Arquivo do mês: março 2013

Boa Nova da Páscoa

Deus ressuscitou Jesus. Esta é a confiança de que nós ressuscitaremos também. Toda a argumentação do apóstolo Paulo faz desta afirmativa o fundamento de fé da esperança do cristão (cf. Rm 8,11; 1Co 6,14). Essa é a esperança de quem se apoia no amor incondicional de Deus. Através da ressurreição de Jesus, Deus confirmou o seu amor pelas suas criaturas. Deus não deixa a sua criação no colapso da morte; ele a ressuscita. Deus por meio da morte-ressurreição do seu Filho se declara solidário com a criação e lhe propõe vida (cf. 1Co 15,19-22). Na morte, Deus prova que é também fiel à sua natureza. Ele opta pela vida e contra a morte, sempre e em todos os lugares. O que aconteceu com Jesus, é a essência e o âmago da Boa Nova da Páscoa e, ao mesmo tempo, a antecipação de tudo o que sucederá a cada pessoa.

Medard Kehl utiliza, inspirado em Hegel, do tríplice conceito do termo “suprassumir” (aufheben) para explicar o significado da expressão “ressurreição dos mortos”. Para Hegel, diz Kehl, “suprassumir” significa: (1) conservar; (2) revogar e (3) erguer. Tal conceito tríplice aplicado à ressurreição significa: “(1) O amor de Deus conserva tudo o que é importante na vida pessoal e na história humana para a comunhão com Deus e definitivamente reconciliada no Reino de Deus […] (2) O amor de Deus revoga tudo o que não pode ser incorporado nessa reconciliação definitiva […] (3) Todo o ‘fruto’ de nossa vida digno de conservação que levamos à consumação é aceito pelo amor de Deus e conduzido, por ele, à completa ‘maturação’ (é ‘erguido’)” (KEHL, Medard. O que vem depois do fim? São Paulo: Loyola, 2001. p.133-135). Assim ser ressuscitado por Deus é ter os bons frutos da vida conservados; é ter todas as dores e feridas revogadas e, por fim, é ser erguido por Deus para uma vida nova no desfrute da sua presença.

A ressurreição de Jesus é o modelo de nossa ressurreição e fonte de esperança cristã. Cristo traído, maltratado e abandonado na morte, mas ressuscitado e exaltado por Deus. A consciência de todo este drama faz emergir, nos que creem, a esperança sempre constante de que em cada “fim” se oculta um novo início onde os seres humanos percebem a ressurreição de Cristo e começam a viver em seu horizonte. É o renascer para uma viva esperança para além da morte, e a experimentar no vivo amor a vida eterna em seu momento de plenitude. A vida eterna é conhecer a si mesmo em Deus e Deus em si mesmo. A visão de Cristo e as experiências na comunhão em Cristo são as bases para as noções cristãs de vida eterna e de mundo futuro. A ressurreição de Cristo não é somente o início cronológico da fé cristã, mas é também sua origem eterna.

A esperança da ressurreição não é apenas para mim, mas também para o outro. Não se deve dizer egoisticamente da “minha ressurreição”, mas da “nossa ressurreição”. A de Cristo deve ser vista de forma plena, exemplar e modelo da nossa. O que aconteceu com Ele revela o que acontece conosco. É um único ato que se prolonga no tempo e na história tendo Cristo como centro revelador e salvador.

Em Jesus Cristo ressuscitado, o Absoluto se autocomunica. O Absoluto nos veio ao encontro e começou a realizar a plenitude derradeira e definitiva. Jesus Cristo é o primeiro dentre muitos irmãos (Rm 8,29; 1Co 15,20; Cl 1,18). O impossível ao ser humano – vida eterna após a morte – se mostrou possível para Deus (cf. Mt 19,26; Lc 1,37; 18,27). O Absoluto e misterioso uniu a si o ser humano de tal forma que com ele fez uma história. Assim realizou definitivamente o ser humano em Deus. Quando afirmamos e cremos nisso, cremos e afirmamos a fé na ressurreição de Deus. O futuro de Jesus Cristo, feito presente dentro da história pela ressurreição, é o futuro da humanidade. Por isso, os cristãos o louvam como a comunidade primitiva: “Cristo é a nossa esperança” (Cl 1,27).

Compreender a ressurreição de Cristo como realização plena e modelo da nossa dá sentido profundo à existência temporal. O próprio Paulo atestou o fruto desta visão na espiritualidade presente: “Mas se morremos com Cristo, temos fé que também viveremos com ele” (Rm 6,8). Já se inicia o que seremos e porque já está em curso o que seremos é que devemos, cada vez mais, realizar nEle o que ainda somos: “se vivemos pelo Espírito, procedamos também de acordo com o Espírito” (Gl 5,25; cf. Rm 6,1-7; 8,1-17).

