Arquivo do mês: abril 2013

Creio em Jesus Cristo (parte II)

A pessoa, a vida, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo são centrais para a fé cristã. “Cristianismo é Cristo”. A pessoa e a obra de Jesus constituem a fonte, o centro e o fim, de tudo o que o cristianismo significa e anuncia ao mundo.

Por Jesus Cristo os cristãos aprendem a descobrir quem é, realmente, Deus, quem são os seres humanos, qual a sua verdadeira origem e destino, qual o significado e o valor do mundo e da história, qual o papel da Igreja como guia da humanidade em seu peregrinar pelos séculos afora.

Contudo, Cristo, não exaure o mistério de Deus, antes, aponta para ele. Cristocentrismo e teocentrismo não se opõem. O primeiro implica e exige o segundo. Jesus Cristo não é um meio-termo entre Deus e os seres humanos. Ele não é um “intermediário” que, não sendo nem um nem outro dos extremos que se quer unir, tenta, em vão, cobrir o abismo que separa o infinito do finito. Ele é o “mediador” no qual as duas extremidades estão juntas, de forma irrevogável, porque é, pessoalmente, uma e outra.

Como Homem-Deus, Jesus Cristo, o Filho encarnado, é o “caminho” para o Pai, que está além do mediador. Exprime-o, claramente, o Evangelho de João, quando mostra Jesus dizendo: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (14,6).

A cristologia encerra um paradoxo: de um lado, encontramos Deus no homem Jesus, do outro, o Pai permanece além do próprio Jesus. (Jo 1,18; 14,6;9;28; Mc10,18). A revelação de Deus no homem Jesus não esgotou o mistério divino, nem poderia fazê-lo, como também não o esgotou a consciência humana que Jesus teve dele, nem poderia fazê-lo. A consciência de Jesus é essencialmente filial.

A cristologia leva-nos à teologia, ao Deus que se revela, de modo o mais decisivo, em Jesus Cristo, e ao mesmo tempo permanece envolvido no mistério. Nos últimos tempos, o desenvolvimento dos estudos cristológicos e teológicos confirma esse processo: a reflexão teológica vai ao Cristo de Deus ao Deus de Jesus, da cristo-logia à teo-logia.

Jesus Cristo, na qualidade de mediador, ocupa o centro do plano divino para a humanidade. Ele é o canal por onde Deus vem até o ser humano e este vai até Deus. Em última análise, no qual Deus se revela, pessoalmente, ao ser humano e este consegue vislumbrar quem é Deus. Daí resulta que é também em Jesus Cristo que o ser humano chega a se conhecer, plena e verdadeiramente.

Expressão disso se encontra na Constituição Pastoral Gaudium et spes, do Concílio Vaticano II: “Cristo manifesta plenamente o homem ao próprio homem e lhe confere a sua altíssima vocação” (GS 22).

“O homem é mais que o homem”; ele é convidado a transcender a si mesmo, embora sozinho não possa atingir essa autotranscendência, mas deva recebê-la como dom divino. Em Jesus Cristo, o ser humano transcende a si mesmo até Deus, graças à descida de Deus até a condição humana.

Partícipe da filiação divina em Jesus Cristo, o ser humano encontra nele a plena realização de sua abertura para Deus. A divinização do ser humano no Deus-homem leva a humanização ao ápice. Nenhuma antropologia pode se declarar cristã, se não buscar em Jesus o sentido último do ser humano. Sem cristologia não existe antropologia cristã.

O texto é síntese de: DUPUIS, Jacques. Introdução à cristologia. 3.ed. São Paulo: Loyola, 2007.p.7-12

 Carlos Cunha

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Atualizado em 24/4/2013

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Creio em Jesus Cristo (parte I)

As narrativas dos evangelhos de Marcos (8,29) e Mateus (16,15) se caracterizam por mostrar Jesus Cristo a partir da pergunta basilar: “E vós, quem dizeis que eu sou?”. Os dois discípulos contam qual era a ideia que o povo tinha de Jesus: “João Batista; outros, Elias; outros ainda, um dos profetas” (Mc 8,28). Mas Pedro respondeu: “Tu és o Cristo” (Mc 8,29) ou: “Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo” (Mt 16,16).

A resposta de Pedro pode ser assumida, simbolicamente, como a primeira afirmação cristológica. Mas, na realidade, era como que uma antecipação, uma preparação da fé cristológica, que desabrocharia na Páscoa. A confissão petrina também perpassa o conteúdo da primeira pregação querigmática da Igreja apostólica. O próprio Pedro, no dia de Pentecostes, deixou transparecer o ponto alto da sua mensagem, a primeira pregação cristã: “Saiba, portanto, com certeza, toda a casa de Israel: Deus o constituiu Senhor e Cristo, este Jesus a quem vós crucificastes” (At 2,36).

Nascia assim o núcleo da fé cristológica primitiva. Os títulos “Cristo”, “Senhor” e “Filho de Deus” ocuparam o lugar central na confissão de fé das primeiras comunidades cristãs. Atribuía-se ao homem Jesus (nome próprio Yeshua), um título particular (masiah, o ungido, o cristo), emprestado à terminologia teológica do Primeiro Testamento. Logo, a confissão de fé “Jesus é o Cristo” evoluiria para “Jesus, o Cristo” e, posteriormente, para o nome composto “Jesus Cristo”.

