Teologia do Evangelho de Mateus

BIBLIOGRAFIA

AUNEAU, J. et al. Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1985. p.179-190. MARCONCINI, B. Os Evangelhos sinóticos: formação, redação, teologia. São Paulo: Paulinas, 2001. p.130-146. QUEIROZ, Carlos. Ser é o bastante: felicidade à luz do Sermão do Monte. Curitiba: Encontro, 2003. LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Exodus, 1997. p.113-125.

INTRODUÇÃO

O evangelho de Mateus desenvolve uma teologia da história em dupla perspectiva: do passado, com as genealogias (1,1-7), as citações e frases evocativas de amplos contextos do Primeiro Testamento, como a “Boa Notícia do Reino” (4,23; 9,35; 24,14), palavra e doutrina do Reino (13,19.52); do futuro, anunciando que todos os povos serão feitos discípulos graças à pregação dos enviados (cf. 28,16-20). Deus faz história com os seres humanos de maneira única e decisiva em Jesus, Cristo e Filho de Deus.

O itinerário terreno de Jesus proposto por Mateus é único. Pouco a pouco, Jesus vai se revelando às multidões enquanto formava seus discípulos na construção progressiva de sua Igreja – instrumento para o mundo da presença do Reino dos Céus.

O ponto de partida desse itinerário aparece no evangelho da infância. Com o auxílio dos profetas, Mateus explicita a maneira como Jesus realiza as esperanças judaicas. Mateus atribui-lhe os títulos messiânicos tradicionais. Segundo o anúncio profético, ele nasce em Belém, cidade real: é verdadeiramente “Filho de Davi” (9,27). Mas Jesus não é o Messias nacionalista esperado pelos seus contemporâneos. A fim de corrigir este equívoco, Mateus apela para a figura do “Servo” de Deus (8,17); extraídas de Isaías (Is 42,1-4 e 53,4); se ele é rei (21,5), o é na humildade, segundo a visão de Zacarias (9,9). De toda maneira, são as Escrituras que, incessantemente, autenticam sua identidade.

As cinco unidades discursivas de Jesus compostas pela “Escola de Mateus” desenham o perfil da vida em Igreja. Esta encontra-se reunida (10,1), instituída (16,18) e enviada (28,19-20) pelo próprio Cristo, regra viva e única do comportamento dos discípulos. A comum relação dos seguidores de Jesus com o Pai cria a comunhão fraterna que é legitimada pelos atos. Este compromisso com Deus é parâmetro para as relações fraternas e abre espaço para a “regra áurea” da solidariedade humana (7,12), bem conhecida do helenismo e do judaísmo. O célebre doutor fariseu Hillel a retoma: “Não faças aos outros o que não desejarias que te fizessem. Eis toda a Lei; o resto é apenas explicação. Vai, aprende-a!” (Talmude de Babilônia, tratado Shabbat 31a).

NÚCLEO DO PENSAMENTO MATEANO

Para Benito Marconcini, o núcleo do pensamento de Mateus é dividido em três elementos fundamentais que dão sustentação à teologia do evangelho:

1. Eclesiologia. A dimensão eclesiológica é fortemente enfatizada. Dos Sinóticos, Mateus é o único que introduz o tema da Igreja (16,18; 18,17). O evangelho é uma catequese continuada referente à construção da comunidade, constituída de regras próprias, o perdão, a oração, a correção fraterna (18) e que termina no Reino. A Igreja está aberta para todos os povos, fazendo aí uma diferença com o Antigo Israel (21,43).

2. Cristologia. Jesus é o fundamento da Igreja. A Igreja pertence a Ele. Ele é o seu Senhor. Entre os vários títulos dados a Jesus, Filho de Deus (2,15) unido a Senhor (Kýrios) fortalece a imagem referencial para as comunidades em formação. Jesus é o único mestre (23,10) capaz de iluminar, exortar, julgar e tornar leve o jugo (11,28-30) da Igreja. Ele está constantemente presente, desde a encarnação, quando se apresenta como Emanuel (Deus conosco, 1,23), no dia-a-dia, quando garante “estar no meio” daqueles que se reúnem para orar (18,20), continuando a assistência também após a ressurreição (“estarei com vocês todos os dias até o fim do mundo”, 28,20).

3. Ética e moral. O evangelho de Mateus oferece indícios da ética e moral da comunidade cristã. O que importa é agir (cf. 7,21). O juízo final, fortemente enfatizado, é feito com base nas obras de caridade. Não basta pertencer fisicamente à comunidade: tem-se o chamado, mas ainda não se é eleito. A condição de eleito transparece diante de ações cristãs concretas.

