Bíblia: os distanciamentos que aproximam

A Bíblia não caiu pronta do céu, mas passou por um processo longo de reformulações, compilações, traduções e aceitação. Diferentes pessoas, tradições, lugares e línguas fazem parte do processo de formulação das Escrituras com uma série de distanciamentos que podem dificultar a inteligência dos textos.

Interpretar é tentar transpor os distanciamentos em suas várias formas e chegar ao sentido “ideal” do texto. Sabe-se que o tempo e o espaço são pré-determinantes na impossibilidade da exatidão do texto, mas ter consciência dos distanciamentos e respeitá-los no processo de interpretação é fundamental para o trabalho do exegeta.

A Bíblia como livro humano

O distanciamento temporal. Num mundo em constantes mudanças, faz com que a maneira de encarar o mundo (cultura, língua e etc.) dos escritores da Bíblia se perca no passado distante. Portanto, como qualquer documento antigo (diferente de velho), a Bíblia precisa ser lida levando-se isto em conta.

O distanciamento contextual também conhecido como Sitz im Leben, refere-se à origem dos escritos: às situações sociológicas ou necessidades da igreja que deram característica distintiva as unidades literárias. Identificar o âmbito existencial de um texto é se esforçar por levantar informações que ajudem o leitor identificar em que momento o texto foi elaborado.

O distanciamento cultural é marcado por textos que foram fixados numa cultura distinta com características próprias – cosmovisões, costumes, tradições e crenças. Os intérpretes devem levar em conta o jeito de escrever daquela época, a maneira de expressar conceitos e ilustrar verdades, para poder transpor a distância cultural.

O distanciamento linguístico busca conscientizar o intérprete de que os textos bíblicos foram grafados em línguas mortas. Isto é, não se fala mais o hebraico clássico e o grego koinê. São línguas oriundas de troncos linguísticos distintos (semita e indo-europeu) com estruturas próprias. Cabe ao leitor levar em consideração estas particularidades.

O distanciamento autoral é um desafio a ser transposto pelo intérprete na busca por identificar no texto marcas do autor ou tradições deixadas por escrito. Talvez seja o maior desafio, pelo seu caráter subjetivo (“o que o autor quis dizer?”) e pela própria morte do autor. Será que com a morte do autor a sua intenção também morre?

A Bíblia como livro divino

A natureza divina da Bíblia provoca outros tipos de distanciamentos que necessitam ser superados e apropriados.

O distanciamento existencial. A leitura da Bíblia precisa ser uma leitura preocupada com a vida, com as situações concretas das pessoas e da sociedade. O que interessa não são tanto os conhecimentos bíblicos, mas a realização do sentido pleno da vida.

O distanciamento ecumênico. Aberto e acolhedor, sem preconceitos ou sectarismos. Não se trata de perder a própria identidade religiosa ou de largar a própria comunidade a que se pertence e viver solto. Trata-se, sim, de estar aberto à vida, de ser acolhedor e solidário, de acolher com simpatia o diferente, dentro de um projeto comum que defende e valoriza a vida.

O distanciamento comunitário. Não é uma leitura individualista, elitista, produto exclusivo de pessoas estudiosas. É uma leitura feita em mutirão. A Bíblia é o nosso livro. Ninguém pode se apossar da Bíblia como de uma propriedade particular. É eclesial no sentido de comunidade dos seguidores de Jesus Cristo: “É preciso ter alma de Igreja para ler e entender a Bíblia” (Jerônimo, IV século d.C.).

O distanciamento espiritual. A leitura espiritual é leitura guiada pelo Espírito Santo e voltada para o hoje e o aqui, que clareia, ilumina, motiva a caminhada. A Bíblia deixa de ser um livro de biblioteca, um livro objeto de altos estudos, e torna-se preciosa companheira de caminhada. O interesse vai do texto-em-si para o texto-em-nós. Portanto, não é uma leitura espiritualista, que se separa corpo e alma, história e transcendência. É uma leitura mística, que vai às raízes da nossa existência e gera convicções profundas, capazes de enfrentar e assumir desafios.

O distanciamento da esperança. Essa leitura bíblica não é uma leitura estagnada, ela abre caminhos. É uma leitura criativa e não repetitiva, e busca interpretar a realidade da vida seguindo dois critérios básicos: fidelidade absoluta ao Deus da vida e aos anseios dos que clamam por vida e dignidade. É uma leitura que se renova constantemente, sempre apela para um processo de conversão permanente, tanto pessoal como socioeconômico-político-pastoral.

O entendimento da dupla natureza dos textos bíblicos é condição de possibilidade para uma leitura efetiva da Bíblia. Os distanciamentos, quando considerados, ajudam o leitor/intérprete na compreensão e apreensão dos Escritos Sagrados explorando toda a sua riqueza de significados.

Carlos Cunha

4 Comentários

Arquivado em Reflexão teológica

4 Respostas para “Bíblia: os distanciamentos que aproximam

  1. Silvia Cristina

    Excelente texto.

  2. Antonio Vilmar

    Gostei muito do estudo Carlos muito bom, aprendir algo muito importante sobre a leitura da palavra de DEUS.

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