1-4,11)

b)      Antecedentes do ministério de Jesus (3,13-4,11)

3. Ministério de Jesus na Galileia (4,12-13,58)

a)      Começo do ministério (4,12-25)

b)      O sermão do monte (5,1-7,29)

c)      Atividades de Jesus (8,1-9,38)

d)     Instrução dos apóstolos (10,1-11,1)

e)      Atividades de Jesus (11,2-12,50)

f)       As parábolas do Reino (13,1-58)

4. Ministério de Jesus em diversas regiões (14,1-20,34)

a)      Atividades de Jesus (14,1-17,27)

b)      Sermão sobre a vida da comunidade (18,1-35)

c)      Atividades de Jesus (19,1-20,34)

5. Jesus em Jerusalém: semana da paixão (21,1-28,20)

a)      Atividades de Jesus (21,1-23,39)

b)      Sermão sobre o final dos tempos (24,1-25,46)

c)      Paixão, morte e ressurreição (26,1-28,20)

Mateus, como fonte, desconcerta o leitor contemporâneo. Os princípios de composição e modos de interpretação remontam as correntes do judaísmo do século I. Já o seu alcance, e por vezes o sentido, escapam à mentalidade moderna. Sobre isto, falaremos melhor no tópico Estrutura literária.

AUTORIA

A teologia tradicional identificou o evangelista Mateus com o apóstolo Levi de quem fala o evangelho. O nome de Mateus, que significa “Dom de Deus” ou “Deus dado”, em grego “Theodoro”, é mencionado em todas as listas de apóstolos do Segundo Testamento (Mt 10,3; Mc 3,18; Lc 6,15; At 1,13). A tradição sinótica cita a vocação de Levi, um “publicano” ou coletor do imposto romano (Mc 2,13-14; Lc 5,27-28). Marcos menciona Mateus como “filho de Alfeu” e conta que ele recebeu Jesus em sua casa (Mc 2,15), mas o primeiro evangelho designa-o como Mateus (9,9). Sua pátria teria sido Cafarnaum, segundo o relato evangélico. Embora fosse pouco comum usar dois nomes semíticos, falou-se a seguir de Levi Mateus como se fez com Simão Pedro.

Os Pais da Igreja como Papias, Irineu, Orígenes, Agostinho, Eusébio, Atanásio  e muitos outros reforçam a dedução bíblica e sustentam a ideia de que Mateus seja o nome e Levi o sobrenome, ainda que reconheçam a dificuldade da junção de dois termos semíticos.

A crítica moderna é quase unânime em negar o apóstolo Mateus como o autor do evangelho que leva o seu nome. Alguns estudiosos, com razões e ênfases diferentes, na década de 1960, atribuíram a paternidade do escrito a um gentio. Para esses exegetas só um judeu-gentio poderia usar uma linguagem paradoxal: ora apresentar Jesus como ligado ao judaísmo (10,6; 15,24; 5,17-19), ora como decisivo contestador do grupo dominante, fariseu e saduceu, e aberto à missão voltada para todos os povos.

Segundo a opinião mais comum hoje, a autoria do evangelho de Mateus pertence a um “judeu-cristão” da segunda geração que escreve por volta do ano 80, em meio a uma comunidade da Síria, envolvida em um confronto com o judaísmo. É evidente que o trabalho de redação levou tempo e que outros discípulos da primeira hora nele interferiram, até a sua redação definitiva. Esse trabalho redacional foi por vezes atribuído à “escola da São Mateus”.

LINGUAGEM

A linguagem utilizada por Mateus facilita à memorização. Ela contém uma estrutura sólida e claramente compreensível com uma diretriz ética e moral. Os seus discursos são montagens literárias inspiradas nos processos rabínicos de composição: formas repetidas, paralelismos antitéticos ou sinonímicos, e que foram bem conservados por Mateus. Provém do ensinamento oral praticado pelos rabinos.

Mateus não teme o redito: ele repete uma fórmula típica em diversos lugares de seu evangelho, para estabelecer correspondências e facilitar a memorização: “O Reino de Céus está próximo” (3,2; 4,17; 10,7); “nas trevas exteriores” (8,12; 22,13; 25,30); “a consumação dos tempos” (13,49; 24,3; 28,20) etc. Contaram-se até 27 repetições deste gênero. Contribuem para ressaltar a dinâmica própria do evangelho mateano, seguindo o ritmo de uma assimilação progressiva.

A linguagem mateana pensa à maneira dos semitas: exprime-se com os termos das Escrituras e das tradições palestinas de sua época. Isso parece claramente no emprego de certas palavras e, sobretudo, de expressões características. Encontramos, assim, um grande número de semitismos, composições próprias à sintaxe hebraica, passados para o grego; enumeraram-se 329, ou seja, três vezes mais do que em Marcos. Mateus cita alguns termos hebraicos, sem explicá-los, com raka (cabeça oca, cretino) em 5,22; Beelzebul (mestre-príncipe, alcunha de Satanás) em 10,25; corbã (tronco das ofertas, tesouro do templo) em 27,6 e etc.