Jesus foi o Cristo, o Ungido, o Messias, o Filho de Deus para os seus primeiros discípulos. E para nós, quem é Jesus Cristo? Quem é Jesus Cristo para o cristão do século XXI? Quem é Jesus Cristo para o ser humano hodierno inserido em um mundo “líquido”? Eu explico: Para o sociólogo Zygmunt Bauman, “mundo líquido” é um mundo que:

“jamais se imobiliza nem conserva sua forma por muito tempo. Tudo ou quase tudo em nosso mundo está sempre em mudança […] esse mundo, nosso mundo liquido moderno, sempre nos surpreende; o que hoje parece correto e apropriado amanhã pode muito bem se tornar fútil, fantasioso ou lamentavelmente equivocado”[1].

Em um mundo assim, com tantas dúvidas e incertezas, vazio de verdades fundamentais e absolutas, quem é Jesus Cristo? E mais: Qual é a relevância da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo para hoje? O que Jesus Cristo tem a dizer atualmente? Por que falar sobre ele? Como falar dele para as sociedades atuais?

Carlos Cunha

[1] BAUMAN, Zygmunt. 44 cartas do mundo líquido moderno. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.p.7,8.

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Como ler a Bíblia?

Para os cristãos, a leitura da Bíblia é uma atividade fundamental. Será que sabemos “ler” as Sagradas Escrituras? Cada vez que a tomamos nas mãos, lembramo-nos de que a Bíblia é uma obra literária?

A leitura bíblica efetiva é norteada pela retidão (coração certo) e pela exatidão (mente certa). Ler, portanto, é decifrar, decodificar. Uma leitura competente pergunta pelo: 1. Autor – quem elaborou o texto? 2. Destinatário originário – a quem foi, primeiramente, destinado o texto? 3. Escopo do autor – com qual intenção escreveu? 4. Tema – qual o conteúdo? 5. Código – como? Qual a forma? Com quais palavras? 6. Tempo – quando? 7. Lugar – Onde? 8. Destinatário atual – quem é o atual leitor? 9. Aproximação – como decifrar o código? 10. Escopo do leitor – com qual intenção lê?

Qualquer trabalho exegético (compreender o texto em si mesmo) e hermenêutico (compreender o texto além de si mesmo) que não leva em consideração perguntas pela composição e contextualização do texto é incompleto. Diacronia e sincronia são movimentos complementares na busca pela apreensão da Bíblia. Portanto, caveat lector – acautele-se o leitor. Leia a Bíblia corretamente. Para isso, é necessário reunir todas as ajudas disponíveis para adquirir habilidades na leitura das Escrituras, habilidades que “integrem mentes afiadas e corações devotos” (Eugene Peterson).

Assim, gostaria de sugerir um caminho para a leitura competente da Bíblia.

1º. Momento – Aproximação ao texto

1.      Leitura atenta do texto
2.      Leitura comparativa entre versões – utilize 2 versões oriundas da correspondência formal (ex. Bíblia de Jerusalém e Bíblia de estudo Almeida) e duas versões oriundas da equivalência dinâmica (ex. Bíblia Pastoral e Nova Versão Internacional)

Anotações gerais (anote as primeiras impressões)

3.      Meditação

Perguntas de ordem pessoal – Qual é a primeira impressão que o texto provoca? O que ele comunica para mim nesta primeira leitura?
Perguntas de ordem eclesial – Quais são as implicações do texto para a minha espiritualidade pessoal e vida eclesio-social?

Anotações gerais

2º. Momento – Análise do contexto

1.      Qual é o gênero literário e as suas características?
2.      Contexto histórico geral

Quem é o autor?
Qual o objetivo da obra?
Quais são as características teológicas?
Quando (datação) e onde (lugar) a obra foi composta?
Faça um esboço da obra

3.      Contexto específico

Delimitação do texto
Perícopes anterior e posterior
Texto dentro do bloco narrativo
Relação do texto dentro do Evangelho
Relação do Evangelho dentro do Novo Testamento
Relação do Novo Testamento dentro da Bíblia

Anotações: Como a delimitação do texto ajuda na compreensão da perícope?

3º. Momento – Análise de conteúdo

1.      Significado original dos principais termos da perícope (uso do léxico e dicionário teológico)
2.      Que tipo de alusões históricas e teológicas existem por trás das palavras utilizadas pelo autor?
3.      Quadro sinótico (Mt / Mc / Lc)

Anotações: Quais são as diferenças entre os autores sinóticos? Por quê?

4.      Quadro comparativo entre versões (BJ/BA, BP/NVI)

Anotações: Destaque as diferenças

4º. Momento – Atualização do texto

  1. O que o texto tem a dizer? (dimensões: existencial, pastoral e social)

Carlos Cunha

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Introdução à Teologia

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abril 2, 2013 · 5:15 pm