Arquivo do mês: outubro 2012

Teologia pública: proposta e desafios

A teologia pública busca ser uma contribuição de comunidades religiosas nas sociedades democráticas plurais e da teologia acadêmica que sobre elas reflete, crítica e autocriticamente, para o debate público. É uma falácia pensar que a teologia pública visa estabelecer uma teocracia. Igualmente falacioso é achar também que a teologia pública busca uma secularização dos conceitos teológicos por dentro da política (teologia política).

Então o que busca? A teologia pública procura ser uma teologia separada do âmbito da política, sem ser alienada, num estado secular de direito, que reconhece plenamente a liberdade religiosa e no qual ela procura contribuir como parceira crítico-construtiva para o bem comum. Para isso, assume o seu caráter acadêmico, plural e interdisciplinar.

No Brasil, na década de 60, houve um esforço em dar um caráter público à teologia. O antropólogo Darcy Ribeiro foi pioneiro nesse intento. Embora fosse um agnóstico, ele queria criar um curso de Teologia dentro da universidade, mas seu intento foi frustrado pelo regime militar. É evidente que a compreensão que, nesse caso, ele tinha da teologia, se aproximava mais à de ciência da religião.

Estabelecer a distinção entre teologia e ciência das religiões é importante para uma compreensão da teologia pública. A teologia assume uma tradição religiosa específica e se permite, além da abordagem descritiva, também propor reflexões quanto à pertinência normativa do assunto em pauta. Já a ciência da religião é, por natureza, descritiva e deve ser comparativa, ou seja, ter em vista mais de uma religião.

Mesmo praticada cientificamente, como disciplina universitária, a teologia ainda está, em todo caso, ligada ao fenômeno “igreja”. Portanto, não é devido à especificidade dos seus métodos que a teologia se diferencia da ciência da religião e de outras ciências sociais, mas, por certo, através de sua função “social” e, com isso, através de sua realidade passível de descrição social. Com efeito, a teologia é um ato de tomada de consciência da igreja sobre si mesma. O aspecto especificamente teológico desse ato é, antes, sua função ligada à igreja.

No mundo anglo-saxão e, mais recentemente, na Alemanha, procura-se fazer uma ponte entre a teologia e a ciência da religião mediante a chamada “teologia comparativa” (comparative theology). No Brasil, ainda que a teologia seja identificada com determinada confissão religiosa, ela não se restringe a esta, mas procura construir pontes com outras confissões, religiões e ciências, bem como com a sociedade mais ampla. Percebe-se esta verdade na elaboração metodológica do tripé ver-julgar-agir da teologia da libertação e no seu intenso diálogo com as ciências sociais. Na atualidade, o fazer teológico no Brasil intensificou o seu diálogo com a ciência da religião.

É na interlocução entre as confissões, religiões e ciências que David Tracy legitima o lugar da teologia pública, atendendo, do seu modo específico, aos públicos da academia, da Igreja e da sociedade. O mesmo faz Jürgen Moltmann, ao tratar sobre os lugares da existência teológica – lugares intramundanos que alimentam o fazer teológico a partir da experiência na e com a vida.

Mas a busca por legitimidade da teologia no contexto brasileiro não é tão simples assim. Devido à lentidão histórica da teologia no Brasil, causada por retraimentos social, científico e político, a busca por cidadania acadêmica por parte da teologia esbarra em três carências constitutivas: primeira, a carência de legitimidade epistemológica dentro da comunidade científico-acadêmica. Por ser taxada como “coisa de igreja”, a teologia sofre de “suspeita ideológica”, como conhecimento ligado aos interesses políticos das Igrejas e, portanto, danoso para a sociedade plural e laica.

Segunda, a carência de legitimidade política, por ficar fora das polêmicas educacionais do ensino superior. A legalização tardia da teologia, em 1999, associada à falta de tradição acadêmica e à fragilidade epistemológica do escopo conceitual dos Pareceres 241/99 e 63/04, favorecem um status da teologia como subárea das ciências humanas.

Terceira, a carência de legitimidade cultural, provocada pelo confinamento da teologia à esfera eclesial. A teologia ainda se mostra como desconhecida da população de um modo geral e soa estranha como curso superior legalmente reconhecido, até mesmo em ambientes acadêmicos.

Apesar dessas carências, a presença acadêmica e social da teologia nas universidades e faculdades, a partir de seu reconhecimento legal, lançou-a, ainda que incipientemente, no espaço público e, portanto, numa zona ambígua, onde ela é vista como “coisa de igreja” em tensão com “coisa pública”. Esse desígnio, provavelmente insuperável pela própria natureza da teologia, tenderá a buscar caminhos de legitimação pública da teologia.

