Introdução ao Evangelho de Lucas: características gerais

BIBLIOGRAFIA

AUNEAU, J. et al. Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1985. p.201-207; 212-213; 269-272. KÜMMEL, Werner G. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1982. p.149-188. MARCONCINI, B. Os Evangelhos sinóticos: formação, redação, teologia. São Paulo: Paulinas, 2001. p.147-158. LIBANIO, J.B. Linguagens sobre Jesus: linguagens narrativa e exegética moderna.v.2. São Paulo: Paulus, 2012. p.103-122. Bíblia de estudo ALMEIDA. São Paulo: SBB, 1999.

INTRODUÇÃO

Ao longo da história poetas, pintores, sacerdotes e cristãos de um modo geral se inspiraram na riqueza de detalhes das narrativas que compõem o evangelho de Lucas. Dante Alighieri e Rembrandt van Rijn, por exemplo, poeta e pintor, brindaram a tradição cristã com as suas belas obras inspiradas nos relatos sugeridos por Lucas. Relatos como o do pai pródigo em amor (MARCONCINI), parábola do bom samaritano ou dos discípulos de Emaús foram e continuam sendo fontes de inspiração para mensagens cristãs por todo o mundo.

O tamanho da beleza e riqueza de detalhes do evangelho de Lucas é do tamanho das dificuldades que perfazem a composição do texto. São muitas as questões textuais suscitadas por Lucas-Atos. Não há um versículo sequer que não problematize alguma questão. A riqueza de detalhes suscita variações textuais que desconcertam exegetas habilitados.

Não há como negar, o evangelho de Lucas é original. Dentre os Sinóticos, Lucas apresenta aproximadamente 500 versículos próprios (Sondergut). Enquanto Marcos e Mateus se concentram basicamente na vida de Jesus, Lucas divide seu trabalho em dois volumes: o Evangelho e os Atos. Lucas-Atos trata sobre o tempo de Jesus e os primórdios da Igreja.

Em nenhum manuscrito conhecido encontramos os Atos dos Apóstolos logo depois do evangelho de Lucas. Sabe-se que para compor um primeiro compêndio canônico, no século II, o evangelho de Lucas foi separado dos Atos e anexado aos três outros evangelhos para construir um primeiro corpus. Se por um lado essa medida auxiliou a leitura sinótica, por outro, criou uma descontinuidade literária pretendida por Lucas-Atos.

Lucas dirigi-se aos cristãos, mas pensa também nos leitores profanos. O seu evangelho tem um enfoque universal. Mesmo ajustando-se aos esquemas de Mateus e de Marcos, o texto de Lucas tem um caráter missionário e apologético, é muito próximo das obras apologéticas dos Pais da Igreja do século II. Graças ao domínio do idioma e da riqueza do vocabulário, Lucas pôde polir o seu texto com especial esmero.

A Bíblia de Estudo Almeida sugere o seguinte esboço.

Prólogo (1,1-4)

  1. Infância de João Batista e Jesus (1,5-2,52)
    1. Os anúncios do anjo (1,5-38)
    2. Nascimento de João e de Jesus (1,39-2,20)
    3. Infância de Jesus (2,21-52)
  2. Preparação do ministério de Jesus (3,1-4,13)
  3. Ministério de Jesus na Galileia (4,14-9,50)
    1. Atividades de Jesus (4,14-7,17)
    2. Jesus e João Batista (7,18-35)
    3. Atividades e ensinamentos (7,36-9,17)
    4. Jesus, o Cristo de Deus (9,18-50)
  4. A viagem a Jerusalém (9,51-19,27)
  5. Ministério de Jesus em Jerusalém (19,28-21,38)
  6. Semana da paixão (22,1-24,12)
    1. A véspera da crucificação (22,1-22,62)
    2. Paixão, morte e ressurreição (22,63-24,12)
  7. Jesus ressuscitado (24,13-53)

A maneira como Lucas entrelaça os assuntos permite verificar a riqueza de detalhes textuais com o objetivo de criar “uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram” (1,1).

AUTORIA

Como nos Sinóticos, a dificuldade de extrair a autoria do evangelho do emaranhado da tradição redacional permanece. Com base na composição de Lucas-Atos, François Bovon sugere que o autor do evangelho de Lucas é um “homem da segunda ou terceira geração, de língua grega materna, cristão de orientação paulina, mais preocupado com o aspecto missionário da Igreja do que com a sua organização; bom conhecedor do Primeiro Testamento, porém leitor mais assíduo das profecias e dos Salmos do que da Lei; gentio-cristão que, na escola dos primeiros teólogos cristãos, dedicou-se à exegese cristológica das Escrituras; homem de origem social abastada e culta; simultaneamente desejoso de facilitar a conversão das pessoas de seu meio e de não lhes esconder as renúncias que a fé impõe; pouco a par da geografia da Palestina e dos usos judaicos, mas bem à vontade na bacia do mar Egeu”.