AS BEM-AVENTURANÇAS (Mt 5,1-16)

As bem-aventuranças dão o tom inicial do Sermão do Monte. O grande discurso reflete um estilo paradoxal capaz de criar admiração e angústia no ouvinte/leitor pela dificuldade em pô-lo em prática. C.H. Dodd esclarece a perspectiva ética do Sermão: “Não devemos supor que sejamos capazes neste mundo de amar nossos inimigos, ou mesmo o nosso próximo, na plena medida em que Deus nos amou; ou mesmo de sermos tão completamente desinteressados e ingênuos, tão puros quanto aos desejos e ansiedades do mundo e tão predispostos ao sacrifício, quanto as palavras de Jesus o exigem; e contudo estes são os padrões pelos quais nossas ações são julgadas […] Os preceitos de Cristo não são definições estatuárias como as do código mosaico, mas sim indicações da qualidade da direção de ação que devem ser aparentes mesmo nas mais simples atitudes”.

A mensagem contida no Sermão tem uma dimensão social e não apenas individual. A praticabilidade não diz respeito nem a qualquer pessoa excepcional nem a todos os seres humanos indistintamente, mas à comunidade cristã, salva pela graça de Deus. A possibilidade de os homens viverem essa insólita mensagem é provocada pelo ingresso na comunidade cristã.

As bem-aventuranças descrevem o povo de Jesus. Que tipo de vida, caráter e ação deveriam ter os discípulos do Mestre. O Sermão não descreve a felicidade, mas diz o porquê o seu povo é feliz. A ética de Jesus proposta nas bem-aventuranças descreve o ideal do ser humano em cuja vida o Reino de Deus é absolutamente realizado. Por isso, a palavra “bem-aventurado”, do grego Makarios aparece em forma exclamatória, “como são felizes!”; significa mais que “feliz”, porque a felicidade é um sentimento que muitas vezes depende das circunstâncias externas. Esta palavra refere-se aqui ao bem-estar máximo e à alegria espiritual exclusiva dos que têm parte na salvação do Reino de Deus.

Qual é o perfil ético e moral do povo de Jesus?

Bem-aventurados os pobres em espírito. É um povo carente e dependente de Deus. Povo assim, consciente da dependência, prioriza a comunhão com Deus e com o próximo.

Bem-aventurados os que choram. São os que lamentam tanto os seus próprios pecados e falhas, como o mal tão preponderante no mundo, causando tanto sofrimento e miséria.

Bem-aventurados os mansos. Povo que por Deus abre mão dos seus próprios direitos.No Reino de Deus a conjugação é feita de forma diferente: o maior no Reino de Deus não é o que manda e sim o que serve (20,25-28).

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça. Povo que quer ver a vontade de Deus sendo feita. Povo que tem fome e sede de solidariedade, fraternidade e justiça social.

Bem-aventurados os misericordiosos. Aqueles que constatam que são pecadores e, por isso, sentem compaixão pela vida dos outros.

Bem-aventurados os limpos de coração. São os íntegros. Pessoas livres da tirania de um “eu” dividido. Um povo transparente que fala com o coração.

Bem-aventurados os pacificadores. São os propagadores da paz de Jesus. Povo portador de uma mensagem de paz com Deus, consigo mesmo, com o próximo e com o planeta.

Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça.  Pessoas que sabem do preço pela obra de Jesus. A vitória do cristão não é sofrer, mas não ser derrotado pelo sofrimento. É isto que torna o povo de Jesus inabalável.

Bem-aventurados os injuriados e perseguidos por amor a Cristo. São aqueles que sofrem injustiças, calúnias e violências por amor a Cristo. O sofrimento do povo de Jesus é um indicador da linhagem dos profetas.

A GRANDE COMISSÃO

Junto à mensagem das bem-aventuranças aparecem as condições do testemunho prestado pelos enviados por Jesus. A comunidade reunida por Jesus é automaticamente missionária, pois a missão nada mais é do que a participação do discípulo na ação do Mestre (10,24-25).

O teste decisivo da pertença ao Reino é a prática das obras de misericórdia, não somente em relação aos discípulos, essas “pequeninas” vítimas da perseguição (18), mas ainda para com todos os seres humanos em situações angustiosas.

A Igreja constrói-se enquanto vive e proclama Jesus que reúne todas as nações do mundo e mergulhadas, pelo batismo, em sua morte e ressurreição, para fazê-las compartilhar da vida do Pai no Espírito. Esse é um grande desafio! Infelizmente, o texto da Grande Comissão (28,19-20) foi mal interpretado. William Carey, missionário protestante, em Inquérito sobre a obrigação dos cristãos usarem meios para a conversão dos pagãos (1792), enfatizou que a Grande Comissão é uma ordem para ser obedecida. Isto não é bom. Não há passagens paralelas que contém um imperativo para a evangelização. Evangelização surge não de ordem e sim de Pentecostes. É uma dívida de gratidão e não de dever. Evangelismo não se define pelo “ide” e sim por “fazer discípulos”.

Carlos Cunha

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