O Reino entre nós

O reinado de Deus não é uma novidade exclusiva da mensagem de Jesus. A categoria “Reino de Deus” era um símbolo bem conhecido entre os israelitas. Havia entre eles a expectativa da irrupção de um reino teocrático e independente, i.é, um reino dirigido por Iavé e desvinculado dos povos pagãos. A novidade de Jesus está na resignificação que ele dá para o símbolo “Reino de Deus” já contido no coração do povo. Jesus recria a partir de sua própria experiência de vida uma nova concepção de “Reino de Deus” dando-lhe um novo horizonte de expectativa.

O “Reino de Deus” ocorre 122 vezes nos evangelhos sendo 90 vezes na boca de Cristo. A ideia transmitida é de uma revolução total e estrutural dos fundamentos desse mundo, introduzida por Deus. “Reino de Deus” não significa algo de interior ou espiritual ou mesmo que vem de cima ou que se deva esperar fora deste mundo ou depois da morte. Em seu sentido pleno “Reino de Deus” é a liquidação do pecado com todas as suas consequências na vida das mulheres e dos homens, na sociedade e no cosmos, a transfiguração total deste mundo no sentido de Deus.

A declaração de Jesus: “O Reino de Deus já chegou” (Mc 1,15) trouxe inquietação aos seus contemporâneos. Os israelitas ficaram confusos, pois o domínio político ainda era romano e as autoridades romanas se sentiram ameaçadas com os rumores de uma possível rebelião. No entanto, o “Reino de Deus” proferido por Jesus enfatiza: Deus se faz presente e atuante. Seu reinado pode ser percebido no mais profundo da vida em forma de presença salvadora. A expectativa do Reino futuro cede lugar a uma força salvadora de Deus presente e em curso.

“O Reino de Deus não vem de forma espetacular nem se pode dizer: ‘Ei-lo aqui ou ali’. No entanto, o Reino de Deus já está entre vós” (Lc 17,21). Jesus traz para a história as expectativas dos visionários que entendiam o reinado de Deus como algo espetacular ou cósmico. O reinado de Deus não é algo a ser perscrutado nos céus. É preciso captar os “sinais dos tempos” (Mt 16,3) da sua presença na realidade do dia a dia.

Com muita frequência a expressão “o Reino de Deus já está entre vós” foi mal traduzida como: “o Reino de Deus está dentro de vós” (grifo meu). Este tipo de leitura perverte o sentido proposto por Jesus e reduz o Reino de Deus a algo privado e espiritual. O que não é verdade, pois o Reino tem dimensões públicas e sociais também. Ao focar o Reino de Deus como algo individual somente, as forças libertadoras são canalizadas mais em processos terapêuticos, de cura interior, do que em movimentos de transformação social. Esta não é a única proposta libertadora do governo de Deus.

Diferente das perspectivas apocalípticas da época de Jesus, o governo divino não é algo paralelo que abruptamente se irrompe diante deste mundo perverso. A soberania de Deus já está no mundo conduzindo a vida à sua libertação definitiva. O seu reinado proclamado e vivido por Jesus luta contra a desumanização do ser humano e a favor da dignidade da vida.

Se o Reino de Deus não é um Reino cósmico muito menos é um Reino que se põe do lado dos justos e contra os pecadores. O reinado de Deus não consiste numa vitória triunfal dos santos e condenação dos pecadores. Antes o Reino do Pai amoroso consiste em libertar a todos para uma vida digna e feliz. É curioso observar como Jesus, que fala constantemente do “Reino de Deus”, não chama a Deus de “rei”, mas de “pai”. Sua soberania não é para impor-se a ninguém pela força, mas para introduzir na vida sua misericórdia e encher a criação inteira com sua compaixão. Esta misericórdia, acolhida de maneira responsável por todos, é que pode destruir Satanás, personificação desse mundo hostil que trabalha contra Deus e contra o ser humano.

A atuação de Jesus visa a construção de uma sociedade mais justa. Curar doenças e enfermidades, libertar do mal, dar ânimo e purificar a religião são alguns dos caminhos percorridos por Jesus para acolher e promover do Reino de seu Pai. O Reino de Deus não é algo etéreo. O convite a “entrar” no Reino de Deus implica em conversão (metanoia) profunda. É deixar ser transformado e transformar a vida tal como Deus a quer.

Aqueles que se associam ao projeto da implantação do governo divino não podem permanecer à mercê de um sistema que aliena e oprime o ser humano. “Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro” (Mt 6,24). Jesus introduziu um novo modelo de comportamento social. Não é possível entrar no Reino de Deus sem sair do Reino de Mamon. É preciso conversão. A mudança de vida em prol do bem de toda criação é característica da(o) cidadã(ão) do Reino de Deus. Jesus anunciou o Reino do Pai, a transformação radical deste mundo, segundo o projeto libertador do Pai. Onde há justiça, liberdade e amor, aí estão as sementes do Reino. O cristão, como discípulo de Cristo, não tem outro compromisso senão com o Espírito que nos anima na direção dessa esperança. A fé desmascara, à luz da palavra de Deus, o discurso ideológico dos dominadores. Jesus assume a identidade dos oprimidos, e neles quer ser amado e servido (cf. Mt 25, 35-36).

Pode parecer estranho o fato de Jesus ensinar os seus discípulos a oração: “Venha a nós o teu Reino” e, ao mesmo tempo, convidar todos a “entrarem” no Reino. Ao mesmo tempo, Jesus trata do governo de Deus como algo que está por chegar como algo que já está presente. Aqui não há contradições. O Reino de Deus já manifesta a sua força libertadora. Não em sua totalidade e plenitude final, mas de maneira parcial e fragmentada. O Reino divino é uma ação continuada do Pai, não uma intervenção pontual. É uma ação que pede acolhida responsável e que não se deterá, apesar de todas as resistências, enquanto não alcançar sua plena realização. Já está “germinando” um mundo novo, mas só no futuro alcançará sua plena realização.

Carlos Cunha

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Arquivado em Reflexão teológica

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