A título de exemplo, citaremos pelo menos quatro caminhos possíveis e necessários para a legitimação pública da teologia: 1) no âmbito acadêmico, em diálogo com outros campos do saber; 2) no âmbito político, em diálogo com as problemáticas educacionais; 3) no âmbito religioso, em diálogo com os vários sistemas religiosos, em busca de uma ética global e paz mundial; e, por fim, 4) no âmbito teológico, isto é, seu estatuto epistemológico enquanto saber científico no espaço público.

Carlos Cunha

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“Ora a teu Pai que está lá, no segredo”

Gosto muito do texto do Evangelho de Mateus: “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechando tua porta, ora a teu Pai que está lá, no segredo; e teu Pai, que vê no segredo, te recompensará” (6,6). O versículo citado faz parte do ensinamento de Jesus sobre o prazer da oração. Prefiro dizer “prazer” a “dever” da oração. O prazer carrega em si uma carga de sensação ou emoção agradável, ligada à satisfação de uma necessidade, do exercício harmonioso de uma oração desinteressada movida pela pura gratuidade. Já o dever aponta para a obrigação, evoca um contexto de algo a ser pago a alguém, uma obrigatoriedade.

É evidente que o ensinamento de Jesus é um convite a uma vida prazerosa de oração. Pena que algumas pessoas não entendem assim e fazem da oração um momento de falatório enfadonho e repetitivo. Eu penso que esse tipo de “oração” incomoda os ouvidos de Deus. É barulho aos ouvidos do Altíssimo. Lembrei-me de Rubem Alves na crônica “Sobre deuses e rezas”: “Ora, se a gente fica no falatório é porque não acredita nisso. Não acredito em oração em que a gente fala e Deus escuta. Acredito mesmo é na oração em que a gente fica quieto para ouvir a voz que se faz ouvir no meio do silêncio” (Teologia do Cotidiano, p.68).

Diferente de um falatório sem sentido, a oração que encontramos nos textos bíblicos é composta por simples ações de graças. A Bíblia narra momentos de orações intensas em que homens e mulheres estiveram diante de Deus com o coração aberto ao mover do Senhor. O místico Walter Hilton (séc. XIV) definiu corretamente a postura correta do sujeito que ora: “Não devemos imaginar que o propósito da oração seja o de dizer a Deus o que necessitamos, porque ele sabe muito bem quais são as nossas necessidades. Pelo contrário, o propósito da oração é o de nos tornar prontos e aptos para receber, como vasos limpos, a graça que nosso Senhor livremente nos dá”.

Somos uma geração que desaprendeu a orar. A espiritualidade contemporânea é nutrida por inquietações e uma busca louca e insana por experiências que nunca satisfazem a alma. Precisamos voltar ao manancial perene de águas que satisfazem a sede de coração. O pedido dos discípulos de Jesus é também o nosso pedido: “Senhor ensina-nos a orar” (Lc 11,1). Orar é entrar numa relação única com o Pai e experimentar o prazer de conhecer sua vontade e cumpri-la; é desprender-se da própria vontade e permitir que a vontade de Deus molde o nosso caráter; é submeter-se à vontade de Deus e se converter à sua vontade. Orar é sempre um segundo ato. Primeiro, ouvimos a Deus, depois, em um momento de quietude, oramos a Ele.

Carlos Cunha

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Teologia do Evangelho de Lucas

BIBLIOGRAFIA

AUNEAU, J. et al. Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1985. p.273-280. MARCONCINI, B. Os Evangelhos sinóticos: formação, redação, teologia. São Paulo: Paulinas, 2001. p.159-176. LIBANIO, J.B. Linguagens sobre Jesus: linguagens narrativa e exegética moderna.v.2. São Paulo: Paulus, 2012. p.103-122. CARSON, D.A. et al. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997. p.143-150.

INTRODUÇÃO

Devemos a Lucas uma boa parte das informações que temos sobre Jesus. Há registros únicos sobre a vida terrena de Jesus Cristo: A pesca milagrosa (5,1-11); unção de Jesus por uma pecadora (7,36-50); mulheres que ajudavam Jesus (8,1-3); a rejeição de Jesus por alguns samaritanos (9,51-56); a visita a Maria e Marta (10,38-42); o episódio de Zaqueu (19,1-10) e outros. Há também diversas parábolas exclusivamente nesse evangelho: O bom samaritano (10,25-37); figueira estéril (13,6-9); ovelha perdida, a moeda perdida e o filho perdido (15,1-32) e outras. Estes exemplos são alguns dos muitos textos oferecidos unicamente pelo evangelho segundo Lucas.