A ressurreição não só ilumina a vida de Jesus como revela também a nossa. Esta é a raiz do chamado de Jesus ao seguimento. Sua ressurreição, tendo alcançado a plenitude da realização humana, mostra que o caminho de sua vida é verdadeiro para qualquer ser humano. Vivendo como ele, ressuscitaremos como ele. Por isso Jesus é o verdadeiro caminho (cf. Jo 14,6).

Carlos Cunha

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Teologia, Ciência e Igreja

Compreender teologia como hermenêutica (interpretação) é tomar a sério a historicidade da verdade e o ser humano como sujeito interpretante. Teologia é interpretação atualizante do próprio conteúdo da fé, a hermenêutica é o caminho.

Teologia é “descrição” da experiência religiosa que se entende como  representação reprodutiva que se vale da linguagem. Assim, teologia é ação exclusivamente linguística. No âmbito teológico, a descrição é o esforço de fazer jus a um objeto, abordando-o dos mais diferentes lados possíveis. Por isso, quem descreve se esforça por ver seu objeto sob muitos aspectos, pois o objeto deve tornar-se visível por si mesmo. Entretanto, esses aspectos não permanecem um ao lado do outro; na teologia visa-se proporcionar uma interpretação coerente das experiências religiosas em questão. A coerência faz parte que a descrição não seja algo superficial, mas se preocupe também com as causas e implicações (Klaus Berger).

Tal descrição se refere tanto a relatos passados quanto a presentes, pois o objeto da teologia pode ser não só a Bíblia ou a história da Igreja ou dos dogmas, mas também a prática eclesial presente. Assim, o objeto da teologia não é Deus. Ela leva seu nome por que fala sobre a experiência de Deus, não porque ela própria seja experiência de Deus.

Assim, enquanto ciência, não é Deus o objeto da teologia, mas sua revelação. A teologia possui traços de ciência porque é conhecimento produzido na interrelação do sujeito com o Sagrado. O seu objeto é composto por afirmações humanas sobre Deus e o comportamento humano diante dEle. Mas Deus mesmo não é objeto de uma ciência. Como ciência descritiva, a teologia pode apresentar exemplos exitosos e malogrados, pois, é apresentando os fenômenos, com condições e conclusão, que ela se torna normativa. Como ciência, a teologia possui métodos limitados e depende de aferição intersubjetiva de seus resultados. Seus limites objetivos ou materiais ficam evidentes justamente nos seus resultados e não devem ser ditados a partir de fora. Por isso, Klaus Berger define teologia a partir do princípio histórico-fenomenológico, que ele denomina de razão histórica-social: “[…]a teologia é ciência justamente na diferença em relação a fé. Como outras ciências humanas e sociais, ela também emprega métodos históricos e fenomenológicos. Esses métodos e sua aplicação certamente implicam determinadas decisões prévias; no entanto, não se situam no nível da fé ou da falta de fé. Tudo o que a teologia afirma como ciência tem de ser demonstrável a partir do fenômeno”.

Mesmo praticada cientificamente, como disciplina universitária, a teologia ainda está, em todo caso, ligada ao fenômeno “Igreja”. Portanto, não é somente devido aos seus métodos que a Teologia se diferencia da(s) Ciência(s) da(s) religião(ões) e de outras ciências sociais, mas, por certo, através de sua função “social” e, com isso, através de sua realidade passível de descrição social. Pois, a teologia é um ato de tomada de consciência da Igreja sobre si mesma. O aspecto especificamente teológico desse ato é, antes, sua função ligada à Igreja. Porém, a teologia, como ciência, busca auxiliar, a Igreja de seu jeito, quer fazê-lo da maneira livre que lhe é própria. E, a cada Igreja, é recomendado querer permitir-se essa liberdade.

A teologia “nomeia a realidade da igreja, retoma suas questões, as confronta criticamente consigo mesma, com seus inícios e sua história, forma seus pastores e professores de religião e “auxilia” a muitos membros da igreja, sempre à sua maneira. Dito de outra maneira: a atividade da teologia científica, realizada de modo distanciado (em muitos aspectos, em relação à própria igreja), pode trazer para a Igreja, ao menos, o fruto dos teólogos críticos (se e na medida em que ela está realmente interessada nesse fruto)”, afirma Berger.

