Arquivo do mês: novembro 2012

Universo teologal: uma fonte de esperança

A Trindade é uma chave hermenêutica importante para a ecoteologia. Ela como modelo para o pensamento ecológico que, priorizando a dimensão sistêmica ou relacional, vê todos os seres como membros de uma comunidade biótica, interligados por uma cadeia de images[4]conexões vitais. Este modelo é possível porque a comunicação de Deus para fora de si na criação já acontece na autocomunicação divina, isto é, no interior da própria Trindade. A Trindade é uma comunidade de pessoas distintas, amorosamente interrelacionadas, em comunhão de ser, de bem e de vida, de modo que o universo inteiro tem sua origem fontal nessa amorosa comunhão trinitária.

O mundo tem uma marca de filiação. Deus cria no Filho. Isto é, Jesus Cristo é o modelo da criação e que esta carrega em si as marcas da presença do Filho. O destino do mundo é ser tomado pela filiação. Segundo Adolphe Gesché: “Afirmar que ela tem estatuto de filiação é afirmar de novo, porém com mais garantia ainda do que anteriormente, o seu direito de liberdade e de invenção. A criação foi confiada ao Filho. Mas o que é um filho senão exatamente aquele que tem o direito de iniciativa? O Filho não é servo, e muito menos mercenário. Ele recebeu todo o agrado do Pai (Mt 3,17), que lhe submeteu (confiou) todas as coisas (Hb 2,8). ‘Todas as promessas de Deus encontraram nele o seu sim’ (2Cor 1,20). De modo que criação pode, por sua vez, pronunciar esse ‘sim’, pois ela é a própria casa do Filho (seu oikos, Hb 3,6) e que não somos servos (Jo 15,15). De uma ponta a outra, a criação, desde o Filho […] até nós […] passando pelo cosmo; de uma ponta a outra da criação está gravada, portanto, uma marca da filiação” (GESHÉ, 2004).

Portanto, o senhorio de Cristo se estende a toda realidade, de modo que o efeito redentor de seu ministério pascal não se limita aos seres humanos, mas se estende a todo mundo criado. A bondade intrínseca da criação, já revelada na tradição do Primeiro Testamento, vê-se confirmada pela mensagem do Segundo Testamento: se a criação de Deus é dádiva do seu amor (1Tm 4,4), nada deve ser tido como impuro em si mesmo (Rm 14,14).

A criação tem uma clara dimensão salvífica. A intenção de toda criação se manifestará, plenamente, no final, mas está atuante deste o início. Essa linha de continuidade entre protologia e escatologia é fundamental para uma adequada teologia cristã da criação. É na ressurreição de Cristo que a fé cristã vê, de forma antecipada, a futura completude não somente da espécie humana, mas de todo o universo. O olhar escatológico para a Nova Criação é, desse modo, para a teologia cristã que se depara com a crise ecológica, uma fonte de esperança.

Carlos Cunha

Deixe um comentário

Arquivado em Reflexão teológica

Universo teologal: diálogo entre teologia e ecologia

Os problemas ecológicos atuais provocam a teologia cristã o desafio de dar ao homem pós-moderno o sentido de um universo teologal. Isto é, os humanos estão nivelados pelos ecossistemas que compõem a grande rede da vida. O ser humano não foi chamado para explorar e dominar (Gn 1,28), mas para cuidar e cultivar (Gn 2,15) o planeta. A criação não pode ser pensada numa perspectiva antropocêntrica, cartesiana e newtoniana que visa objetivar a natureza em prol do progresso ilimitado.

A criação é intrinsecamente boa, e carrega em si um sentido, uma inteligibilidade interna advinda do próprio ato criador. Deus cria, isto é, suscita uma verdadeira novidade, uma realidade que tem em si mesmo uma estrutura imanente de autogênese e de criatividade, que no ser humano alcança o nível de liberdade. A criação não é fabricação de coisas prontas. Criar é fazer com que o outro seja ele mesmo, de modo que, a criação é um campo aberto, dinâmico e criativo.

Do ponto de vista ecológico, toda a criação é perpassada pelo Espírito. J. Moltmann afirma: “Las criaturas son ‘creadas’ (bara) con el aflujo permanente del Espíritu (ruah) divino, existen en el Espíritu y son ‘renovadas’ (hadash) mediante el Espíritu. Esto presupone que Dios crea siempre a través, y en la fuerza, de su Espíritu; y que, por consiguiente, la presencia de su Espíritu condiciona la possibilidad y las realidades de su creación. Presupone tambíen que el Espíritu es derramado sobre todo cuanto es; y que el Espíritu lo conserva, lo vivifica y lo renueva”.

Para J. Moltmann é necessário reafirmar a presença do Espírito que permeia e vivifica o mundo – o Espírito cósmico – que foi suprimida pela cosmovisão mecanicista dos tempos modernos.