Todos esses elementos não nos permitem considerar o autor como uma testemunha ocular e um companheiro imediato de Paulo. Contrapondo à tradição conservadora que, desde o século II apresenta Lucas como médico e companheiro de Paulo (Cl 4,14; 2Tm 4,11), como autor da obra a Teófilo, a história da tradição e o resultado da composição impedem situar o autor como parte integrante do grupo de Paulo. Assim a utilização do “nós” em Atos dos Apóstolos (16,10-17; 20,5-15; 21,1-18; 27,1-28,16), provém de uma prática literária confirmada na época, fim do século II, em que a Igreja devia encontrar uma origem apostólica direta ou indireta para os diversos escritos que ela desejava tornar canônicos.

Já a perspectiva conservadora, atribui o evangelho a Lucas, um dos 72 discípulos (Lc 10,1) e, portanto, testemunha direta do que Jesus “fez e ensinou” (At 1,1); identificado com o discípulo de Emaús cujo nome não é mencionado (Lc 24,13-14.18), ou com Lúcio da Carta aos Romanos (16,21) ou dos Atos dos Apóstolos (13,1); considerado celibatário e acredita-se que tenha vivido até os oitenta anos de idade ou então que tenha sido submetido ao martírio quando tinha um pouco menos de idade.

Fundamentado na tradição dos Pais, a autoria conservadora se apoia em Irineu, Orígenes, Eusébio de Cesareia e Jerônimo que fazem de Lucas o companheiro fiel do apóstolo Paulo, segundo Fm 24 e Cl 4,14. E mais, para fortalecer essa colaboração Lucas-Paulo citam as chamadas “seções-nós” dos Atos dos Apóstolos (16,10-17; 20,5-15; 21,1-18; 27,1-28,16), em que Lucas aparece presente nos fatos narrados, como fonte primária.

Para amenizar as divergências literárias e teológicas existentes entre as cartas paulinas e a obra de Lucas e as chamadas “seções-nós” como uma ficção literária e não uma prova histórica, exegetas conservadores dizem que tais discrepâncias são oriundas de enfoques distintos: Paulo personaliza muitos os fatos e Lucas enquadra as histórias em uma estrutura de tipo fundamentalmente teológico.

Enfim, o  que a tradição da Igreja bem captou e exprimiu a seu modo, modo narrativo próximo do estilo do evangelista, é que o autor de Lucas-Atos se inscreve na trilha de Paulo e que desenvolve uma atividade missionária mais do que pastoral.

LINGUAGEM

A linguagem de Lucas é a do relato. Ela fica a poucos passos da prosa clássica (Séculos V e VI a.C.) e do grego moderno. Lucas redige em uma linguagem literária, mas só o faz excepcionalmente. O prólogo de seu evangelho (1,1-4) representa uma das raras passagens elaboradas de sua obra; as palavras são escolhidas e possuem cadência. Outro caso é o discurso de Paulo em Atenas; redigido por Lucas, mostra ao leitor que o cristianismo consegue dialogar com a cultura grega em seu mais alto nível.

Lucas é o mais grego dos autores do Segundo Testamento. Maneja com elegância a língua comum falada; preocupa-se em ser compreendido pelos ouvintes pouco afeitos às tradições judaicas. Na maior parte das vezes, com simplicidade, Lucas narra os acontecimentos evitando o que pudesse vir a ser trivial ou chocante para o leitor. A preocupação social do evangelista manifesta-se, pois, no uso do grego popular.

Há na linguagem lucana certo pudor. Lucas evita colocar nos lábios de Jesus expressões vulgares ou expressões familiares (cf. 18,25; 21,14; 22,46.53) como no texto de Marcos. Lucas suprime palavras como sperma (20,29 cf. Mc 12,20), porneia (luxúria), ao invés de citar “uma prostituta”, prefere “uma mulher pecadora da cidade” (7,37). O preço dessa correção é uma perda de ingenuidade, de espontaneidade, de cor local.

A impostação de Lucas, como filho da cultura helenista, difere da de outros evangelistas. Ele desloca a linguagem do mundo palestino para o helenístico, a fim de falar ao cristão vindo da gentilidade. A sua sintaxe é mais requintada e a sua prosa é mais monótona do que as dos outros evangelistas.

