Boa Nova da Páscoa

Deus ressuscitou Jesus. Esta é a confiança de que nós ressuscitaremos também. Toda a argumentação do apóstolo Paulo faz desta afirmativa o fundamento de fé da esperança do cristão (cf. Rm 8,11; 1Co 6,14). Essa é a esperança de quem se apoia no amor incondicional de Deus. Através da ressurreição de Jesus, Deus confirmou o seu amor pelas suas criaturas. Deus não deixa a sua criação no colapso da morte; ele a ressuscita. Deus por meio da morte-ressurreição do seu Filho se declara solidário com a criação e lhe propõe vida (cf. 1Co 15,19-22). Na morte, Deus prova que é também fiel à sua natureza. Ele opta pela vida e contra a morte, sempre e em todos os lugares. O que aconteceu com Jesus, é a essência e o âmago da Boa Nova da Páscoa e, ao mesmo tempo, a antecipação de tudo o que sucederá a cada pessoa.

Medard Kehl utiliza, inspirado em Hegel, do tríplice conceito do termo “suprassumir” (aufheben) para explicar o significado da expressão “ressurreição dos mortos”. Para Hegel, diz Kehl, “suprassumir” significa: (1) conservar; (2) revogar e (3) erguer. Tal conceito tríplice aplicado à ressurreição significa: “(1) O amor de Deus conserva tudo o que é importante na vida pessoal e na história humana para a comunhão com Deus e definitivamente reconciliada no Reino de Deus […] (2) O amor de Deus revoga tudo o que não pode ser incorporado nessa reconciliação definitiva […] (3) Todo o ‘fruto’ de nossa vida digno de conservação que levamos à consumação é aceito pelo amor de Deus e conduzido, por ele, à completa ‘maturação’ (é ‘erguido’)” (KEHL, Medard. O que vem depois do fim? São Paulo: Loyola, 2001. p.133-135). Assim ser ressuscitado por Deus é ter os bons frutos da vida conservados; é ter todas as dores e feridas revogadas e, por fim, é ser erguido por Deus para uma vida nova no desfrute da sua presença.

A ressurreição de Jesus é o modelo de nossa ressurreição e fonte de esperança cristã. Cristo traído, maltratado e abandonado na morte, mas ressuscitado e exaltado por Deus. A consciência de todo este drama faz emergir, nos que creem, a esperança sempre constante de que em cada “fim” se oculta um novo início onde os seres humanos percebem a ressurreição de Cristo e começam a viver em seu horizonte. É o renascer para uma viva esperança para além da morte, e a experimentar no vivo amor a vida eterna em seu momento de plenitude. A vida eterna é conhecer a si mesmo em Deus e Deus em si mesmo. A visão de Cristo e as experiências na comunhão em Cristo são as bases para as noções cristãs de vida eterna e de mundo futuro. A ressurreição de Cristo não é somente o início cronológico da fé cristã, mas é também sua origem eterna.

A esperança da ressurreição não é apenas para mim, mas também para o outro. Não se deve dizer egoisticamente da “minha ressurreição”, mas da “nossa ressurreição”. A de Cristo deve ser vista de forma plena, exemplar e modelo da nossa. O que aconteceu com Ele revela o que acontece conosco. É um único ato que se prolonga no tempo e na história tendo Cristo como centro revelador e salvador.

Em Jesus Cristo ressuscitado, o Absoluto se autocomunica. O Absoluto nos veio ao encontro e começou a realizar a plenitude derradeira e definitiva. Jesus Cristo é o primeiro dentre muitos irmãos (Rm 8,29; 1Co 15,20; Cl 1,18). O impossível ao ser humano – vida eterna após a morte – se mostrou possível para Deus (cf. Mt 19,26; Lc 1,37; 18,27). O Absoluto e misterioso uniu a si o ser humano de tal forma que com ele fez uma história. Assim realizou definitivamente o ser humano em Deus. Quando afirmamos e cremos nisso, cremos e afirmamos a fé na ressurreição de Deus. O futuro de Jesus Cristo, feito presente dentro da história pela ressurreição, é o futuro da humanidade. Por isso, os cristãos o louvam como a comunidade primitiva: “Cristo é a nossa esperança” (Cl 1,27).

Compreender a ressurreição de Cristo como realização plena e modelo da nossa dá sentido profundo à existência temporal. O próprio Paulo atestou o fruto desta visão na espiritualidade presente: “Mas se morremos com Cristo, temos fé que também viveremos com ele” (Rm 6,8). Já se inicia o que seremos e porque já está em curso o que seremos é que devemos, cada vez mais, realizar nEle o que ainda somos: “se vivemos pelo Espírito, procedamos também de acordo com o Espírito” (Gl 5,25; cf. Rm 6,1-7; 8,1-17).

A ressurreição não só ilumina a vida de Jesus como revela também a nossa. Esta é a raiz do chamado de Jesus ao seguimento. Sua ressurreição, tendo alcançado a plenitude da realização humana, mostra que o caminho de sua vida é verdadeiro para qualquer ser humano. Vivendo como ele, ressuscitaremos como ele. Por isso Jesus é o verdadeiro caminho (cf. Jo 14,6).

Carlos Cunha

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Reflexão teológica

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s