Em busca de uma teologia pública

imagesTIBLYSMDNem sempre as pessoas sabem o significado de teologia, sua tarefa e a função do teólogo. Com muita frequência, associam o estudo da teologia à vida clerical, ao trabalho eclesiástico e a atividade missionária. Quando dizemos que estudamos teologia, as pessoas olham perplexas e dizem: “Teologia! Você quer ser pastor?”. Elas associam a teologia à vida religiosa e, portanto, ao ambiente de Igreja. Resultado: teologia é coisa de Igreja.

A teologia pagou um preço alto por reduzir a sua tarefa à dimensão do mundo eclesiástico. Por muitos anos, o estudo da teologia esteve vinculado aos seminários teológicos e preocupado com situações internas referentes à doutrina, dogma, ética e moral da vida do religioso e assuntos diversos inerentes aos sujeitos vinculados ao círculo da Igreja. Com o surgimento das universidades na Idade Média, a teologia avança enquanto ciência, elabora diálogos em torno de assuntos para fora dos portões da Igreja, mas continua vinculada à Igreja sendo autorizada por bulas papais. Isto é, a teologia estava sob a chancela do papado.

O estigma da vinculação entre teologia e Igreja, principalmente a concepção que se criou sobre as ciências como servas da teologia (ancilla theologiae), levou a teologia para o exílio na modernidade. Sem se contextualizar e impossibilitada de dialogar com a cultura moderna emergente, a teologia habitou as margens da sociedade onde refugiam as questões encobertas. A teologia não compartilhava os grandes interesses que interpelavam a modernidade. Não havia habilidade e nem competência para tratar de assuntos comuns a toda humanidade.

Na contemporaneidade, a teologia aos poucos vai saindo do gueto religioso e tomando espaços públicos. A caminhada é tímida, mas é um caminhar. A proposta desta reflexão não é só objeto da minha pesquisa de doutorado como é também uma resposta da minha caminhada enquanto teólogo. Comecei os meus estudos teológicos em um seminário vinculado a uma Igreja Batista. Os temas eram relacionados à denominação batista e às necessidades apologéticas da Igreja diante as ameaças do “mundo”. Um fazer teológico amarrado à realidade da igreja local e quando muito à Igreja de Cristo frente aos dilemas da atualidade. Progressista entre nós era aquele que se envolvia com a Missão Integral e sua tarefa para além da Igreja.

Do seminário local, comecei a participar de seminários interdenominacionais, congressos e palestras vinculados à teologia da Missão Integral. Foi um passo importante na minha caminhada teológica, mas insuficiente para àquilo que pretendia. Fui para uma faculdade de teologia logo quando o MEC reconheceu a teologia como curso superior. Foi uma experiência enriquecedora, mas ainda continuava com a sensação de que a teologia estava presa às demandas da Igreja e não avançava nas discussões públicas. Permanecer no ambiente acadêmico foi importante porque foi lá, em contato com teologias em diálogo com as culturas, que eu comecei a encontrar um sentido mais pleno para a teologia. Nunca me conformei com o reducionismo teológico, igrejeiro, de gueto, ausente nas conversações públicas.

A teologia não se reduz somente ao ambiente da igreja. A teologia é pública. Sem um conceito único e autoritativo, a teologia pública busca ser uma contribuição de comunidades religiosas nas sociedades democráticas plurais e da teologia acadêmica que sobre elas reflete, crítica e autocriticamente, para o debate público. Ela procura ser uma teologia separada do âmbito da política, sem ser alienada, num estado secular de direito, que reconhece plenamente a liberdade religiosa e no qual ela procura contribuir como parceira crítico-construtiva para o bem comum. Para isso, assume o seu caráter acadêmico, plural, inter e transdisciplinar.

Para o teólogo protestante, Jürgen Moltmann, a teologia cristã é teologia pública por causa do Reino. Deve fazê-lo sempre de forma correlativa. Ela deve ser, ao mesmo tempo, conforme a Escritura e contextual. Ela torna-se uma teologia pública, que compartilha os sofrimentos desta época e que formula suas esperanças em Deus no lugar em que vivem os seus contemporâneos. A novidade e diversidade do Reino de Deus, que não cabem nas igrejas, exigem que a teologia seja pública.

Já para David Tracy, teólogo católico, toda teologia é um discurso público. Se pretende-se mostrar o caráter público de toda teologia, tornar-se imperativo estudar primeiro os “públicos” do teólogo. Tracy elege três públicos: a sociedade, a academia e a Igreja. Assim a tarefa da teologia consiste em abrir um diálogo com esses três públicos a fim de ser relevante no atual contexto.

Carlos Cunha

4 Comentários

Arquivado em Reflexão teológica

4 Respostas para “Em busca de uma teologia pública

  1. Meu caro amigo Carlos Cunha! É sempre muito bom ouvi-lo. Mencionaste David Tracy e Jurgen Moltmann, como defensores da teologia pública. Me corrija se estiver equivocado, mais não deveria ser essa a posição de todos que creem no Evangelho e em Jesus? É que não vejo Jesus buscando ambientes de confrarias secretas ou elitizadas para expor o Reino.

    • Olá, Hélio. Obrigado pela sua visita. O seu raciocínio está certa: “deveria”. O evangelho de Jesus é público; é para todas e todos. Mas, infelizmente, com o tempo, e por diversos motivos, a teologia acabou exilada para o interior da comunidade de fé e longe das discussões públicas. A tarefa da teologia pública consiste em resgatar a dimensão da publicidade de uma teologia que tem o que dizer às sociedades plurais. Há uma reflexão no blog sobre a “teologia pública de Jesus”. Dê uma olhada. Abraço.

  2. A teologia além de enfrentar o baixo conhecimento Teológico das igrejas enfrenta também o preconceito na academia, quando outros saberes também querem reduzir a Teologia a igreja e a religião, enfrentei isso quando fiz uma especialização em uma universidade em BH, me especializando em uma área totalmente diferente e quando me apresentava eu dizia que havia graduado em Teologia. todos olhavam pra mim e muitas vezes os professores preconceituosos me perguntavam duas vezes no intuito de repetir minha graduação não entendendo alguns que Teologia também é saber acadêmico e está regulamentado pela legislação do MEC no país, acredito que o tema é oportuno é desafiador e tenho a concepção que a Teologia como saber acadêmico agrega também outros saberes principalmente antropológicos e culturais e que faz refletir, pensar e principalmente crer.

    • Caro Roberto, obrigado por seu comentário.
      Concordo com você que a teologia não tem tido o reconhecimento devido dentro da academia. Além da suspeita sobre o status de ciência, a teologia enfrenta os problemas decorrentes da falta de investimento dos órgãos competentes para a pesquisa, congressos e demais eventos que fomentem o desenvolvimento da área. Precisamos pôr a teologia nas grandes discussões da atualidade com a sua própria palavra e relevância.
      Abraço,
      Carlos.

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