Quanto às expressões típicas do meio palestino do século I, citamos especialmente: “Reino dos Céus” de preferência a “Reino de Deus” (12 vezes); “meu Pai” ou “nosso Pai que está nos céus” (5,16.45; 6,1.8; 7,11.21; 10,32.33; 16,17; 18,10.14.19), o “Pai celeste” (15,13; 18,35; 23,9); “cumprir a Lei” (5,17), “a Lei e os Profetas” (5,17; 7,12; 22,40); “casa de Israel” (10,6; 15,24), “Os filhos de Israel” (26,9) etc.

O grego utilizado por Mateus é bem melhor do que o de Marcos. A fluidez da língua contribui no sentido de mostrar para o seu leitor que Jesus “realiza” pela sua palavra, como por seus atos, o que os profetas haviam anunciado. Trata-se de situar os eventos históricos no dinamismo da única história da salvação, manifestando a coerência e a continuidade do plano de Deus, cuja expressão definitiva é a pessoa de Jesus.

DATAÇÃO

Com respeito ao tempo de composição do evangelho de Mateus, não é possível fixar com exatidão. Muitos pensam que o evangelho foi escrito em terras da Síria, talvez em Antioquia, depois que os exércitos romanos destruíram Jerusalém no ano 70.

Já alguns estudiosos pensam que Mateus mostra em sua revisão de Marcos uma clara evolução da concepção da igreja e da reflexão teológica (cf. 18,15ss e 28,19) assim uma data de composição logo depois de Marcos seria menos provável do que o período de tempo situado entre 80 e 100. Uma data situada depois do ano 100 está excluída, devido ao uso que Inácio fez de Mateus. Então, ficamos com uma data entre os anos 70 e 80 d.C.

DESTINATÁRIO

Sobre o destinatário do evangelho de Mateus há certo consenso entre os estudiosos. Trata-se de uma comunidade em Antioquia, na Síra (At 11,19-26; 13,1), capital da província romana, terceira cidade do Império, depois de Roma e Alexandria.

A comunidade de Antioquia é uma comunidade viva, formada em grande parte por judeus da diáspora com uma minoria de pagãos convertidos; é mais aberta na interpretação das Escrituras, na aplicação da Lei, no relacionamento com os pagãos do que a Igreja de Jerusalém, conservadora e ligada à tradição.

Portanto o evangelho de Mateus é dirigido a uma igreja judaico-cristã com a necessidade de tomar posição em face do judaísmo oficial, do qual se originaram. A grande questão da comunidade é se deveriam eles manter a continuidade com suas raízes judaicas, ou proceder a uma irremediável separação? Mateus enfatiza com firmeza a continuidade, pois Jesus cumpre a história de Israel; mas a própria realização provoca uma ruptura (cf. 4,23; 9,35; 10,17; 12,9; 13,54; 22,7 etc.).

Ao citar a “Lei e os Profetas” e dizer que Jesus não vem abolir, mas cumprir (5,17), Mateus  ressalta a fidelidade de Jesus à Aliança de Deus com Israel. Mateus retrata Jesus com traços judaicos, como livre seguidor e aperfeiçoador da lei e costumes judeus. Jesus supera o ensinamento dos rabinos.

Segundo J. Radermakers, o ensinamento de “Jesus libertou seu povo de uma Lei que se tornava opressora porque aqueles que eram seus guardiães tinham pouco a pouco substituído o espírito de liberdade por uma série incontável de observâncias minuciosas, inutilmente rigoristas. Essa libertação não consistia em uma supressão mais em realização prática: o cristão tem, pois, de viver a mesma Lei da Aliança, mas numa solicitude filial proporcionada à própria liberdade do Filho de Deus. Trata-se, para a Igreja primitiva, de se preservar de todo legalismo que negaria tal realização”.

Para Mateus, o elemento de ruptura é a abertura incondicional do povo eleito a todos os homens. Sem dúvida, o universalismo existia no judaísmo, especialmente nos profetas do pós-exílio, e anunciava a era messiânica.

ESTRUTURA LITERÁRIA

São muitas afinidades entre Mateus e Marcos quanto às partes narrativas. Há 178 passagens em comum. Mas há também mais ou menos 300 passagens próprias do evangelho de Mateus. O material é conhecido como Sondergut, que dizer: “peculiar, próprio de…”. Além das fontes de Mc e Q, Mateus se serviu de outras informações.

Essas informações, juntamente com Mc e Q, compõem a estrutura literária de Mateus. A composição literária mateana é fortemente marcada pelo Sitz im leben do destinatário e com características singulares. Vejamos:

  • Citações do Primeiro Testamento

Há 43 citações do Primeiro Testamento em Mateus. O evangelista se inscreve na tradição dos rabinos. Entre as citações bíblicas de Mateus, devemos destacar onze (1,23; 2,6.15.18.23; 4,15-16; 8,17; 12,18-21; 13,35; 21,5; 27,9-10), chamadas “citações de cumprimento” por causa da fórmula que as introduz: “a fim de que se cumprisse o que foi dito…”. Específicas de Mateus, todas se referem aos profetas, com exceção de (Sl 78,2 em 13,35). Designam-se também como “citações reflexivas” por exprimirem uma reflexão do evangelista.