Mais do que uma preocupação histórica, Lucas situa a sua teologia a nível de um projeto apologético-missionário com dedicação pastoral subjacente que orienta a narrativa. Segundo François Bovon, esse projeto é possível devido a duas convicções de Lucas: “1. Os acontecimentos históricos não são, em si mesmos, eloquentes ou reveladores; 2. A revelação de Deus não é acessível por um contato direto da alma com a divindade. Deus completou sua obra – o que é obra da salvação – pela vocação especial de Jesus de Nazaré, vocação que se reveste de uma dimensão humana e histórica”.

O acesso à revelação implica um contato com o passado, com a história de Jesus, mas não se limita a este conhecimento. Lucas une história e teologia. A história revela o projeto unitário de Deus para salvar os seres humanos, iniciando no Primeiro Testamento com a promessa, realizando no “hoje” de Jesus de maneira definitiva, e prolongando-se com o dom do Espírito na comunidade primitiva e na Igreja de qualquer época.

A recordação por si só não garante a continuidade entre o tempo de Jesus e o tempo da Igreja. Pela frequência com que Lucas emprega as palavras como “hoje” (11 vezes) e “agora” (14 vezes), ele discretamente traz a lume a verdade de que, com a vinda de Jesus, a salvação tornou-se uma realidade presente.

Com a missão específica de tornar Jesus Cristo conhecido, Lucas funde temas de ordem teológica. Missão, parusia, história da salvação e indícios de uma pneumatologia embrionária compõem o Evangelho num movimento de convergência para o verdadeiro centro da teologia lucana: cristologia.

Jesus é o Salvador, não de um povo, mas de toda a humanidade. “Jesus […] filho de Adão, Filho de Deus” (3,38). A universalidade da salvação está presente em todo o evangelho, desde a infância de Jesus, feito “luz para iluminar as gentes” (2,32), ao prenúncio do Batista para quem “todo homem verá a salvação de Deus” (3,6).

“TEÓLOGO DA SALVAÇÃO”

Lucas é chamado de “teólogo da salvação”. Ele tem muito a dizer sobre a história da salvação (Heilsgeschichte). Relacionando salvação e os eventos históricos, Lucas traz à tona uma ideia nova sobre a teologia da salvação: a salvação divina manifestada na vida, morte, ressurreição e ascensão de Jesus perpetua na vida diária da Igreja. Deus se faz presente na vida humana agindo em tudo o que Jesus disse e fez (cf. 2,1-2; 3,1).

A libertação de toda a forma de mal, especialmente do pecado e da perdição eterna e uma relação de amizade e comunhão com Deus está presente na forma como Lucas utiliza o termo “salvar” (sozêin) usado 17 vezes no Evangelho e 13 vezes nos Atos dos Apóstolos. Outras variantes da palavra “salvar” aparecem em Lucas-Atos: “salvador” (sóter), 4 vezes, e “salvação” (sotería ou sotérion), 13 vezes. Tais citações revelam claramente a intenção do autor.

Para Lucas, Jesus é o “Senhor” (Kýrios) – termo verificado mais de 200 vezes – da história e, sobretudo, “o Salvador” (2,11). Jesus, portanto, está no centro da história, não em sentido cronológico pretendido pelo teólogo alemão H. Conzelmann que separava a história em três momentos: preparação (Primeiro Testamento), acontecimento (Jesus), realização (a Igreja). Há uma única história de salvação em contínuo estar presente de Jesus nas diferentes economias de Deus. Assim, para Lucas, a Igreja constitui o prolongamento da história da salvação.

MORAL CRISTÃ

Outro termo muito utilizado por Lucas é a palavra “conversão” (metanoia). O termo assume no Evangelho uma etapa indispensável para a vida cristã. Dependente da responsabilidade pessoal, a conversão é decisiva para àqueles que pretendem abandonar qualquer forma de idolatria para descobrir o Deus vivo e seu Filho.

A metanoia faz parte da moral do Evangelho de Lucas. Ela não contradiz a Lei, mas a radicaliza. A obediência efetua-se não só no modo de proceder imposto pela Lei (cf. imagem do jugo – At 15,10), mas na adequação correta do corpo e do coração. Ao longo dos diálogos, Jesus propõe no Evangelho uma organização moral da vida: ruptura dos elos familiares, renúncia dos bens materiais, aceitação do sofrimento, e todo este contexto numa atmosfera de alegria e partilha.