A ecoteologia, filha do casamento entre a teologia cristã e a ecologia, precisa afirmar que Deus está presente em suas criaturas e todas as coisas estão voltadas para Ele pelo dinamismo do Espírito que habita o mundo. Em vez de panteísmo (Deus é tudo), podemos falar corretamente em um panenteísmo (Deus está em tudo).

Leonardo Boff esclarece: “Tudo não é Deus. Mas Deus está em tudo e tudo está em Deus, por causa da criação, pela qual Deus deixa sua marca registrada e garante sua presença permanente na criatura (Providência). A criatura sempre depende de Deus e o carrega dentro de si. Deus e mundo são diferentes. Um não é o outro. Mas não estão separados ou fechados. Estão abertos um ao outro. Encontram-se sempre mutuamente implicados. Se são diferentes é para poderem se comunicar e estarem unidos pela comunhão e mútua presença”.

Em outras palavras, de forma poética, a tradição do antigo Oriente expressou a onipresença do Espírito em toda criação: “O Espírito dorme na pedra, sonha na flor, acorda no animal e sabe que está acordado no ser humano”. Viva a vida!

Carlos Cunha

4 Comentários

Arquivado em Reflexão teológica

Teologia de fronteira: a contribuição de Paul Tillich

A divisão da trajetória biográfica, intelectual e espiritual de Paul Tillich em dois períodos, alemão (1886-1933) e americano (1933-1965), continua marcada por sua emigração. Tillich é considerado “teólogo da fronteira”. É mais do que estar na linha fronteiriça entre dois continentes, mas, ao mesmo tempo, estar entre os mundos, entre os tempos, estar em tensão e em movimento, pensar não em monólogos, mas em diálogo. A teologia de fronteira de Tillich evidencia-se, sobretudo, na relação que ele institui entre religião e cultura secular, e, no método de correlação, constantemente praticado em sua teologia sistemática.

Sua contribuição epistemológica, sintetizada no método da correlação, consiste em estabelecer uma ponte razoável e autêntica entre a fé, a revelação cristã e a cultura moderna. Para este fim desenvolveu o “método da correlação”, segundo o qual o conteúdo da revelação cristã se apresenta e demonstra como resposta às perguntas cruciais que brotam da existência do ser humano na modernidade. A teologia querigmática (Barth) leva em conta apenas o anúncio (querigma), sem olhar o outro pólo (destinatário), representado por todas as várias formas culturais que exprimem a interpretação da existência por parte do homem moderno. Daí nasce o projeto tillichiano de completar a “teologia querigmática” com uma teologia apologética, ou seja, uma “teologia que-dá-repostas” (answering theology).

O uso do método da correlação é uma opção pela fronteira entre perguntas e respostas. É preciso ouvir as perguntas para formular respostas. Sem a situação, não há perguntas. Numa época como a nossa, tão cheia de demandas, a teologia necessita ouvir atentamente o grito de uma sociedade plural que anseia por orientação.

No pensamento de Tillich, a “fronteira” (boundary) é chave hermenêutica de sua vida e teologia, a saber, a reivindicação do espaço de fronteira entre diferentes saberes e possibilidades. Estar na fronteira consiste em estar numa posição frutífera para o pensamento.

No ensaio On the Boundary, Tillich deixa transparecer o lugar privilegiado da situação de fronteira (boundary-situation) na aquisição do conhecimento: “A fronteira é o melhor lugar para a aquisição de conhecimento” (TILLICH, 1966, p.13).

Uma situação de fronteira se dá quando a possibilidade humana alcança seu limite, quando a existência humana é confrontada pela ameaça última. Segundo o próprio Tillich, em The Future of the Religions, a “existência na fronteira, em uma situação de limite, é cheia de tensão e movimento. Não é estática, mas, ao contrário, é uma travessia e retorno, uma repetição de retorno e travessia, um vai-e-vem, cujo objetivo é criar uma terceira área além dos limites territoriais, uma área onde se pode permanecer por um tempo sem ser encerrado em algo hermeticamente limitado” (TILLICH, 1966, p.53).

Pensar a teologia pública, especificamente no âmbito epistemológico, a partir do conceito de “fronteira” de Tillich é colocar a teologia pública numa zona de “encontro” (Tillich não utiliza o termo “diálogo” e, sim, “encontro” – encounter) para experimentar algo, sobretudo novo. Esse “algo novo” advém, no caso do Brasil, de uma situação nova em que a teologia se encontra perante a academia, a igreja e a sociedade.

O método da correlação, que tem como locus o lugar de fronteira (boundary-situation), perpassa toda a teologia sistemática de Tillich e pretende explicar os conteúdos da fé através de perguntas e respostas teológicas em interdependência mútua. Só há possibilidade de fronteira na abertura provocada pela situação. O próprio termo “correlação” já comporta em si mais de uma possibilidade. O vocábulo ocupa, assim, um lugar de prestígio na comunicação acadêmica, eclesial e social, pois abre caminho para expressar a relação entre conceitos, ideias e pensamentos que podem ser totalmente diferentes.

Carlos Cunha

Deixe um comentário

Arquivado em Reflexão teológica