  • O Midraxe

Midraxe é uma reflexão sobre a Escritura, onde os dados bíblicos são atualizados em função da situação presente. O Midraxe tem a função de edificar o leitor seja pela exortação (hagádico) seja pela orientação (haláquico).

Mateus utiliza o midraxe nos dois primeiros capítulos iniciais. Constitue um discurso profético sobre Jesus criança. Serve-se de um “midraxe de Moisés criança”, baseando no cap. 2 do Êxodo: o jovem Moisés, escapando ao massacre dos recém-nascidos e salvo das águas, torna-se o salvador de seu povo por meio da sabedoria e beldade com que Deus o agraciou. Mateus adapta este relato à apresentação de Jesus criança, mas não no espírito de uma lenda dourada. O evangelista age diferentemente do rabino: este último partia da Escritura para fazer perceber a atualidade; Mateus parte de Jesus, de sua vida concreta, de sua morte e de sua ressurreição, e esclarece sua identidade e ação com o auxílio da Escritura e das tradições orais que a prolongam, bem conhecidos de seus destinatários. Apoiando-se nos profetas, anuncia os títulos messiânicos de Jesus: Emanuel (Is 7,14), governante-pastor (2Sm 5,2), Filho de Deus (Os 11,1) etc. De resto, é bem um “testamento de Jesus”, novo Moisés com a diferença de que em Jesus, a revelação de Deus alcança o seu ponto definitivo.

  • A Mishna

Mishna constitui o código fundamental do judaísmo rabínico; é uma compilação de prescrições, com base em tradições mais antigas. A Mishna “dobra” a Escritura (o termo significa “repetição”), mas sua composição é sistemática, a fim de realçar os grandes princípios de conhecimento e de ação do povo de Israel.

Mateus cria analogias entre as secções casuísticas da Mishna (ex. “Ouvistes que foi dito… eu, porém, vos digo…” – 5,21-22; 27-28; 33-34; 38-39; 43-44). O discurso de Jesus na montanha, dirigido a todos, discípulos e multidões reunidos, parece inspirar-se nos tratados rabínicos da Mishna que desenvolvem uma moral do comportamento graças a leis determinadas. A diferença é que as orientações catequéticas do sermão do monte (6,19-7,27) são destinadas a dar um estilo de vida realmente fraternal à comunidade cristã; mostram como o engajamento exclusivo face a Deus exige uma abertura misericordiosa e discreta para o irmão e um discernimento leal do agir. A preocupação principal do discurso da montanha é, antes de tudo, pastoral.

  • A missão

O discurso sobre a missão (10, 5-42) dos discípulos escolhidos pelo Mestre é particularmente desenvolvido em Mateus. Apresenta-se como um compêndio de recomendação destinada aos apóstolos para lhes transmitir o espírito de sua missão. Encontramos exortações análogas nos escritos apocalípticos judeus.

Em Mateus a obra missionária a ser realizada consiste em prolongar a ação de Jesus (10,1; 9,35): ir ao encontro “das ovelhas perdidas da casa de Israel”. Para eles, “seguir” Jesus quer dizer estar pronto a entregar a vida para que se estabeleça o Reino, confiando naquele que envia e que se identifica com seu enviado (10,24-25,40).

  • Sabedoria

O discurso das parábolas utiliza-se de um gênero literário frequente nos livros históricos das Escrituras, como nos dos profetas e nos escritos da Sabedoria. A parábola consiste em explicar, ou antes, em fazer descobrir uma verdade profunda, uma realidade espiritual, por meio de comparações figuradas que o espírito apreende.

Na linha das invectivas dos profetas, Mateus mostra Jesus dirigindo-se aos “escribas e fariseus hipócritas” por sete ou oito vezes. Denuncia o falso discernimento e o abismo que se abre entre sua doutrina e seus atos (Is 5,8-25 e 10,1-4).

  • Escatologia

O discurso sobre a vinda do Filho do homem é muitas vezes designado como discurso escatológico, porque oferece uma perspectiva definitiva sobre o compromisso do cristão com o que Mateus chama de “parusia”, isto é, o último “evento” do Filho do homem na história humana. Em Mateus ele toma a forma de um discurso sobre a vigilância.

Visões deste gênero existiam na literatura judaica, encontramo-las nos profetas, especialmente em Daniel. Os apocalipses judaicos, cuja maioria foi escrita entre o século II antes e o século I depois de Cristo, apresentam uma visão global do mundo e da história da humanidade. Nascidos numa época de marasmo ou de crise, estes escritos visam reforçar a fé e a esperança das comunidades judaicas e promovem a expectativa messiânica. Todos estes escritos foram amplamente utilizados pelos primeiros cristãos, para manter a coesão de suas comunidades durante as perseguições; também reformularam estes textos, a fim de fazer aparecer neles o anúncio explícito de Jesus Cristo.

