Teologia do Evangelho de Lucas

BIBLIOGRAFIA

AUNEAU, J. et al. Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1985. p.273-280. MARCONCINI, B. Os Evangelhos sinóticos: formação, redação, teologia. São Paulo: Paulinas, 2001. p.159-176. LIBANIO, J.B. Linguagens sobre Jesus: linguagens narrativa e exegética moderna.v.2. São Paulo: Paulus, 2012. p.103-122. CARSON, D.A. et al. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997. p.143-150.

INTRODUÇÃO

Devemos a Lucas uma boa parte das informações que temos sobre Jesus. Há registros únicos sobre a vida terrena de Jesus Cristo: A pesca milagrosa (5,1-11); unção de Jesus por uma pecadora (7,36-50); mulheres que ajudavam Jesus (8,1-3); a rejeição de Jesus por alguns samaritanos (9,51-56); a visita a Maria e Marta (10,38-42); o episódio de Zaqueu (19,1-10) e outros. Há também diversas parábolas exclusivamente nesse evangelho: O bom samaritano (10,25-37); figueira estéril (13,6-9); ovelha perdida, a moeda perdida e o filho perdido (15,1-32) e outras. Estes exemplos são alguns dos muitos textos oferecidos unicamente pelo evangelho segundo Lucas.

Mais do que uma preocupação histórica, Lucas situa a sua teologia a nível de um projeto apologético-missionário com dedicação pastoral subjacente que orienta a narrativa. Segundo François Bovon, esse projeto é possível devido a duas convicções de Lucas: “1. Os acontecimentos históricos não são, em si mesmos, eloquentes ou reveladores; 2. A revelação de Deus não é acessível por um contato direto da alma com a divindade. Deus completou sua obra – o que é obra da salvação – pela vocação especial de Jesus de Nazaré, vocação que se reveste de uma dimensão humana e histórica”.

O acesso à revelação implica um contato com o passado, com a história de Jesus, mas não se limita a este conhecimento. Lucas une história e teologia. A história revela o projeto unitário de Deus para salvar os seres humanos, iniciando no Primeiro Testamento com a promessa, realizando no “hoje” de Jesus de maneira definitiva, e prolongando-se com o dom do Espírito na comunidade primitiva e na Igreja de qualquer época.

A recordação por si só não garante a continuidade entre o tempo de Jesus e o tempo da Igreja. Pela frequência com que Lucas emprega as palavras como “hoje” (11 vezes) e “agora” (14 vezes), ele discretamente traz a lume a verdade de que, com a vinda de Jesus, a salvação tornou-se uma realidade presente.

Com a missão específica de tornar Jesus Cristo conhecido, Lucas funde temas de ordem teológica. Missão, parusia, história da salvação e indícios de uma pneumatologia embrionária compõem o Evangelho num movimento de convergência para o verdadeiro centro da teologia lucana: cristologia.

Jesus é o Salvador, não de um povo, mas de toda a humanidade. “Jesus […] filho de Adão, Filho de Deus” (3,38). A universalidade da salvação está presente em todo o evangelho, desde a infância de Jesus, feito “luz para iluminar as gentes” (2,32), ao prenúncio do Batista para quem “todo homem verá a salvação de Deus” (3,6).

“TEÓLOGO DA SALVAÇÃO”

Lucas é chamado de “teólogo da salvação”. Ele tem muito a dizer sobre a história da salvação (Heilsgeschichte). Relacionando salvação e os eventos históricos, Lucas traz à tona uma ideia nova sobre a teologia da salvação: a salvação divina manifestada na vida, morte, ressurreição e ascensão de Jesus perpetua na vida diária da Igreja. Deus se faz presente na vida humana agindo em tudo o que Jesus disse e fez (cf. 2,1-2; 3,1).

A libertação de toda a forma de mal, especialmente do pecado e da perdição eterna e uma relação de amizade e comunhão com Deus está presente na forma como Lucas utiliza o termo “salvar” (sozêin) usado 17 vezes no Evangelho e 13 vezes nos Atos dos Apóstolos. Outras variantes da palavra “salvar” aparecem em Lucas-Atos: “salvador” (sóter), 4 vezes, e “salvação” (sotería ou sotérion), 13 vezes. Tais citações revelam claramente a intenção do autor.

Para Lucas, Jesus é o “Senhor” (Kýrios) – termo verificado mais de 200 vezes – da história e, sobretudo, “o Salvador” (2,11). Jesus, portanto, está no centro da história, não em sentido cronológico pretendido pelo teólogo alemão H. Conzelmann que separava a história em três momentos: preparação (Primeiro Testamento), acontecimento (Jesus), realização (a Igreja). Há uma única história de salvação em contínuo estar presente de Jesus nas diferentes economias de Deus. Assim, para Lucas, a Igreja constitui o prolongamento da história da salvação.

MORAL CRISTÃ

Outro termo muito utilizado por Lucas é a palavra “conversão” (metanoia). O termo assume no Evangelho uma etapa indispensável para a vida cristã. Dependente da responsabilidade pessoal, a conversão é decisiva para àqueles que pretendem abandonar qualquer forma de idolatria para descobrir o Deus vivo e seu Filho.

A metanoia faz parte da moral do Evangelho de Lucas. Ela não contradiz a Lei, mas a radicaliza. A obediência efetua-se não só no modo de proceder imposto pela Lei (cf. imagem do jugo – At 15,10), mas na adequação correta do corpo e do coração. Ao longo dos diálogos, Jesus propõe no Evangelho uma organização moral da vida: ruptura dos elos familiares, renúncia dos bens materiais, aceitação do sofrimento, e todo este contexto numa atmosfera de alegria e partilha.