Carlos Cunha

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“Narradores de Javé”, tradições e interpretações

Filme: Narradores de Javé por Eliane Caffé e Luís Alberto de Abreu

Sinopse: O filme, baseado em fatos reais, é sobre a população da cidadezinha de Javé, no interior da Bahia, que será invadida pelas águas de uma represa, e chama uma pessoa, Antonio Biá, para escrever a história do lugar e quem sabe impedir inundação. Mas ele encontra histórias contraditórias, egos, fantasias e muitos problemas.

Análise do filme

Objetivo: estudar o processo de comunicação; tradição oral e escrita e interpretação.

Versões sobre a fundação de Javé:

  1. Versão de Vicentino – p.50. – a figura de Indalécio.
  2. Versão de Deodora – p.69. – a figura de Mariadina.
  3. Versão de Vado – p.67. – fugido/retirada.
  4. Versão de Firmino – p.75. – Indalécio morreu defecando e Mariadina era uma louca.
  5. Versão de Daniel – p.98. – a morte do seu pai, Isaías.
  6. Versão de Gêmeo e outro – p.109. – restos mortais de Indalécio.
  7. Versão do Pai Cariá – p.131. – a figura de Indaleu.

Chaves de leitura:

  1. […] (Olha para o livro). É esse aí o livro da salvação? (Dito) – p.41.
  2. […] Uma coisa é o fato acontecido, outra é o fato escrito. O fato tem de ser melhorado no escrito para que o povo creia no acontecido. (Antonio Biá) – p.58.
  3. […] Escritura é assim, gente! Homem curvo vira corcunda, gente de olho torto eu digo que é zarolho, sujeito que é manco na vida, na história eu digo que não tem perna. É assim! É das regras da escritura. (Antonio Biá) – p.64.
  4. Primeiro tenho de registrar tudo, dona! Depois é que vem o trabalho de ir aparando as borda e limpar os excessos… (Antonio Biá) – p.81.
  5. […] as duas histórias têm sustança. Num pode tirar uma sem o prejuízo da outra. (Alípio) – p.83.
  6. […] Que é que ocê (Firmino) tem pra provar? A bosta seca de Indalécio? (Valdo) – p.84.
  7. Peraí gente, isso não é história pra entrar no livro… (Deodora) – p.115.
  8. Ele (Pai Cariá) acha que o Brasil é uma parte da África. É uma aldeia grande dentro da África. (Samuel) – p.129.
  9. Aí fica complicado. Mas depois eu dou um jeito; até aqui a história vai batendo mais ou menos… (Antonio Biá) – p.133.
  10. Surge a figura de Cirilo, uma espécie de profeta de Javé. […] vive com as pedras na gruta da onça. (Firmino) – p.138.
  11. […] Eu não creio em Deus, não creio, não, senhor! E como é que eu posso ter fé, crê num camarada que de tão covarde não veio ao mundo e mandou o filho no lugar?!! (Gaudério) – p.144.
  12. […] Quanto às histórias tais, melhor ficar na boca do povo porque no papel não há mão que lhes de razão… (Antonio Biá) – p.157.
  13. […] O que nós somos é um povinho desmilinguido que quase não escreve o próprio nome, mas inventa histórias de grandeza pra esquecer a vidinha rala, sem futuro nenhum! (Antonio Biá) – p.161.

Carlos Cunha

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março 13, 2013 · 6:22 pm

O Reino entre nós

O reinado de Deus não é uma novidade exclusiva da mensagem de Jesus. A categoria “Reino de Deus” era um símbolo bem conhecido entre os israelitas. Havia entre eles a expectativa da irrupção de um reino teocrático e independente, i.é, um reino dirigido por Iavé e desvinculado dos povos pagãos. A novidade de Jesus está na resignificação que ele dá para o símbolo “Reino de Deus” já contido no coração do povo. Jesus recria a partir de sua própria experiência de vida uma nova concepção de “Reino de Deus” dando-lhe um novo horizonte de expectativa.

O “Reino de Deus” ocorre 122 vezes nos evangelhos sendo 90 vezes na boca de Cristo. A ideia transmitida é de uma revolução total e estrutural dos fundamentos desse mundo, introduzida por Deus. “Reino de Deus” não significa algo de interior ou espiritual ou mesmo que vem de cima ou que se deva esperar fora deste mundo ou depois da morte. Em seu sentido pleno “Reino de Deus” é a liquidação do pecado com todas as suas consequências na vida das mulheres e dos homens, na sociedade e no cosmos, a transfiguração total deste mundo no sentido de Deus.