  • Quiasmo

Encontra-se frequentemente uma figura do estilo chamado quiasmo, ou cruzamento dos membros de uma frase, a fim de realçar um paralelismo. Por exemplo, Mt 16,25: “Aquele que quiser salvar sua vida (A), perdê-la-á (B), ou aquele que perder sua vida (B) por causa de mim, vai encontrá-la (A)”.

  • Aritmética teológica e gematria

Mateus apela para aritmética teológica dos rabinos, que atribui aos números valor simbólico: 1 é o número de Deus; 2 = criatura; 3 = constituição do homem; 4 = criação; 5 = agir divino; 6 = falta; 7 = história humana; 8 = plenitude; 12 = a comunidade etc.

Outro processo é a gematria. Esse processo consiste em adicionar o valor numérico das letras hebraicas, a fim de descobrir correspondências misteriosas, de origem teológica. Este sistema engenhoso, tradicionalmente empregado pelos rabinos, será desenvolvido de maneira sistemática pelo Cabala. Este nome (do hebraico Qabbalah = acolhimento) designa um movimento de filosofia mística no seio do judaísmo medieval; tendia à união com Deus pelo conhecimento íntimo das harmonias do universo e usava uma linguagem codificada, empregando o mistério dos números.

 

Carlos Cunha

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Teologia: assunto do coração e da cabeça

Espiritualidade e teologia estão relacionadas. Isto é, as tentativas de verbalizar o Mistério não podem ser separadas da fé e vivência espiritual. Todo o esforço de falar sobre o nosso entendimento de Deus (teologia) somado aos esforços para viver à luz desse entendimento (espiritualidade) resultam numa teologia cristã genuína. Uma teologia viva está sempre fundamentada na vivência espiritual. A teologia é para ser vivida tanto quanto estudada e explicada.

Para Agostinho (De Trinitate, Livros XII-XIV), Deus é conhecido, não por scientia, mas por sapientia.  Para o bispo de Hipona, Deus é experimentado não pela objetivação e análise, mas por um conhecimento contemplativo de amor e desejo. A teologia patrística não era uma disciplina abstrata separada da teoria e prática pastoral. Os Pais da Igreja se esforçavam por manter a união entre o conhecimento teológico reflexivo e a vida de oração e contemplação.

O segredo para uma boa teologia é a oração. Isso equivale a dizer que uma teologia lúcida e rica se produz num contexto de relacionamento com o Divino, e não simples devoções e técnicas de meditação. Alguém já sugeriu que “toda verdadeira oração é teologia verdadeira, e vice-versa. Pois a verdadeira oração e a verdadeira teologia são ao mesmo tempo assuntos do coração e da cabeça”. O lugar ideal do teólogo é de joelhos – teologia genuflexa.

A teologia é essencialmente performativa além de informativa; a sua preocupação primeira é com a ação, depois, com as ideias. Nesse sentido “ser um teólogo” equivale dizer alguém envolvido profundamente com a realidade sobre a qual reflete. “Teólogo” é um sujeito de fé que por meio da análise especializada e informação demonstra a racionalidade da sua “práxis”.

O resgate da relação entre espiritualidade e teologia é desafiador para a teologia acadêmica contemporânea. Somos desafiados a reconstruir relações fecundas entre as atividades acadêmicas de pesquisa e os ensinos e aplicações práticas da oração, pregação, cuidado pastoral e evangelização. A “teologia leiga” que brota das comunidades da fé interpela a teologia acadêmica a repensar as suas raízes e seus frutos.

 

Carlos Cunha, setembro de 2012.

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Teologia do Evangelho de Marcos

BIBLIOGRAFIA

AUNEAU, J. et al. Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1985. p.96-115. MARCONCINI, B. Os Evangelhos sinóticos: formação, redação, teologia. São Paulo: Paulinas, 2001. p.104-115. LIBANIO, J.B. Linguagens sobre Jesus: linguagens narrativa e exegética moderna.v.2. São Paulo: Paulus, 2012. p.91-103. CARSON, D.A. et al. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997. p.99-122. Bíblia de estudo ALMEIDA. São Paulo: SBB, 1999.

INTRODUÇÃO

Desde o início do século XX, a teoria do “Segredo messiânico” colocava a leitura dos evangelhos, e particularmente a de Marcos, no terreno da teologia. A valorização da perspectiva teológica dos Sinóticos favorece o evangelho de Marcos como uma fonte singular que transmite uma mensagem, retomando e trabalhando as tradições.

Marcos, como fonte, oferece instrumentos para o estudo sobre a vida e a mensagem de Jesus Cristo. Nele podemos estudar a maneira como apresenta Jesus, como concebe o Reino, a vida de discípulo, a missão cristã etc. Na elaboração de uma teologia do Novo Testamento, vem a ser tão indispensável quanto Mateus e Lucas.

Mesmo apresentando desordens cronológicas e topográficas, Marcos supera um mero historicismo sobre a vida do Mestre. O seu enfoque consiste em refletir sobre a pertinência teológica da vida histórica de Jesus e seu ministério. O seu evangelho é uma prédica em que os atos e os ditos de Jesus compõem o tema fundamental para os seguidores do Filho do Homem.