Lucas não oferece uma ética cristã. As flutuações morais decorrem das respostas dadas às interpelações de Jesus. Elas variam em seu aspecto exterior. “Lucas não mobiliza os cristãos, a fim de submetê-los a um regime militar, mas esta atitude tem sua unidade e coerência: acarreta uma transformação da pessoa, um compromisso no serviço de Deus, uma abertura ao outro e um novo olhar sobre a realidade” (MARCONCINI).

VIDA CRISTÃ

O Jesus de Lucas é apresentado plenamente inserido na nossa vida humana, com todas as características de um ser humano. Com menos força que Marcos e Mateus, Lucas sublinha que aquele menino tem os atributos divinos (2,22; 3,6; 2,11; 3,22). Por isso ele tem consciência do dever de ocupar-se com as coisas de seu Pai (2,49), senta-se no meio dos doutores, postura própria do mestre. Já o Batista é apenas profeta do Altíssimo (1,76) com a missão de preparar o povo (1,17).

Nesse processo de hominização, Lucas ressalta a oração como uma prática constante na vida de Jesus. Este ato manifesta a intimidade entre o Pai e o Filho. A palavra “oração” aparece cerca de 70 vezes no Evangelho e 40 nos Atos. A relação de oração entre Jesus e seu Pai é única e inspirativa.

Os cristãos constituem uma comunidade de oração da qual a ação de graças e a intercessão constituem as duas marcas principais. Interessante é que Lucas nunca diz que os cristãos recitam o Pai-nosso. A atividade da oração, nos Atos, não tem nada a ver com orações pré-estabelecidas no Evangelho. Lucas insiste na perseverança. Ao orar incessantemente, os fiéis não desfalecem durante o tempo da Igreja que pode durar muito.

Além disso, todo o Evangelho insiste nos verbos de movimento: andar, subir, vir etc. O Jesus de Lucas é um peregrino incansável. Ele faz grandes viagens. O itinerário geográfico oferecido por Lucas tem um valor teológico importante: é um convite para a Igreja retomar o seu dinamismo e o seu caminho visando à alegria da ressurreição depois de passar pela cruz.

VIDA COMUNITÁRIA

A perspectiva de Lucas não é eclesial, mas missionária. A evangelização e as primeiras conversões interessam-no mais do que a formação de comunidades. Lucas não elabora uma teoria do poder apostólico, nem uma doutrina de sucessão. Tampouco confere uma autoridade aos Doze e faz de Pedro o porta-voz. Quando uma decisão deve ser tomada, a inspiração do Espírito harmoniza a vontade da multidão e a dos responsáveis.

Mesmo sem ocultar as tensões partidárias da comunidade, Lucas valoriza a vida em comum de direito e dever sob o poder (dunamus) do Espírito Santo. Estas tensões oferecem elementos exortativos para o modo de ser Igreja:

  1. Na Igreja, poder é sinônimo de serviço (diaconia).
  2. Na Igreja, o interesse de todos sobrepõe ao interesse de poucos.
  3. Na Igreja, a persuasão e não a imposição é o método utilizado pela autoridade apostólica.

Dois ritos são citados por Lucas: o batismo e a ceia. Sem ser sacramentalista nem espiritualista, o Evangelho apresenta o batismo como um rito de purificação. O sinal cristão é a invocação do nome de Jesus que faz do crente propriedade do Senhor. Normalmente, o batismo é seguido de uma imposição de mãos que marca a vida nova em seus primórdios e a dádiva do Espírito Santo.

Já a Ceia é o memorial da Paixão do Senhor. “Em memória de…” (22,19). O relato da instituição, através da sentença sobre o cálice (to poterion), confere ao sacramento (ou ordenança) uma conotação escatológica (22,16.18).

AÇÃO DO ESPÍRITO SANTO

Lucas apela e faz intervir o Espírito Santo. A ascensão de Jesus permite ao Ressuscitado enviar seu Espírito sobre os apóstolos. A ação das primeiras comunidades acontece sob o guarda-chuva da ação do Espírito Santo. Lucas deixa transparecer, em Atos dos Apóstolos mais do que no Evangelho, que os Pentecostes são como forças propulsoras da ação cristã. Os três Pentecostes citados – judaico (At 2), samaritano (At 8.17) e gentílico (At 10.44) – conferem aos discípulos de Jesus a segurança da qual ainda não dispunham e a inspiração necessária à articulação do histórico com o evangélico.

