Universo teologal: uma fonte de esperança

A Trindade é uma chave hermenêutica importante para a ecoteologia. Ela como modelo para o pensamento ecológico que, priorizando a dimensão sistêmica ou relacional, vê todos os seres como membros de uma comunidade biótica, interligados por uma cadeia de images[4]conexões vitais. Este modelo é possível porque a comunicação de Deus para fora de si na criação já acontece na autocomunicação divina, isto é, no interior da própria Trindade. A Trindade é uma comunidade de pessoas distintas, amorosamente interrelacionadas, em comunhão de ser, de bem e de vida, de modo que o universo inteiro tem sua origem fontal nessa amorosa comunhão trinitária.

O mundo tem uma marca de filiação. Deus cria no Filho. Isto é, Jesus Cristo é o modelo da criação e que esta carrega em si as marcas da presença do Filho. O destino do mundo é ser tomado pela filiação. Segundo Adolphe Gesché: “Afirmar que ela tem estatuto de filiação é afirmar de novo, porém com mais garantia ainda do que anteriormente, o seu direito de liberdade e de invenção. A criação foi confiada ao Filho. Mas o que é um filho senão exatamente aquele que tem o direito de iniciativa? O Filho não é servo, e muito menos mercenário. Ele recebeu todo o agrado do Pai (Mt 3,17), que lhe submeteu (confiou) todas as coisas (Hb 2,8). ‘Todas as promessas de Deus encontraram nele o seu sim’ (2Cor 1,20). De modo que criação pode, por sua vez, pronunciar esse ‘sim’, pois ela é a própria casa do Filho (seu oikos, Hb 3,6) e que não somos servos (Jo 15,15). De uma ponta a outra, a criação, desde o Filho […] até nós […] passando pelo cosmo; de uma ponta a outra da criação está gravada, portanto, uma marca da filiação” (GESHÉ, 2004).

Portanto, o senhorio de Cristo se estende a toda realidade, de modo que o efeito redentor de seu ministério pascal não se limita aos seres humanos, mas se estende a todo mundo criado. A bondade intrínseca da criação, já revelada na tradição do Primeiro Testamento, vê-se confirmada pela mensagem do Segundo Testamento: se a criação de Deus é dádiva do seu amor (1Tm 4,4), nada deve ser tido como impuro em si mesmo (Rm 14,14).

A criação tem uma clara dimensão salvífica. A intenção de toda criação se manifestará, plenamente, no final, mas está atuante deste o início. Essa linha de continuidade entre protologia e escatologia é fundamental para uma adequada teologia cristã da criação. É na ressurreição de Cristo que a fé cristã vê, de forma antecipada, a futura completude não somente da espécie humana, mas de todo o universo. O olhar escatológico para a Nova Criação é, desse modo, para a teologia cristã que se depara com a crise ecológica, uma fonte de esperança.

Carlos Cunha

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