O “evangelho”, como forma literária, criado por Marcos permite o entrelaçamento de temas “biográficos” e querigmáticos com a pretensão de transmitir ao leitor a relevância do evento Cristo e lembrar aos cristãos de que sua salvação depende desse ato realizado uma vez por todas por Jesus. Marcos vinculou inextricavelmente a fé cristã à realidade de acontecimentos históricos. A estruturação querigmática proposta por Marcos dá ao leitor a compreensão dos acontecimentos salvíficos e prepara-o para recitar esses eventos em sua própria evangelização.

Por isso, para uma devida apropriação do conteúdo marcano, a leitura do evangelho precisa ser global. O conjunto do texto mostra a convergência dos elementos que apontam para o reconhecimento de Jesus, proclamação do Reino e o convite a uma vida cristã. É preciso estar atento à correlação destes elementos.

É a partir desses três eixos: reconhecimento de Jesus como Filho de Deus, proclamação do Reino de Deus e o convite a uma vida de seguimento a Jesus, que a teologia de Marcos emerge com relevância para a contemporaneidade. Vejamos:

JESUS CRISTO, O FILHO DE DEUS

O evangelho de Marcos  proclama que Jesus é a revelação definitiva de Deus. É a epifania de Deus no homem Jesus. Em seu Filho eterno, Deus se integra na história da humanidade. Os vários títulos dados a Jesus mostram, sem a pretensão de esgotar, indícios da sua natureza e missão: Jesus Cristo, Filho de Deus (1,1), Filho amado (1,11), Santo de Deus (1,24), Filho de Deus (3,11), Jesus, filho do Deus altíssimo (5,7) Cristo (8,29), Filho amado (9,7), o Messias, o Filho do Deus Bendito (14,61), Filho do Homem (14,62), Filho de Deus (15,39). O singelo mestre chegado da Galileia (1,9) é o Cristo, o Messias a quem desde séculos antigos esperava o povo de Israel (8,29; 9,41; 14,61-62). O evangelista anuncia a presença de Jesus no mundo como o sinal imediato da vinda do Reino de Deus (1,14-15; 4,1-34).

Marcos faz questão de deixar transparecer também a identificação de Jesus com as vicissitudes humanas. Jesus de Nazaré, o Filho de Deus, é também o Filho do Homem. Ele participa dos sentimentos humanos e é sujeito ao sofrimento e à morte (8,31). O Jesus de Marcos atinge o leitor pelo realismo de sua vida humana. Ele provoca no ouvinte-leitor uma reflexão ativa.

Não é sem motivos que Marcos dá destaque aos discípulos como “privilegiados e perplexos” (Guelich). Privilegiados por pertencerem ao Reino de Deus e perplexos por apresentarem reverses diante do sofrimento. Os seus discípulos, principalmente os Doze, aparecem com destaque em Marcos e servem como exemplo para os destinatários de Marcos. No entanto os Doze não são modelos a serem imitados: o seu fracasso evidente é especialmente proeminente em Marcos. O evangelista não oculta esta informação. Marcos descreve os discípulos como duros de coração (6,52), espiritualmente fracos (14,32-42) e incrivelmente obtusos (8,14-21).

O ANÚNCIO DO REINO DE DEUS

Marcos dá atenção especial ao “Reino de Deus” (Basileia tou theou). No evangelho de Marcos, a expressão grega designa a realeza, a dignidade real, e pode tanto qualificar a grandeza que é um reino, quanto o poder exercido ativamente. Conviria escolher em cada contexto o sentido mais possível.

Marcos cria correlações entre o Reino de Deus, o seu evangelho e o ministério de Jesus Cristo. O tema surge como elemento-chave para clarear as relações com:

  1. O Evangelho: Reino de Deus e Evangelho estão ligados na estrutura do texto proposto por Marcos. O Reino traz nova dimensão à existência humana: desvenda uma nova vida, premente para hoje e para o futuro. Atua na história, enquanto a lei de iminência não permite especular sobre a data de seu estabelecimento definitivo (9,1; 13,30-32);
  2. Jesus Cristo: a pregação de Jesus segundo Marcos centraliza-se na iminência do Reino. Aos discípulos revela o segredo deste Reino (4,11); nele só se entra ouvindo a revelação do Filho do Homem (9;10); por fim, é a visão do Filho do Homem que é esperada (13). Jesus conduz ao Reino, o Reino conduz a Jesus.

SEGUIR A JESUS

“Evangelho” em Marcos é a Boa-Nova da salvação trazida por Cristo e pregada pelos apóstolos. Portanto o termo pertence ao vocabulário da missão cristã. Utilizado três vezes no prólogo e introdução, ele orienta a leitura do livro (1,1.14.15). Está intrinsecamente ligado a Jesus, que dele é o objeto, mas também o sujeito ativamente presente em sua pregação. O seguimento a Jesus se faz na proclamação do Evangelho de Deus, isto é, a plenitude dos tempos e a iminência do Reino de Deus, e provocar, assim, a conversão e a fé. Marcos remonta ao princípio da pregação do evangelho ou ao princípio que a fundamenta.