O sinal maior da irrupção do divino no humano que fica transformado é a presença do Espírito que já atua em Jesus (1,35; 4,18; 10,21) e, em seguida, na Igreja, guiada, conforme os Atos dos Apóstolos, em cada passo seu (11,23).

PERSPECTIVA ESCATOLÓGICA

Diferente de Mateus e Marcos, Lucas tem outra ideia sobre a perspectiva escatológica. O fim dos tempos não está próximo, visto que a vinda de Jesus foi precedida por um longo período: “[…] não será logo o fim” (21,8-9); “eles pensavam que o Reino de Deus ia chegar logo” (19,11) etc.

Uma salvação atual, não postergada para um futuro impreciso, faz-se presente pela constante repetição do termo “hoje”, atestado 11 vezes no Evangelho e 9 nos Atos dos Apóstolos (cf. 2,11; 4,21; 19,9; 23,43; 9,23). O Reino de Deus já se faz presente, mas ainda não de forma plena, consumada.

Carlos Cunha

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Introdução ao Evangelho de Lucas: características gerais

BIBLIOGRAFIA

AUNEAU, J. et al. Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1985. p.201-207; 212-213; 269-272. KÜMMEL, Werner G. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1982. p.149-188. MARCONCINI, B. Os Evangelhos sinóticos: formação, redação, teologia. São Paulo: Paulinas, 2001. p.147-158. LIBANIO, J.B. Linguagens sobre Jesus: linguagens narrativa e exegética moderna.v.2. São Paulo: Paulus, 2012. p.103-122. Bíblia de estudo ALMEIDA. São Paulo: SBB, 1999.

INTRODUÇÃO

Ao longo da história poetas, pintores, sacerdotes e cristãos de um modo geral se inspiraram na riqueza de detalhes das narrativas que compõem o evangelho de Lucas. Dante Alighieri e Rembrandt van Rijn, por exemplo, poeta e pintor, brindaram a tradição cristã com as suas belas obras inspiradas nos relatos sugeridos por Lucas. Relatos como o do pai pródigo em amor (MARCONCINI), parábola do bom samaritano ou dos discípulos de Emaús foram e continuam sendo fontes de inspiração para mensagens cristãs por todo o mundo.

O tamanho da beleza e riqueza de detalhes do evangelho de Lucas é do tamanho das dificuldades que perfazem a composição do texto. São muitas as questões textuais suscitadas por Lucas-Atos. Não há um versículo sequer que não problematize alguma questão. A riqueza de detalhes suscita variações textuais que desconcertam exegetas habilitados.

Não há como negar, o evangelho de Lucas é original. Dentre os Sinóticos, Lucas apresenta aproximadamente 500 versículos próprios (Sondergut). Enquanto Marcos e Mateus se concentram basicamente na vida de Jesus, Lucas divide seu trabalho em dois volumes: o Evangelho e os Atos. Lucas-Atos trata sobre o tempo de Jesus e os primórdios da Igreja.

Em nenhum manuscrito conhecido encontramos os Atos dos Apóstolos logo depois do evangelho de Lucas. Sabe-se que para compor um primeiro compêndio canônico, no século II, o evangelho de Lucas foi separado dos Atos e anexado aos três outros evangelhos para construir um primeiro corpus. Se por um lado essa medida auxiliou a leitura sinótica, por outro, criou uma descontinuidade literária pretendida por Lucas-Atos.

Lucas dirigi-se aos cristãos, mas pensa também nos leitores profanos. O seu evangelho tem um enfoque universal. Mesmo ajustando-se aos esquemas de Mateus e de Marcos, o texto de Lucas tem um caráter missionário e apologético, é muito próximo das obras apologéticas dos Pais da Igreja do século II. Graças ao domínio do idioma e da riqueza do vocabulário, Lucas pôde polir o seu texto com especial esmero.

A Bíblia de Estudo Almeida sugere o seguinte esboço.

Prólogo (1,1-4)

  1. Infância de João Batista e Jesus (1,5-2,52)
    1. Os anúncios do anjo (1,5-38)
    2. Nascimento de João e de Jesus (1,39-2,20)
    3. Infância de Jesus (2,21-52)
  2. Preparação do ministério de Jesus (3,1-4,13)
  3. Ministério de Jesus na Galileia (4,14-9,50)
    1. Atividades de Jesus (4,14-7,17)
    2. Jesus e João Batista (7,18-35)
    3. Atividades e ensinamentos (7,36-9,17)
    4. Jesus, o Cristo de Deus (9,18-50)
  4. A viagem a Jerusalém (9,51-19,27)
  5. Ministério de Jesus em Jerusalém (19,28-21,38)
  6. Semana da paixão (22,1-24,12)
    1. A véspera da crucificação (22,1-22,62)
    2. Paixão, morte e ressurreição (22,63-24,12)
  7. Jesus ressuscitado (24,13-53)

A maneira como Lucas entrelaça os assuntos permite verificar a riqueza de detalhes textuais com o objetivo de criar “uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram” (1,1).

