A teologia pública de Jesus

imagesYPPPRJXBLogo no início do Sermão da Montanha, o evangelho de Mateus afirma que “Jesus via as multidões” (5,1). Que interessante é esse olhar de Jesus. O “ver” de Jesus é macro; é amplo. Ele via as multidões de todas as partes: Galileia, Decápole, Jerusalém, Judeia e Transjordânia. Jesus conhecia as pessoas que o cercavam. O seu olhar não era só macro, mas era micro também. Ele via as multidões, mas via o indivíduo também. É assim que ele dá vista ao cego (Mc 8,23), levanta o coxo (Mt 21,14), cura uma mulher com fluxo (Lc 8,43), liberta o endemoninhado (Mt 9,32), dá água a uma samaritana (Jo 4,9), chama o sujeito pelo nome (Jo 1,48), enfim, Jesus conjuga o olhar macro e micro próprio de quem tem profunda percepção da realidade. Os seus feitos são dignos de quem via a realidade com profundidade.

Jesus não só via a realidade com profundez como também conhecia os seus seguidores intimamente. O próprio evangelho de Mateus afirma que ele tinha com-paixão das pessoas porque “estavam cansadas e abatidas como ovelhas sem pastor” (9,36). O “ver” de Jesus é um ver para além do fenômeno. Este olhar profundo dá consistência à sua mensagem, legitima a suas ações e cria empatia com as pessoas, gerando o seguimento de quem reconhece nele autoridade (cf. Mt 7,28-29).

Uma teologia cristã que almeja ser pública precisa se inspirar no modo de ver de Jesus. Teologia contextualizada e pertinente é fruto do labor de quem está a caminho num processo constante de reestruturação diante do dinamismo da vida. A teologia é uma atividade dinâmica, refletiva, humana e falível. Nunca se imagina que ela seja exaustiva ou que tudo abranja. Os aspectos da vida mudam com o tempo, de modo que o teólogo deve voltar e pensar, de tempos em tempos, quais são as implicações, para o presente, das verdades teológicas percebidas no passado.

Ver o mundo e o humano ao mesmo tempo e com profundidade é condição fundamental para o discurso teológico contemporâneo. É tempo de teologias inacabadas, criativas, e em construção por sujeitos que se encontram a caminho. O “teólogo se faz vivendo”, diz Jürgen Moltmann. A tarefa da teologia vai para além das fronteiras da Igreja. É mais do que um discurso igrejeiro. “Toda teologia é um discurso público”, afirma David Tracy. É teologia pública porque o reino de Deus é público. A publicidade da teologia consiste em compartilhar os sofrimentos desta época e formular suas esperanças em Deus. É isso que Jesus fazia e é isso que devemos fazer também.

Carlos Cunha

2 Comentários

Arquivado em Reflexão teológica

2 Respostas para “A teologia pública de Jesus

  1. MARIO BARROS

    Excelente reflexão… Carlos foi meu professor por 4 aulas no Colégio Sto Antônio, mas o suficiente para admirá-lo como mestre! Abs,

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