O termo “evangelho”, que Marcos introduz sem explicação, como algo conhecido de seus leitores, traduz bem sua preocupação missionária. Permite unir e integrar diferentes elementos constitutivos no seu texto: ministério histórico de Jesus, presença do Ressuscitado entre os seus, missão da Igreja.

Marcos explora muito o itinerário de Jesus. A vida de andarilho revela a vocação missionária, desprotegida, desapegada, livre para consagrar-se ao anúncio do Reino. A transformação de vida que Jesus exige ao proclamar a Boa-nova do Reino concretiza-se numa vida de fé. O plural “crede” interpela uma comunidade de crentes. O texto indica que o caminho da fé lhe é difícil.

Ao dizer “convertei-vos e crede no evangelho” (1,15), Marcos elabora uma mensagem de conforto e incentivo dirigida a uma comunidade que vive um período de crise. Tal mensagem de ânimo esbarra nas limitações dos discípulos que respondem com a prece do pai do menino endemoninhado: “Eu creio! Mas ajuda a minha incredulidade!” (9,24). Viver na fé é seguir Jesus por áridos caminhos. Itinerário obscuro que, paradoxalmente, ilumina as dimensões profundas do relacionamento que o evangelho instaura entre o crente e Jesus, Filho de Deus.

Carlos Cunha

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Introdução ao Evangelho de Marcos: características gerais

BIBLIOGRAFIA

AUNEAU, J. et al. Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1985. p.57-131. KÜMMEL, Werner G. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1982. p.93-121. KONINGS, Johan. Marcos. São Paulo: Loyola, 1994. MARCONCINI, B. Os Evangelhos sinóticos: formação, redação, teologia. São Paulo: Paulinas, 2001. p.85-115. LIBANIO, J.B. Linguagens sobre Jesus: linguagens narrativa e exegética moderna.v.2. São Paulo: Paulus, 2012. p.91-103. Bíblia de estudo ALMEIDA. São Paulo: SBB, 1999.

INTRODUÇÃO

Para uma visão geral da estrutura do evangelho de Marcos, eu faço uma opção pelo esboço sugerido pela Bíblia de Estudo Almeida (SBB, 1999). Evidentemente, que há esboços mais bem trabalhados como é o caso do material oferecido por Jean Auneau (cf. AUNEAU et al., 1985, p.59-64). Mas, para o momento, o texto de Marcos, esboçado por meio de grandes blocos narrativos, atende o objetivo proposto nessa introdução ao evangelho de Marcos. Vejamos:

Prólogo 1,1-15

Pregação de João Batista 1,1-8

Começo do ministério de Jesus 1,9-15

1. Jesus, o Messias 1,16-8,30

a)      Atividades e ensinamentos de Jesus 1,16-3,12

b)      Proclamação do Reino de Deus 3,13-6,6

c)      Jesus se revela como o Messias 6,7-8,30

2. Jesus, o Filho do Homem 8,31-16,20

a)      Jesus anuncia a sua morte 8,31-11,11

b)      Atividades de Jesus em Jerusalém 11,12-13,37

c)      Paixão, morte e ressurreição 14,1-16,20

De imediato, percebem-se dois momentos distintos no evangelho de Marcos: 1. Jesus, o Messias e 2. Jesus, o Filho do Homem. No primeiro momento, o ambiente predominante é o da Galileia enquanto, no segundo momento, Jerusalém passa a ser o espaço em foco. O itinerário proposto por Marcos deixa transparecer, na maneira como divide a história de Jesus (Galileia e Jerusalém), sua concepção teológica da salvação que escapa das mãos dos judeus incrédulos para os gentios que creem.

A estrutura geográfica-teológica de Marcos realça a natureza cristológica do evangelho. No primeiro momento (1,1-8,26), há alusões esporádicas ao significado da pessoa de Jesus (ex. 1,34; 2,10.17b.19.28; 3,11; 4,41 etc.). Não se põe claramente a questão relativa a este Jesus, como também não há referências à necessidade, para a salvação, de sua morte e ressurreição – tema para o segundo momento (ex. 8,27-31; 9,2ss; 12.31.41; 10,33s.45 etc.).

Marcos exibe, embora de maneira um tanto sumária e grosso modo, certa organização geográfica. Jesus é encontrado na maioria das vezes na Galileia e adjacências e caminhado rumo à Jerusalém. A grande concentração da atividade de Jesus na Galileia tem um motivo de ordem teológica. A marca da concepção teológica do significado da Galileia, como o lugar da atividade escatológica de Jesus e do ponto de partida da evangelização dos gentios, é guiada em sua marcha pelo Ressuscitado. Com isso dá a entender claramente que Marcos está se dirigindo aos cristãos provenientes da gentilidade, que não têm mais ligação com Jerusalém ou com os judeus de lá.