AUTORIA

Como nos Sinóticos, a dificuldade de extrair a autoria do evangelho do emaranhado da tradição redacional permanece. Com base na composição de Lucas-Atos, François Bovon sugere que o autor do evangelho de Lucas é um “homem da segunda ou terceira geração, de língua grega materna, cristão de orientação paulina, mais preocupado com o aspecto missionário da Igreja do que com a sua organização; bom conhecedor do Primeiro Testamento, porém leitor mais assíduo das profecias e dos Salmos do que da Lei; gentio-cristão que, na escola dos primeiros teólogos cristãos, dedicou-se à exegese cristológica das Escrituras; homem de origem social abastada e culta; simultaneamente desejoso de facilitar a conversão das pessoas de seu meio e de não lhes esconder as renúncias que a fé impõe; pouco a par da geografia da Palestina e dos usos judaicos, mas bem à vontade na bacia do mar Egeu”.

Todos esses elementos não nos permitem considerar o autor como uma testemunha ocular e um companheiro imediato de Paulo. Contrapondo à tradição conservadora que, desde o século II apresenta Lucas como médico e companheiro de Paulo (Cl 4,14; 2Tm 4,11), como autor da obra a Teófilo, a história da tradição e o resultado da composição impedem situar o autor como parte integrante do grupo de Paulo. Assim a utilização do “nós” em Atos dos Apóstolos (16,10-17; 20,5-15; 21,1-18; 27,1-28,16), provém de uma prática literária confirmada na época, fim do século II, em que a Igreja devia encontrar uma origem apostólica direta ou indireta para os diversos escritos que ela desejava tornar canônicos.

Já a perspectiva conservadora, atribui o evangelho a Lucas, um dos 72 discípulos (Lc 10,1) e, portanto, testemunha direta do que Jesus “fez e ensinou” (At 1,1); identificado com o discípulo de Emaús cujo nome não é mencionado (Lc 24,13-14.18), ou com Lúcio da Carta aos Romanos (16,21) ou dos Atos dos Apóstolos (13,1); considerado celibatário e acredita-se que tenha vivido até os oitenta anos de idade ou então que tenha sido submetido ao martírio quando tinha um pouco menos de idade.

Fundamentado na tradição dos Pais, a autoria conservadora se apoia em Irineu, Orígenes, Eusébio de Cesareia e Jerônimo que fazem de Lucas o companheiro fiel do apóstolo Paulo, segundo Fm 24 e Cl 4,14. E mais, para fortalecer essa colaboração Lucas-Paulo citam as chamadas “seções-nós” dos Atos dos Apóstolos (16,10-17; 20,5-15; 21,1-18; 27,1-28,16), em que Lucas aparece presente nos fatos narrados, como fonte primária.

Para amenizar as divergências literárias e teológicas existentes entre as cartas paulinas e a obra de Lucas e as chamadas “seções-nós” como uma ficção literária e não uma prova histórica, exegetas conservadores dizem que tais discrepâncias são oriundas de enfoques distintos: Paulo personaliza muitos os fatos e Lucas enquadra as histórias em uma estrutura de tipo fundamentalmente teológico.

Enfim, o  que a tradição da Igreja bem captou e exprimiu a seu modo, modo narrativo próximo do estilo do evangelista, é que o autor de Lucas-Atos se inscreve na trilha de Paulo e que desenvolve uma atividade missionária mais do que pastoral.

LINGUAGEM

A linguagem de Lucas é a do relato. Ela fica a poucos passos da prosa clássica (Séculos V e VI a.C.) e do grego moderno. Lucas redige em uma linguagem literária, mas só o faz excepcionalmente. O prólogo de seu evangelho (1,1-4) representa uma das raras passagens elaboradas de sua obra; as palavras são escolhidas e possuem cadência. Outro caso é o discurso de Paulo em Atenas; redigido por Lucas, mostra ao leitor que o cristianismo consegue dialogar com a cultura grega em seu mais alto nível.

Lucas é o mais grego dos autores do Segundo Testamento. Maneja com elegância a língua comum falada; preocupa-se em ser compreendido pelos ouvintes pouco afeitos às tradições judaicas. Na maior parte das vezes, com simplicidade, Lucas narra os acontecimentos evitando o que pudesse vir a ser trivial ou chocante para o leitor. A preocupação social do evangelista manifesta-se, pois, no uso do grego popular.

