Teologia pública: proposta e desafios

A teologia pública busca ser uma contribuição de comunidades religiosas nas sociedades democráticas plurais e da teologia acadêmica que sobre elas reflete, crítica e autocriticamente, para o debate público. É uma falácia pensar que a teologia pública visa estabelecer uma teocracia. Igualmente falacioso é achar também que a teologia pública busca uma secularização dos conceitos teológicos por dentro da política (teologia política).

Então o que busca? A teologia pública procura ser uma teologia separada do âmbito da política, sem ser alienada, num estado secular de direito, que reconhece plenamente a liberdade religiosa e no qual ela procura contribuir como parceira crítico-construtiva para o bem comum. Para isso, assume o seu caráter acadêmico, plural e interdisciplinar.

No Brasil, na década de 60, houve um esforço em dar um caráter público à teologia. O antropólogo Darcy Ribeiro foi pioneiro nesse intento. Embora fosse um agnóstico, ele queria criar um curso de Teologia dentro da universidade, mas seu intento foi frustrado pelo regime militar. É evidente que a compreensão que, nesse caso, ele tinha da teologia, se aproximava mais à de ciência da religião.

Estabelecer a distinção entre teologia e ciência das religiões é importante para uma compreensão da teologia pública. A teologia assume uma tradição religiosa específica e se permite, além da abordagem descritiva, também propor reflexões quanto à pertinência normativa do assunto em pauta. Já a ciência da religião é, por natureza, descritiva e deve ser comparativa, ou seja, ter em vista mais de uma religião.

Mesmo praticada cientificamente, como disciplina universitária, a teologia ainda está, em todo caso, ligada ao fenômeno “igreja”. Portanto, não é devido à especificidade dos seus métodos que a teologia se diferencia da ciência da religião e de outras ciências sociais, mas, por certo, através de sua função “social” e, com isso, através de sua realidade passível de descrição social. Com efeito, a teologia é um ato de tomada de consciência da igreja sobre si mesma. O aspecto especificamente teológico desse ato é, antes, sua função ligada à igreja.

No mundo anglo-saxão e, mais recentemente, na Alemanha, procura-se fazer uma ponte entre a teologia e a ciência da religião mediante a chamada “teologia comparativa” (comparative theology). No Brasil, ainda que a teologia seja identificada com determinada confissão religiosa, ela não se restringe a esta, mas procura construir pontes com outras confissões, religiões e ciências, bem como com a sociedade mais ampla. Percebe-se esta verdade na elaboração metodológica do tripé ver-julgar-agir da teologia da libertação e no seu intenso diálogo com as ciências sociais. Na atualidade, o fazer teológico no Brasil intensificou o seu diálogo com a ciência da religião.

É na interlocução entre as confissões, religiões e ciências que David Tracy legitima o lugar da teologia pública, atendendo, do seu modo específico, aos públicos da academia, da Igreja e da sociedade. O mesmo faz Jürgen Moltmann, ao tratar sobre os lugares da existência teológica – lugares intramundanos que alimentam o fazer teológico a partir da experiência na e com a vida.

Mas a busca por legitimidade da teologia no contexto brasileiro não é tão simples assim. Devido à lentidão histórica da teologia no Brasil, causada por retraimentos social, científico e político, a busca por cidadania acadêmica por parte da teologia esbarra em três carências constitutivas: primeira, a carência de legitimidade epistemológica dentro da comunidade científico-acadêmica. Por ser taxada como “coisa de igreja”, a teologia sofre de “suspeita ideológica”, como conhecimento ligado aos interesses políticos das Igrejas e, portanto, danoso para a sociedade plural e laica.

Segunda, a carência de legitimidade política, por ficar fora das polêmicas educacionais do ensino superior. A legalização tardia da teologia, em 1999, associada à falta de tradição acadêmica e à fragilidade epistemológica do escopo conceitual dos Pareceres 241/99 e 63/04, favorecem um status da teologia como subárea das ciências humanas.

Terceira, a carência de legitimidade cultural, provocada pelo confinamento da teologia à esfera eclesial. A teologia ainda se mostra como desconhecida da população de um modo geral e soa estranha como curso superior legalmente reconhecido, até mesmo em ambientes acadêmicos.

Apesar dessas carências, a presença acadêmica e social da teologia nas universidades e faculdades, a partir de seu reconhecimento legal, lançou-a, ainda que incipientemente, no espaço público e, portanto, numa zona ambígua, onde ela é vista como “coisa de igreja” em tensão com “coisa pública”. Esse desígnio, provavelmente insuperável pela própria natureza da teologia, tenderá a buscar caminhos de legitimação pública da teologia.

A título de exemplo, citaremos pelo menos quatro caminhos possíveis e necessários para a legitimação pública da teologia: 1) no âmbito acadêmico, em diálogo com outros campos do saber; 2) no âmbito político, em diálogo com as problemáticas educacionais; 3) no âmbito religioso, em diálogo com os vários sistemas religiosos, em busca de uma ética global e paz mundial; e, por fim, 4) no âmbito teológico, isto é, seu estatuto epistemológico enquanto saber científico no espaço público.

Carlos Cunha

3 Comentários

Arquivado em Reflexão teológica

3 Respostas para “Teologia pública: proposta e desafios

  1. Natália Lacerda

    Oi, será que poderia colocar as fontes de seus artigos, as referencias? Otimo trabalho. Desde já agradeço.
    Natália

  2. Natália Lacerda

    Oi, Carlos. Claro, reflexões pessoais. Não pedi por considerar impreciso, apenas para conhecer autores. Estou lendo, por exemplo, A Cidade e o Gueto de Ronaldo Cavalcante. Estou trabalhando com este tema. =)
    Obrigada, pelo retorno.

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