Além disso, torna-se evidente por meio da concentração proposital do material cristológico, que Marcos está plenamente concebido de acordo com o querigma pós-pascal. Fato este cada vez mais claro diante do tema do “Segredo messiânico”. Isto é:

“No evangelho de Marcos, Jesus proíbe sistematicamente que alguém publique ser ele o Messias (ou ‘Cristo’, em grego), sejam os demônios que o reconhecem como vencedor ao serem expulsos, seja alguém que é curado, seja Pedro que dos milagres deduz ser ele o Messias (8,29). Jesus faz segredo de seu messianismo, ainda que as pessoas não respeitem sua proibição (1,44-45). A razão pode ser dupla: em primeiro lugar, não quer ser identificado com o que geralmente se espera do Messias: um novo Davi, um guerreiro que expulse os estrangeiros, levante a grandeza nacional de Israel etc. Por outro lado, se Jesus não faz tudo o que se espera do messias davídico, ele faz muito mais. Mas para identificar esse ‘programa’ inesperado e incompreensível, ele usa outro termo: ‘filho do homem’ (8,31). No evangelho de Mc, o ‘segredo messiânico’ aponta para a manifestação escondida do ‘filho do homem'”(KONINGS, 1994, p.37).

Atenção à imagem do Filho do homem que se pretende ocultar, mas que não pode continuar a fazê-lo, como expressão da fé, a qual reconhece já na vida terrena de Jesus a dignidade oculta do Filho de Deus perpassa toda a sua vida, desde o nascimento até a morte e à ressurreição. Fica claro que Marcos modelou teologicamente a tradição palestina a respeito de Jesus de acordo com pressupostos gentio-cristãos.

A divisão baseada em critérios teológicos utilizados pelo evangelho de Marcos tem como eixo a progressiva manifestação da identidade de Jesus, que é um aspecto muito importante neste evangelho. Esta manifestação gira em torno de dois títulos: Messias e Filho de Deus (Mc 1,1).

Depois desta breve análise a partir do esboço sugerido, faremos uma introdução aos elementos referentes à autoria, linguagem, datação, destinatário e estrutura literária.

AUTORIA

Marcos, como fonte, é pioneiro no gênero literário conhecido como “evangelho”. Ele está subjacente aos outros dois evangelhos sinóticos como a forma mais antiga de evangelho. Se procurarmos a forma mais original da tradição de Jesus, deveremos olhar para o evangelho de Marcos. A Teoria das duas fontes traz à tona a tradição transmitida isoladamente ou pequenos grupos de unidades de tradição oral utilizadas pelo evangelista. Assim, ele teria combinado entre si pequenas coleções de diversas tradições e unidades dispersas da tradição, resultando disso tudo uma apresentação mais ou menos coerente.

Marcos não é um historiador, nem um mero compilador (transmissor de uma tradição), ou divulgador, e sim um autor que conscientemente reelaborou a tradição com algumas pecularidades literárias de sua composição. Marcos é um narrador que conta o que chegou ao seu conhecimento.

Para a exegese tradicional, Marcos é um convertido do Judaísmo:

“[…] Chamado João Marcos (At 12,12-25; 15,37), primo ou sobrinho de Barnabé (Cl 4,10), com quem está em estreita relação (At 15,36-40), bem como com Pedro, que após a sua milagrosa saída da prisão refugiou-se ao lado da mãe de Marcos, Maria, proprietária de uma casa que se tornou centro de oração para a comunidade cristã (At 12,12). Segue Paulo na primeira viagem missionária, ainda que depois o abandone (At 12,25; 13,5) e volta para Chipre junto com Barnabé. Estará novamente próximo do apóstolo dos gentios, prisioneiro em Roma (Fl 24), de quem ele se torna valoroso colaborador (2Tm 4,11). Está ligado à figura e à pregação de Pedro, de quem é reconhecido ‘intérprete’ (ermeneutés) por Papias, mais que um tradutor ou ‘porta-voz'”(MARCONCINI, 2012, p.91).

Outro elemento importante a favor da autoria de João Marcos é a sua relação com Pedro e Paulo. Só para ter uma ideia dessa relação, Pedro aparece 25 vezes no evangelho de Marcos. Pedro, na sua primeira carta o menciona como “meu filho Marcos” (1Pe 5,13). Quanto a Paulo, Marcos foi seu colaborador (At 12,25; 13,5.13; 15,37.39; 2Tm 4,11).

Já na exegese liberal, não se atribui a autoria de Marcos com tanta veemência. Há certa cautela em definir com precisão quem escreveu o evangelho que leva o nome de Marcos. É nesse espírito de temeridade atrelado às novas pesquisas redacionais que surge o elemento da pseudonímia.

“A redação dos Evangelhos usou um recurso que nos chocaria hoje, ao atribuir a um apóstolo ou a um discípulo determinado a autoria do texto a fim de vesti-lo de maior peso e autoridade, embora ele não tenha sido o real, ou pelo menos, o autor completo do texto. Alguma vinculação se buscou com ele, mas de difícil acesso para nós hoje” (LIBANIO, 2012, p.87).

É possível conciliar as duas opiniões no sentido de ver João Marcos como um dos autores do longo processo de composição do evangelho de Marcos.

LINGUAGEM

O grego utilizado pelo evangelho de Marcos apresenta a rusticidade característica de quem está usando um idioma que não lhe é próprio e, contudo, sabe desenvolver um estilo vivo e vigoroso. Recorre, provavelmente, à memória de coisas ouvidas, mas é capaz de criar no leitor a impressão de encontrar-se ante uma testemunha ocular dos fatos relatados.