DATAÇÃO

Ignora-se em que lugar e em que tempo foi redigido o evangelho. Há hipóteses que apontam para Corinto, Éfeso e Roma como lugares prováveis de redação e datas que vão desde o ano 60 até 95.

Dentre as muitas possibilidades, há um número considerável de estudiosos que pensam que o evangelho de Lucas foi redigido por volta do ano 80 em uma cidade helenista, mais provavelmente da Grécia, sem que, contudo, se possa excluir a Alexandria ou mesmo a Cesaréia. Inaceitáveis são tanto a data antiga (antes dos anos 70), com base no final dos Atos dos Apóstolos, como a tardia (por volta do ano 95).

DESTINATÁRIO

Com a dedicatória ao excelentíssimo (Almeida, RA) ou ilustre (Jerusalém) Teófilo (crátistos Theóphilos),  o destinatário é considerado como “representante de um amplo círculo de leitores, ou seja, possivelmente, de todos os cristãos”. Na realidade, o termo “crátistos” pode ser tanto o título de um alto funcionário do governo como simplesmente uma forma polida de tratamento.

Os enfoques temáticos e a teologia de Lucas apontam para uma “comunidade que atenua fortemente a expectativa escatológica e corre o risco de uma volta à vida pagã. Ela parece cansada de viver a vontade de Deus no dia-a-dia. A santidade é o ideal, a frouxidão e também o pecado, de forma crescente, são o normal. No afã de aproximar-se do homem do tempo, há a necessidade de não se afastar da fidelidade a Cristo e da autêntica tradição e de entender o valor do tempo que a separa da vinda de Jesus, considerada não iminente” (MARCONCINI).

Parece ser uma comunidade carente de conversão. A palavra “metanóia”, conversão, aparece 14 vezes no evangelho e 11 nos Atos dos Apóstolos, ao passo que em Marcos, por exemplo, aparece apenas 3 vezes. Tal fato diz respeito ao preocupante e progressivo enfraquecimento da fé, como resulta na pergunta emblemática do episódio da viúva que pede com insistência a justiça ao juiz desonesto: “O Filho do Homem, quando vier, será que vai encontrar a fé sobre a terra?” (18,8).

Além disso, o evangelho realça temas que apontam para uma igreja em dificuldades diante da apostasia: a) Enfraquecimento pela procura do reino (16,8); b) Comportamento mundano (11,24-26); c) Pouco senso de responsabilidade dos líderes da comunidade (12,48).

ESTRUTURA LITERÁRIA

A estrutura literária lucana se inscreve a partir dos seguintes elementos:

  • Projeto literário

Lucas é o único evangelista a formular seu projeto literário. O prólogo que redige chama a atenção sobre os esforços de seus predecessores: “Visto que muitos já tentaram compor uma narração…” (v.1a)e daí as fontes utilizadas; indica o tema do trabalho “dos fatos que se cumpriram entre nós” (v.1b) e a maneira como o autor escreveu. Após uma pesquisa exaustiva e meticulosa, redigiu uma obra bem elaborada “a mim também pareceu conveniente, após acurada investigação de tudo desde o princípio, escrever-te de modo ordenado” (v.3). Dedicado a Teófilo, a obra destina-se a um grande público (v.4).

  • Intenção literária

O prólogo revela uma intenção literária: procurar transpor estas tradições e estas fontes para um nível literário. A questão do Sitz im leben da obra inteira, ou ambiente no qual ela nasceu, apresenta-se diferente daquele que serviu para o Evangelho de Marcos, por exemplo, ou para pequenas unidades isoladas; sim, porque a obra não é o produto de uma comunidade, mas o resultado de um trabalho pessoal.

  • Intenção missionária e apologética

Sua intenção, entretanto, conforme o prólogo demonstra, não é unicamente histórica: é também missionária e apologética. Quer demonstrar a respeitabilidade do “caminho”, isto é, da mensagem cristã e da Igreja; ilustrar o vigor da missão, assinalando seus sucessos; manifestar o apoio que Deus dispensou a Jesus e depois às testemunhas; e, mais ainda, proclamar que a vida de Jesus realiza as promessas da Escritura, revela a afeição de Deus pelo povo e pelas nações desgarradas, oferece uma ocasião de voltarem-se para o Deus vivo.

  • Fontes utilizadas

Tem ele à sua disposição o evangelho de Marcos, a coleção dos logia (Q), sua característica, alguns ciclos sobre a comunidade de Jerusalém, os helenistas, a conversão e as missões de Paulo, algumas informações isoladas, traçados de itinerários etc.