A declaração de Jesus: “O Reino de Deus já chegou” (Mc 1,15) trouxe inquietação aos seus contemporâneos. Os israelitas ficaram confusos, pois o domínio político ainda era romano e as autoridades romanas se sentiram ameaçadas com os rumores de uma possível rebelião. No entanto, o “Reino de Deus” proferido por Jesus enfatiza: Deus se faz presente e atuante. Seu reinado pode ser percebido no mais profundo da vida em forma de presença salvadora. A expectativa do Reino futuro cede lugar a uma força salvadora de Deus presente e em curso.

“O Reino de Deus não vem de forma espetacular nem se pode dizer: ‘Ei-lo aqui ou ali’. No entanto, o Reino de Deus já está entre vós” (Lc 17,21). Jesus traz para a história as expectativas dos visionários que entendiam o reinado de Deus como algo espetacular ou cósmico. O reinado de Deus não é algo a ser perscrutado nos céus. É preciso captar os “sinais dos tempos” (Mt 16,3) da sua presença na realidade do dia a dia.

Com muita frequência a expressão “o Reino de Deus já está entre vós” foi mal traduzida como: “o Reino de Deus está dentro de vós” (grifo meu). Este tipo de leitura perverte o sentido proposto por Jesus e reduz o Reino de Deus a algo privado e espiritual. O que não é verdade, pois o Reino tem dimensões públicas e sociais também. Ao focar o Reino de Deus como algo individual somente, as forças libertadoras são canalizadas mais em processos terapêuticos, de cura interior, do que em movimentos de transformação social. Esta não é a única proposta libertadora do governo de Deus.

Diferente das perspectivas apocalípticas da época de Jesus, o governo divino não é algo paralelo que abruptamente se irrompe diante deste mundo perverso. A soberania de Deus já está no mundo conduzindo a vida à sua libertação definitiva. O seu reinado proclamado e vivido por Jesus luta contra a desumanização do ser humano e a favor da dignidade da vida.

Se o Reino de Deus não é um Reino cósmico muito menos é um Reino que se põe do lado dos justos e contra os pecadores. O reinado de Deus não consiste numa vitória triunfal dos santos e condenação dos pecadores. Antes o Reino do Pai amoroso consiste em libertar a todos para uma vida digna e feliz. É curioso observar como Jesus, que fala constantemente do “Reino de Deus”, não chama a Deus de “rei”, mas de “pai”. Sua soberania não é para impor-se a ninguém pela força, mas para introduzir na vida sua misericórdia e encher a criação inteira com sua compaixão. Esta misericórdia, acolhida de maneira responsável por todos, é que pode destruir Satanás, personificação desse mundo hostil que trabalha contra Deus e contra o ser humano.

A atuação de Jesus visa a construção de uma sociedade mais justa. Curar doenças e enfermidades, libertar do mal, dar ânimo e purificar a religião são alguns dos caminhos percorridos por Jesus para acolher e promover do Reino de seu Pai. O Reino de Deus não é algo etéreo. O convite a “entrar” no Reino de Deus implica em conversão (metanoia) profunda. É deixar ser transformado e transformar a vida tal como Deus a quer.

Aqueles que se associam ao projeto da implantação do governo divino não podem permanecer à mercê de um sistema que aliena e oprime o ser humano. “Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro” (Mt 6,24). Jesus introduziu um novo modelo de comportamento social. Não é possível entrar no Reino de Deus sem sair do Reino de Mamon. É preciso conversão. A mudança de vida em prol do bem de toda criação é característica da(o) cidadã(ão) do Reino de Deus. Jesus anunciou o Reino do Pai, a transformação radical deste mundo, segundo o projeto libertador do Pai. Onde há justiça, liberdade e amor, aí estão as sementes do Reino. O cristão, como discípulo de Cristo, não tem outro compromisso senão com o Espírito que nos anima na direção dessa esperança. A fé desmascara, à luz da palavra de Deus, o discurso ideológico dos dominadores. Jesus assume a identidade dos oprimidos, e neles quer ser amado e servido (cf. Mt 25, 35-36).

Pode parecer estranho o fato de Jesus ensinar os seus discípulos a oração: “Venha a nós o teu Reino” e, ao mesmo tempo, convidar todos a “entrarem” no Reino. Ao mesmo tempo, Jesus trata do governo de Deus como algo que está por chegar como algo que já está presente. Aqui não há contradições. O Reino de Deus já manifesta a sua força libertadora. Não em sua totalidade e plenitude final, mas de maneira parcial e fragmentada. O Reino divino é uma ação continuada do Pai, não uma intervenção pontual. É uma ação que pede acolhida responsável e que não se deterá, apesar de todas as resistências, enquanto não alcançar sua plena realização. Já está “germinando” um mundo novo, mas só no futuro alcançará sua plena realização.

Carlos Cunha

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