Há na linguagem lucana certo pudor. Lucas evita colocar nos lábios de Jesus expressões vulgares ou expressões familiares (cf. 18,25; 21,14; 22,46.53) como no texto de Marcos. Lucas suprime palavras como sperma (20,29 cf. Mc 12,20), porneia (luxúria), ao invés de citar “uma prostituta”, prefere “uma mulher pecadora da cidade” (7,37). O preço dessa correção é uma perda de ingenuidade, de espontaneidade, de cor local.

A impostação de Lucas, como filho da cultura helenista, difere da de outros evangelistas. Ele desloca a linguagem do mundo palestino para o helenístico, a fim de falar ao cristão vindo da gentilidade. A sua sintaxe é mais requintada e a sua prosa é mais monótona do que as dos outros evangelistas.

DATAÇÃO

Ignora-se em que lugar e em que tempo foi redigido o evangelho. Há hipóteses que apontam para Corinto, Éfeso e Roma como lugares prováveis de redação e datas que vão desde o ano 60 até 95.

Dentre as muitas possibilidades, há um número considerável de estudiosos que pensam que o evangelho de Lucas foi redigido por volta do ano 80 em uma cidade helenista, mais provavelmente da Grécia, sem que, contudo, se possa excluir a Alexandria ou mesmo a Cesaréia. Inaceitáveis são tanto a data antiga (antes dos anos 70), com base no final dos Atos dos Apóstolos, como a tardia (por volta do ano 95).

DESTINATÁRIO

Com a dedicatória ao excelentíssimo (Almeida, RA) ou ilustre (Jerusalém) Teófilo (crátistos Theóphilos),  o destinatário é considerado como “representante de um amplo círculo de leitores, ou seja, possivelmente, de todos os cristãos”. Na realidade, o termo “crátistos” pode ser tanto o título de um alto funcionário do governo como simplesmente uma forma polida de tratamento.

Os enfoques temáticos e a teologia de Lucas apontam para uma “comunidade que atenua fortemente a expectativa escatológica e corre o risco de uma volta à vida pagã. Ela parece cansada de viver a vontade de Deus no dia-a-dia. A santidade é o ideal, a frouxidão e também o pecado, de forma crescente, são o normal. No afã de aproximar-se do homem do tempo, há a necessidade de não se afastar da fidelidade a Cristo e da autêntica tradição e de entender o valor do tempo que a separa da vinda de Jesus, considerada não iminente” (MARCONCINI).

Parece ser uma comunidade carente de conversão. A palavra “metanóia”, conversão, aparece 14 vezes no evangelho e 11 nos Atos dos Apóstolos, ao passo que em Marcos, por exemplo, aparece apenas 3 vezes. Tal fato diz respeito ao preocupante e progressivo enfraquecimento da fé, como resulta na pergunta emblemática do episódio da viúva que pede com insistência a justiça ao juiz desonesto: “O Filho do Homem, quando vier, será que vai encontrar a fé sobre a terra?” (18,8).

Além disso, o evangelho realça temas que apontam para uma igreja em dificuldades diante da apostasia: a) Enfraquecimento pela procura do reino (16,8); b) Comportamento mundano (11,24-26); c) Pouco senso de responsabilidade dos líderes da comunidade (12,48).

ESTRUTURA LITERÁRIA

A estrutura literária lucana se inscreve a partir dos seguintes elementos:

  • Projeto literário

Lucas é o único evangelista a formular seu projeto literário. O prólogo que redige chama a atenção sobre os esforços de seus predecessores: “Visto que muitos já tentaram compor uma narração…” (v.1a)e daí as fontes utilizadas; indica o tema do trabalho “dos fatos que se cumpriram entre nós” (v.1b) e a maneira como o autor escreveu. Após uma pesquisa exaustiva e meticulosa, redigiu uma obra bem elaborada “a mim também pareceu conveniente, após acurada investigação de tudo desde o princípio, escrever-te de modo ordenado” (v.3). Dedicado a Teófilo, a obra destina-se a um grande público (v.4).

  • Intenção literária

O prólogo revela uma intenção literária: procurar transpor estas tradições e estas fontes para um nível literário. A questão do Sitz im leben da obra inteira, ou ambiente no qual ela nasceu, apresenta-se diferente daquele que serviu para o Evangelho de Marcos, por exemplo, ou para pequenas unidades isoladas; sim, porque a obra não é o produto de uma comunidade, mas o resultado de um trabalho pessoal.