  • Lucas como testemunha

Se o estilo do prólogo inscreve Lucas na linhagem dos historiadores, a matéria e o modo de comunicação põe em evidência outra ordem: a do testemunho. Neste ponto, o evangelista aproxima-se dos historiadores judeus que extraem certas regras da historiografia grega para evocar o sustento que Deus trouxe a teu povo.

  • Testemunha “tardia”

Como seus predecessores, Lucas não teve acesso direto aos acontecimentos. Conhece-os por intermédio daqueles que são ao mesmo tempo testemunhas oculares e servos da palavra. Situa-se assim na segunda, talvez mesmo na terceira geração do cristianismo.

  • Itinerário

Lucas apoia-se num esquema: revelação em Cristo. Em seguida, marcando melhor os três tempos da vida de Jesus, herdados de Marcos (Galileia, viagem, Jerusalém). Fazendo uma seleção do material sobre os apóstolos e, por fim, organizando-os.

  • Pudor judaico

Lucas não é polêmico. Sabe que a Igreja não é poupada das tensões, mas não fustiga nenhuma heresia especial. Sua apresentação da Igreja de Jerusalém prova que ele se retrai a respeito do judeu-cristianismo da Cidade Santa. Sua discrição a respeito de João que coloca na sombra de Pedro, indica que ele não dá seu aval às convencionices joaninas. Sua fidelidade ao Primeiro Testamento insinua a desconfiança que nutre dos paulinismos excessivos que superestimam a novidade do cristianismo e criticam exageradamente a Lei de Moisés. Mas, como Paulo, Lucas tem sempre em mente o judaísmo. Reivindica, sem cessar, para sua Igreja, a herança de Israel, e insiste em mostrar que a oposição ao cristianismo tem sua origem na dureza de coração das congregações judaicas e de seus chefes.

  • Riqueza literária

Lucas tem sido equiparado ao lado dos grandes escritores de seu tempo, como Flávio Josefo e Políbio. Impressiona que na obra se alternem páginas pitorescas e vivazes com narrações áridas ou esquemáticas, momentos de envolvente poesia que desperta fortes emoções religiosas e expressões pobres. A razão não está na sua inconstância e volubilidade, e sim no fato de que Lucas não é alguém que cria, mas um transmissor fiel de uma tradição na qual ele soube intervir com sabedoria, respeito e espírito de artista.

  • Referências históricas

Chama atenção a referência a personagens conhecidos contemporâneos dos fatos narrados: Augusto, Tibério, Pôncio Pilatos, Filipe, os sumos sacerdotes Anás e Caifás. Igualmente curioso é o fato de Lucas transmitir diversas datas: ano quinze do império de Tibério César (3,1); “Jesus tinha cerca de trinta anos…”, informações bibliográficas (8,3), e os Atos dos Apóstolos oferecem dados ainda mais abundantes. O objetivo de Lucas é duplo: garantir a continuidade e a fidelidade da tradição.

  • Justiça social

Lucas, mais do que Marcos e Mateus, narra Jesus expressando o amor de Deus pelos desprezados deste mundo, tanto com atitudes, como com a sua mensagem. Vemos expressa a sua simpatia pelos: pecadores (5,1ss; 7,36ss; 15,1ss etc.); samaritanos (10,30ss; 17,11ss); mulheres (7,12.15; 8,2s; 10,38ss etc.). Isso expressa também a rejeição dos ricos (12,15ss; 16,19ss); a advertência a respeito da manonas tês adikías (16,9.11). Lucas acentua mais fortemente a influência exercida sobre Jesus pela “piedade feita de pobreza” (BOVON).

Carlos Cunha

4 Comentários

Arquivado em Estudos bíblicos

4 Respostas para “Introdução ao Evangelho de Lucas: características gerais

  1. Rosana Beatris Salai

    qual o ano que foi escrito o Evangenho segundo Lucas ?

    • Oi, Rosana.
      Há muitas hipóteses sobre a datação do Evangelho de Lucas. Datas que vão do ano 65 até o ano 95. Dentre as muitas possibilidades, a mais aceita entre os biblistas é a data por volta do ano 80. Veja no blog o assunto no estudo bíblico “Introdução ao Evangelho de Lucas”.
      Abraço,
      Carlos.

      • Izaias Silva da Rocha

        Concordo com o Professor Carlos Cunha, vi que esta data é mais provável entre os estudiosos do Livro de Lucas.

  2. Izaias Silva da Rocha

    Apesar de alguns questionamentos sobre o Livro de Lucas, gostei da sua forma Literária, de seu estilo, sua direção, e de sua Historia. Lucas enfatiza a preocupação de Jesus não somente com a pobreza, mas também com a Salvação, e a permanência do Evangelho na vida das pessoas.

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