Arquivo do mês: dezembro 2012

Comer, beber e viver

68137_10200133221475716_1185462053_n[1]A alimentação e a comensalidade são elementos fundamentais para a
humanidade. A circunstância de comer compartilhando da mesma comida e da mesma mesa, em companhia de outras pessoas, faz parte do que é constitutivo das relações humanas. Enquanto o alimento é força para o estômago e o sangue, a comensalidade nutre o espírito e reforça a necessidade que todos temos de companhia, escuta e de cuidado.

Há uma diferença abismal entre dar comida e compartilhar comida com alguém. As motivações são distintas. O primeiro ato não requer envolvimento. Dar comida a alguém para que coma onde pode e como pode. Já sentar-se à mesa com alguém significa compartilhar com ele a mesma energia de vida que sustenta a ele e a mim. É o reconhecimento de que fazemos parte de um só corpo.

Jesus fez da refeição em comum elemento capital para o seu ministério. Ele usou da comensalidade para anunciar o Reino, o qual tem seu objetivo último expresso numa grande refeição, o banquete da vida (cf. Mt 22,1-10; Lc 14, 15-24). Curioso o fato de que, segundo os Evangelhos, Jesus aparece relacionado com a refeição em comum 137 vezes (28 – Mt, 22 – Mc, 56 – Lc, 31 – Jo). Dessa forma, a mesa de refeição é lugar de grande expressão catequética na nossa formação espiritual e familiar.

Essa experiência básica e laica, comum a todos, da vida humana é o melhor lugar (topos) da comunicação de Deus. A comensalidade faz emergir a revelação de quem é Deus e o seu propósito para o ser humano. Foi desde aqui, desde o minimamente humano, que Jesus nos revelou quem é Deus e como é Deus. A comida e a comensalidade são experiências determinantes na vida de todo ser humano, por isso Jesus, o revelador de Deus, em suas refeições, nos dá a conhecer as dimensões mais profundas da humanidade de Deus.

Com quem comia Jesus? Jesus compartilhou sua comida preferencialmente com os mais pobres (cf. Mc 6,30-44; Mt 14, 13-21; Lc 9, 10-17; Jo 6, 1-14; Mt 15, 32-38; Mc 8, 1-10). A verdadeira vida cristã consiste em cuidar dos nossos irmãos necessitados. É preciso convidá-los à mesa. A mesa é o lugar onde apresenta melhor o rosto de Deus, porque nela envolve a vida. Compartilhar o pão com quem tem fome é tarefa de todo cristão. Onde falta a comensalidade (aspecto social), falta igualmente a força eucarística (aspecto teológico).

É uma pena que o Natal de hoje esteja tão desprovido de sentido. Para muitos, os que podem evidentemente, participar da ceia natalina significa se deliciar com os pratos próprios dessa época. Nada contra. Mas a ceia é mais do que isso. A ceia de Natal é símbolo da comensalidade proposta por Jesus. Estar à mesa com familiares e amigos na refeição de Natal é um convite a uma vida de renúncia e engajamento.

Carlos Cunha

2 Comentários

Arquivado em Reflexão teológica

Venha o teu Reino

O batismo de Jesus foi um momento decisivo no seu ministério como arauto do Reino de Deus. Ao emergir das águas do Jordão, Jesus se lança exclusivamente à tarefa de caráter profético que surpreende os seus famimagesCA44IYNMiliares e amigos.

Ao desvincular-se da família e dos seus afazeres diários, Jesus se entrega ao povo como ato de renúncia e de justiça. Ele cumpre cabalmente o rito proposto pelo Batista e junto a ele assume, pelo batismo, o sinal de compromisso de uma mudança radical. Jesus concretiza o seu chamado e atende a voz de Deus para uma nova missão.

Um novo horizonte se abre para Jesus. Com o fim do período de preparação no deserto, irrompe-se um novo tempo para a concretização da salvação de Deus. “É chegado o Reino de Deus!” (Mc 1,15). Jesus supera as expectativas apontadas por João: Não mais se deve esperar o reino e o juízo, é preciso acolhê-lo, “entrar” no Reino de Deus e aceitar o seu perdão salvador.

O novo discurso inaugurado por Jesus abarca o perdão a todos. Batizados e não batizados são acolhidos por um Deus salvador. O convite à salvação é oferecido indistintamente aos seres humanos e cabe a cada um, individualmente, aceitar ou não. Deus não força ninguém; apenas convida. Seu convite pode ser acolhido ou rejeitado. Cada um decide seu destino. Uns ouvem o convite, acolhem o Reino de Deus, entram em sua dinâmica e se deixam transformar; outros não ouvem a boa notícia, rejeitam o Reino, não entram na dinâmica de Deus e se fecham à salvação.

O convite à salvação é feito pelo próprio Cristo. Ele percorre cidades e povoados pregando o Evangelho do Reino (Mt 9,35-38) e convidando todos a participarem deste novo momento. Lugares que até então eram tidos como redutos de marginalizados transformam-se agora no novo cenário para acolher a salvação.

Nas aldeias e povoados a presença de Jesus é cada vez mais marcante. A vida itinerante de Jesus entre os marginalizados é símbolo vivo de sua liberdade e de sua fé no governo de Deus. Ele abandonou a segurança do sistema para “entrar” confiantemente no Reino do Pai. É ali, no impacto das boas novas na vida dos necessitados, que o Reino de Deus vai sendo gestado.

A vida itinerante de Jesus é a grande ilustração do teor da sua pregação. Toda a sua vida remete ao Reino de Deus – seus discursos, sua convicção, sua paixão. O Reino de Deus é a força propulsora do ministério de Jesus e o que dá sentido a sua história. É este Reino que Jesus se empenha em implantar na Galileia, no povo de Israel e em todos os povos de forma definitiva.

Carlos Cunha

Deixe um comentário

Arquivado em Reflexão teológica