  • Intenção missionária e apologética

Sua intenção, entretanto, conforme o prólogo demonstra, não é unicamente histórica: é também missionária e apologética. Quer demonstrar a respeitabilidade do “caminho”, isto é, da mensagem cristã e da Igreja; ilustrar o vigor da missão, assinalando seus sucessos; manifestar o apoio que Deus dispensou a Jesus e depois às testemunhas; e, mais ainda, proclamar que a vida de Jesus realiza as promessas da Escritura, revela a afeição de Deus pelo povo e pelas nações desgarradas, oferece uma ocasião de voltarem-se para o Deus vivo.

  • Fontes utilizadas

Tem ele à sua disposição o evangelho de Marcos, a coleção dos logia (Q), sua característica, alguns ciclos sobre a comunidade de Jerusalém, os helenistas, a conversão e as missões de Paulo, algumas informações isoladas, traçados de itinerários etc.

  • Lucas como testemunha

Se o estilo do prólogo inscreve Lucas na linhagem dos historiadores, a matéria e o modo de comunicação põe em evidência outra ordem: a do testemunho. Neste ponto, o evangelista aproxima-se dos historiadores judeus que extraem certas regras da historiografia grega para evocar o sustento que Deus trouxe a teu povo.

  • Testemunha “tardia”

Como seus predecessores, Lucas não teve acesso direto aos acontecimentos. Conhece-os por intermédio daqueles que são ao mesmo tempo testemunhas oculares e servos da palavra. Situa-se assim na segunda, talvez mesmo na terceira geração do cristianismo.

  • Itinerário

Lucas apoia-se num esquema: revelação em Cristo. Em seguida, marcando melhor os três tempos da vida de Jesus, herdados de Marcos (Galileia, viagem, Jerusalém). Fazendo uma seleção do material sobre os apóstolos e, por fim, organizando-os.

  • Pudor judaico

Lucas não é polêmico. Sabe que a Igreja não é poupada das tensões, mas não fustiga nenhuma heresia especial. Sua apresentação da Igreja de Jerusalém prova que ele se retrai a respeito do judeu-cristianismo da Cidade Santa. Sua discrição a respeito de João que coloca na sombra de Pedro, indica que ele não dá seu aval às convencionices joaninas. Sua fidelidade ao Primeiro Testamento insinua a desconfiança que nutre dos paulinismos excessivos que superestimam a novidade do cristianismo e criticam exageradamente a Lei de Moisés. Mas, como Paulo, Lucas tem sempre em mente o judaísmo. Reivindica, sem cessar, para sua Igreja, a herança de Israel, e insiste em mostrar que a oposição ao cristianismo tem sua origem na dureza de coração das congregações judaicas e de seus chefes.

  • Riqueza literária

Lucas tem sido equiparado ao lado dos grandes escritores de seu tempo, como Flávio Josefo e Políbio. Impressiona que na obra se alternem páginas pitorescas e vivazes com narrações áridas ou esquemáticas, momentos de envolvente poesia que desperta fortes emoções religiosas e expressões pobres. A razão não está na sua inconstância e volubilidade, e sim no fato de que Lucas não é alguém que cria, mas um transmissor fiel de uma tradição na qual ele soube intervir com sabedoria, respeito e espírito de artista.

  • Referências históricas

Chama atenção a referência a personagens conhecidos contemporâneos dos fatos narrados: Augusto, Tibério, Pôncio Pilatos, Filipe, os sumos sacerdotes Anás e Caifás. Igualmente curioso é o fato de Lucas transmitir diversas datas: ano quinze do império de Tibério César (3,1); “Jesus tinha cerca de trinta anos…”, informações bibliográficas (8,3), e os Atos dos Apóstolos oferecem dados ainda mais abundantes. O objetivo de Lucas é duplo: garantir a continuidade e a fidelidade da tradição.

  • Justiça social

Lucas, mais do que Marcos e Mateus, narra Jesus expressando o amor de Deus pelos desprezados deste mundo, tanto com atitudes, como com a sua mensagem. Vemos expressa a sua simpatia pelos: pecadores (5,1ss; 7,36ss; 15,1ss etc.); samaritanos (10,30ss; 17,11ss); mulheres (7,12.15; 8,2s; 10,38ss etc.). Isso expressa também a rejeição dos ricos (12,15ss; 16,19ss); a advertência a respeito da manonas tês adikías (16,9.11). Lucas acentua mais fortemente a influência exercida sobre Jesus pela “piedade feita de pobreza” (BOVON).

Carlos Cunha

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