Lucas não oferece uma ética cristã. As flutuações morais decorrem das respostas dadas às interpelações de Jesus. Elas variam em seu aspecto exterior. “Lucas não mobiliza os cristãos, a fim de submetê-los a um regime militar, mas esta atitude tem sua unidade e coerência: acarreta uma transformação da pessoa, um compromisso no serviço de Deus, uma abertura ao outro e um novo olhar sobre a realidade” (MARCONCINI).

VIDA CRISTÃ

O Jesus de Lucas é apresentado plenamente inserido na nossa vida humana, com todas as características de um ser humano. Com menos força que Marcos e Mateus, Lucas sublinha que aquele menino tem os atributos divinos (2,22; 3,6; 2,11; 3,22). Por isso ele tem consciência do dever de ocupar-se com as coisas de seu Pai (2,49), senta-se no meio dos doutores, postura própria do mestre. Já o Batista é apenas profeta do Altíssimo (1,76) com a missão de preparar o povo (1,17).

Nesse processo de hominização, Lucas ressalta a oração como uma prática constante na vida de Jesus. Este ato manifesta a intimidade entre o Pai e o Filho. A palavra “oração” aparece cerca de 70 vezes no Evangelho e 40 nos Atos. A relação de oração entre Jesus e seu Pai é única e inspirativa.

Os cristãos constituem uma comunidade de oração da qual a ação de graças e a intercessão constituem as duas marcas principais. Interessante é que Lucas nunca diz que os cristãos recitam o Pai-nosso. A atividade da oração, nos Atos, não tem nada a ver com orações pré-estabelecidas no Evangelho. Lucas insiste na perseverança. Ao orar incessantemente, os fiéis não desfalecem durante o tempo da Igreja que pode durar muito.

Além disso, todo o Evangelho insiste nos verbos de movimento: andar, subir, vir etc. O Jesus de Lucas é um peregrino incansável. Ele faz grandes viagens. O itinerário geográfico oferecido por Lucas tem um valor teológico importante: é um convite para a Igreja retomar o seu dinamismo e o seu caminho visando à alegria da ressurreição depois de passar pela cruz.

VIDA COMUNITÁRIA

A perspectiva de Lucas não é eclesial, mas missionária. A evangelização e as primeiras conversões interessam-no mais do que a formação de comunidades. Lucas não elabora uma teoria do poder apostólico, nem uma doutrina de sucessão. Tampouco confere uma autoridade aos Doze e faz de Pedro o porta-voz. Quando uma decisão deve ser tomada, a inspiração do Espírito harmoniza a vontade da multidão e a dos responsáveis.

Mesmo sem ocultar as tensões partidárias da comunidade, Lucas valoriza a vida em comum de direito e dever sob o poder (dunamus) do Espírito Santo. Estas tensões oferecem elementos exortativos para o modo de ser Igreja:

  1. Na Igreja, poder é sinônimo de serviço (diaconia).
  2. Na Igreja, o interesse de todos sobrepõe ao interesse de poucos.
  3. Na Igreja, a persuasão e não a imposição é o método utilizado pela autoridade apostólica.

Dois ritos são citados por Lucas: o batismo e a ceia. Sem ser sacramentalista nem espiritualista, o Evangelho apresenta o batismo como um rito de purificação. O sinal cristão é a invocação do nome de Jesus que faz do crente propriedade do Senhor. Normalmente, o batismo é seguido de uma imposição de mãos que marca a vida nova em seus primórdios e a dádiva do Espírito Santo.

Já a Ceia é o memorial da Paixão do Senhor. “Em memória de…” (22,19). O relato da instituição, através da sentença sobre o cálice (to poterion), confere ao sacramento (ou ordenança) uma conotação escatológica (22,16.18).

AÇÃO DO ESPÍRITO SANTO

Lucas apela e faz intervir o Espírito Santo. A ascensão de Jesus permite ao Ressuscitado enviar seu Espírito sobre os apóstolos. A ação das primeiras comunidades acontece sob o guarda-chuva da ação do Espírito Santo. Lucas deixa transparecer, em Atos dos Apóstolos mais do que no Evangelho, que os Pentecostes são como forças propulsoras da ação cristã. Os três Pentecostes citados – judaico (At 2), samaritano (At 8.17) e gentílico (At 10.44) – conferem aos discípulos de Jesus a segurança da qual ainda não dispunham e a inspiração necessária à articulação do histórico com o evangélico.

O sinal maior da irrupção do divino no humano que fica transformado é a presença do Espírito que já atua em Jesus (1,35; 4,18; 10,21) e, em seguida, na Igreja, guiada, conforme os Atos dos Apóstolos, em cada passo seu (11,23).

PERSPECTIVA ESCATOLÓGICA

Diferente de Mateus e Marcos, Lucas tem outra ideia sobre a perspectiva escatológica. O fim dos tempos não está próximo, visto que a vinda de Jesus foi precedida por um longo período: “[…] não será logo o fim” (21,8-9); “eles pensavam que o Reino de Deus ia chegar logo” (19,11) etc.

Uma salvação atual, não postergada para um futuro impreciso, faz-se presente pela constante repetição do termo “hoje”, atestado 11 vezes no Evangelho e 9 nos Atos dos Apóstolos (cf. 2,11; 4,21; 19,9; 23,43; 9,23). O Reino de Deus já se faz presente, mas ainda não de forma plena, consumada.

Carlos Cunha

Deixe um comentário

Arquivado em Estudos bíblicos

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s