Onde está o teu irmão?

A relação entre a teologia e a espiritualidade, nas últimas décadas, encontrou na exegese bíblica uma aliada importante para a reflexão teológica. Os estudos bíblicos críticos revelam que a experiência espiritual narrada na Bíblia não é uma experiência sobre Deus, mas de Deus. Há um a priori absoluto e gratuito de Deus que penetra na trama histórica e que produz as mais diversas manifestações de espiritualidade. Neste processo, Deus é o primeiro e o último de toda espiritualidade.

A Bíblia não oferece uma teoria sobre a espiritualidade. Não há nos textos bíblicos elementos normativos para isto. Os conteúdos bíblicos oferecem, no seu conjunto, indícios inspirativos para uma espiritualidade. Assim quando nos referimos à espiritualidade bíblica, estamos falando de um: “conjunto de conteúdos bíblicos, de cunho inspirativo, que caracterizam a vida de um indivíduo ou um grupo de pessoas referido ao Divino – Deus de Abraão, Isaque e Jacó e Pai de Jesus Cristo”.

Esse conceito de espiritualidade bíblica tem dois importantes aportes: 1) Ajuda a corrigir os excessos de uma espiritualidade desvinculada de uma leitura bíblica efetiva. É preciso entender que Deus é imutável, mas a nossa compreensão sobre ele muda constantemente. Não se deve ler o Primeiro Testamento sem entender o Sitz im leben dos relatos. Deve-se avaliar criticamente o relato à luz de uma espiritualidade madura. 2) A espiritualidade bíblica emerge da compreensão integral dos textos das Escrituras. Os textos precisam ser lidos e entendidos no conjunto. É a visão integral dos personagens e dos acontecimentos que possibilita pinçar elementos de espiritualidade.

A característica marcante da Bíblia é a espiritualidade comunitária, com prioridade na comunidade de fé e com interesse no indivíduo como membro nela inserido. Nisso aparece a dimensão comunitária como o lugar ideal para a espiritualidade. Portanto, a espiritualidade bíblica é uma espiritualidade de comunidade. A relação entre Deus é o próximo expressa no Decálogo (Êx 20,1-17) e reafirmada por Jesus (Lc 10,25-28) reforça essa compreensão.

A espiritualidade narrada nos textos bíblicos tem uma dimensão vertical/horizontal. A busca por Deus se faz, concomitantemente, na busca pelo outro, próximo. Não há espiritualidade genuína, rumo ao Divino, que não passe pela mediação do outro. A pergunta de Deus sobre o meu irmão ou minha irmã ecoa pela história de homens e mulheres de Deus: “Disse o Senhor a Caim: Onde está Abel, teu irmão? E ele respondeu: Não sei. Acaso sou eu guardador do meu irmão?” (Gn 4,9). Claro que sim! Somos responsáveis uns pelos outros na grande família de Deus.

Carlos Cunha

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Arquivado em Reflexão teológica

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