A rudeza da linguagem e o imediatismo das cenas traduzem mais facilmente o estilo da linguagem falada, estilo improvisado, mais propenso a converter do que deixar-se admirar pela fluência de um texto, exigindo assim, com muita probabilidade, a pregação romana de Pedro. A linguagem utilizada no evangelho sintetiza a tradição querigmática de Paulo e a tradição narrativa de Pedro.

A língua é o grego popular koiné, com semitismos (talithà kum, effethâ, kordân, Abbà etc.), porém não de tal modo a justificar um original aramaico, com alguns latinismos (praitórion, kentyrion etc.), com estilo vivaz, próprio da oralidade, pouco cuidado gramatical e sintático.

DATAÇÃO

Há certa unanimidade com relação à composição do texto. Ele pode ser datado, com maior probabilidade, antes da destruição de Jerusalém e não depois. Marcos foi escrito entre 65 e 70 d.C. antes da redação de Mateus e Lucas.

DESTINATÁRIO

Os elementos oriundos da linguagem e da datação ajudam a montar o perfil do destinatário do evangelho de Marcos. Há fortes indícios de ser uma comunidade de origem como sendo Roma. Os Pais da Igreja testificam sobre isso (Clemente de Alexandria, Jerônimo, Eusébio etc.) e ratificam-no numerosos latinistas.

É uma comunidade que está passando ou passou pela perseguição de Nero (ano 65) e pelos efeitos da revolta judaica (anos 66-70). Portanto, uma comunidade sacudida em sua própria fé e sobre a messianidade e o poder de Jesus. A comunidade é convidada a reinterpretar a própria vida à luz do evento Cristo. É uma comunidade que se organiza, não apenas para ajudar os que creem a reconhecer a Jesus, como também a anunciá-lo a quem não o conhece. Por isso é uma comunidade aberta à missão, como as numerosas referências ao querigma e à catequese deixam entrever (1,21-28; 7,24-30; 14,9). Uma evangelização difundida por toda parte, de casa em casa (6,6b-7.10).

ESTRUTURA LITERÁRIA

Do ponto de vista da composição literária, o evangelho de Marcos pode ser chamado de evangelho da “desordem” (Papias). O exame do material literário e a sua estruturação em uma única obra constituem um problema tão controverso que chegam a desorientar os especialistas mais habilitados. Isto porque há pelo menos três critérios possíveis para a estruturação do evangelho: geográfico, literário e teológico. Que ideia teria guiado o evangelista neste trabalho de unir entre si estas passagens isoladas?

Elencaremos os elementos estruturais mais importantes:

  1. O autor não conhece pessoalmente a geografia da Palestina como o demonstram seus números erros.
  2. O autor privilegia a teologia dos espaços (Libanio). Faz frequentemente uso do expediente literário, de maneira a preencher determinado espaço de tempo (ex. 3,22-30 em 3,21.31-35; 5,25-34 em 5,21-24.35-43; 6,14-29 em 6,6-13.30s etc.).
  3. Costuma preparar antecipadamente o espírito do leitor para acontecimentos posteriores (ex. 3,9 antes de 4,1ss; 11,11 antes de 11,15ss etc.).
  4. Dá a impressão de uma visão de conjunto do acontecido, no sentido de que mais de uma vez insere resumos entre as narrativas distintas (1,32-34; 3,7-12; 6,53-56).
  5. Da grande destaque a Pedro (25 vezes) e “os Doze” (11 vezes). A comunidade reflete um ambiente popular, com tendências apocalípticas (Mc 13 e a demonologia), pouco afeita aos textos do Primeiro Testamente, citando-os apenas cerca de 30 vezes.
  6. Prevalecem as narrativas compostas de milagres, controvérsias, narrativas biográficas.
  7. Os ensinamentos consideram sobretudo as parábolas (14) e o discurso escatológico (13).
  8. Agrupamentos de breves episódios e de conjuntos maiores são mobilizados por toda uma série de técnicas, como palavras e conectivos (“e”, “de repente”, “de novo”, verbos de movimento).
  9. A ocorrência de títulos que revelam a pessoa de Jesus e as reações dos presentes constitui a estruturação que se estende a todo o evangelho: Jesus Cristo, Filho de Deus (1,1), Filho amado (1,11), Santo de Deus (1,24), Filho de Deus (3,11), Jesus, filho do Deus altíssimo (5,7) Cristo (8,29), Filho amado (9,7), o Messias, o Filho do Deus Bendito (14,61), Filho do Homem (14,62), Filho de Deus (15,39).
  10. Uma característica típica de Marcos é que dedica mais espaço aos atos que aos discursos de Jesus.
  11. O que realmente importa ao evangelista é testificar que à pergunta sobre quem é Jesus a primeira comunidade cristã respondeu com convicção: Jesus é o Filho de Deus. E, fazendo-se eco dessa afirmação de fé, Marcos inicia a sua mensagem enunciando solenemente Mc 1,1.

Carlos Cunha

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