Arquivo do mês: junho 2015

O pensamento sistêmico de Frijof Capra

O físico Frijof Capra (1939-) é um dos porta-vozes de um grupo de cientistas que ousa imagesromper as fronteiras das disciplinas e estabelecer encontros fecundos entre vários campos do conhecimento. Diálogos inter/transdisciplinares entre fenômenos psicológicos, biológicos, físicos, sociais e culturais compõem o leque de pesquisa de Capra que gestados sobre um novo paradigma desafiam as visões reducionistas da realidade e, ao mesmo tempo, propõem novas teorias com implicações filosóficas, teológicas e sociais.

Para desenvolver o seu pensamento sistêmico, Capra mostra como a revolução conceitual da física contribuiu para uma profunda visão de mundo. A ideia fixista do mundo decorrente basicamente da filosofia analítica cartesiana e da física newtoniana, que, somadas, reforçam a concepção mecânica do universo perdeu espaço para uma concepção holística e complexa da vida. Com a física quântica, a ciência descobre uma lógica da complexidade que envolve o universo em diversos níveis composto por sistemas interativos e interligados. A própria palavra “uni-verso” sugere uma unidade a partir do diverso, não em um mecanismo rigidamente determinado, desencantado e sem vida, mas algo cheio de criatividade e de virtualidade. O universo não é fabricação de coisas prontas. Antes, é um campo aberto com dinamismo interno e com potencialidades imanentes de criatividade. (CAPRA, 2013)

Para a elaboração de um modelo de vida sustentável, Capra pergunta pela vida. Segundo ele, o processo básico da vida assenta-se sobre o metabolismo como fluxos ininterruptos de energia e matéria através de uma rede de reações químicas, que permitem a um organismo vivo gerar, reparar e perpetuar a si mesmo continuamente. A palavra “rede” aqui é crucial para o pensamento sistêmico. As redes constituem-se no padrão básico de organização de todos os sistemas vivos. Todos são sistemas em redes. (CAPRA, 2006)

Para o pensamento sistêmico, as relações são fundamentais. O universo é visto como uma teia dinâmica de eventos inter-relacionados com uma rede de relações entre as várias partes de um todo unificado. O universo aparece como um “complicado tecido de eventos, no qual conexões de diferentes tipos se alternam, se sobrepõem ou se combinam e, por meio disso, determinam a textura do todo” (HEISENBERG apud CAPRA, 2006, p.42).

A percepção ecológica profunda reconhece a interdependência fundamental de todos os fenômenos. Ela vê o universo como uma rede de fenômenos interconectados e interdependentes; reconhece o valor intrínseco de todos os seres vivos e concebe os seres humanos como um fio particular da teia da vida. (CAPRA, 2006)

Na visão sistêmica, o todo não é a soma das partes. As propriedades de um sistema vivo são propriedades do todo, que nenhuma das partes possui. Elas surgem quando há interações e relações entre as partes. Dissecar tal sistema é provocar o isolamento de todo o sistema gerando a sua destruição e consequentemente a sua morte. A compreensão de que os sistemas são totalidades integradas em constante conexão provocou mudanças não só na física e na biologia, mas em todas as áreas do saber, inclusive, na teologia. A composição entre os campos do saber e a integração entre o conjuntos de seus próprios sistemas permitem uma visão, não totalizante, mas mais apurada da realidade. Não podemos decompor o mundo em unidades elementares a fim de compreender um todo unificado que é fruto de relações complexas entre as partes. (CAPRA, 2005)

Carlos Cunha 

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CAPRA, Frijof. As conexões ocultas: ciência para uma vida sustentável. São Paulo: Cultrix, 2005.

______. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São Paulo: Cultrix, 2006.

______. O tao da física: uma análise dos paralelos entre a física moderna e o misticismo oriental. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 2013.

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Audiência Pública: ensino religioso em escolas públicas

A CONVOCAÇÃOuntitled

Passei o dia inteiro desta segunda-feira (15/6/2015) ligado na TVJUSTIÇA assistindo a audiência pública para discutir o ensino religioso em escolas públicas. A audiência foi convocada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso. O problema de fundo da audiência é para subsidiar o julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 4439, em que a Procuradoria Geral da República questiona o ensino religioso confessional (aquele vinculado a uma religião específica) nas escolas da rede oficial de ensino do país. “O que eu espero é saber o que pensam os representantes das religiões, os representantes de órgãos de educação, intelectuais e pensadores de questões teológicas”, afirmou Barroso.

OS CONVOCADOS

A audiência suscitou interesse e muitos preocupados com o tema, de diversas confissões e instituições, buscaram participar. Foi necessária uma seleção. Assim, um pouco mais de 30 entidades foram habilitadas para participar das exposições. Grupos religiosos e associações de pesquisas acadêmicas deram o seu parecer sobre o tema elencado.

A AUDIÊNCIA

O debate aconteceu em dois períodos: manhã e tarde. Mais de 9 horas de exposição de argumentos que inclinavam para: 1) separação entre Estado e confissão religiosa; 2) ensino religioso não-confessional; 3) ensino religioso confessional fora do espaço público e 4) sugestões de um novo modelo educacional que abarque a dimensão da fé sem ser proselitista.

MEUS PITACOS

  1. O período da manhã exigiu muita, mas muita paciência. Por quê? Muitos dos que ali estavam não entenderam o objeto da audiência. Discutiam se deve ou não ter ensino religioso nas escolas públicas. Tá bom. A discussão é boa, mas não é esta a pergunta. A pergunta é: o ensino religioso das escolas públicas deve ou não ser confessional? O ministro, com paciência de Jó, citou que, atualmente, o ensino religioso está previsto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e no Decreto 7.107/2010, acordo assinado entre o Brasil e o Vaticano. No entanto, só pode ser oferecido se o conteúdo programático da disciplina consistir na exposição “das doutrinas, práticas, histórias e dimensão social das diferentes religiões”, sem que o professor tome partido.
  2. A confusão epistemológica entre Teologia e Ciências das religiões esteve presente quando se tratou sobre que tipo de professor está habilitado para o ensino religioso. O desconhecimento das duas áreas citadas ainda é um problema na avaliação dos programas de ensino. A confusão também esteve presente na utilização de termos como: religião, religiosidade, laico, laicidade, laicização e leigo. Estou tonto até agora com os equívocos.
  3. Algumas exposições tiveram traços de pedantismo acadêmico e provincianismo religioso. No primeiro caso, o sujeito expôs o seu currículo, falou, falou e não falou nada! Não teve uma proposta sequer, própria de gente fechada na academia se sem participação na realidade educacional do país. Já no segundo caso, o estranhamento veio por parte de líderes religiosos que, tomados por discurso de gueto religioso, usaram da oportunidade para “vender o seu peixe”. Um horror!
  4. Mas também teve bons diálogos. Só a convocação pública feita pelo ministro já assinala uma evolução no processo educacional do país. Fiquei impressionado com a lucidez e a exposição da professora e pesquisadora Debora Diniz, da ANIS (Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero). Ela não só falou a partir de conhecimento de causa como fez sugestões pertinentes ao levantar a questão sobre o conteúdo do material didático das escolas públicas. Baseada em pesquisa de campo, Debora relatou a linguagem sectária e exclusivista dos livros didáticos e apontou os erros para uma sociedade que busca ser plural e inclusiva.
  5. Senti falta de duas representações específicas. A primeira foi a SOTER (Sociedade de Teologia e Ciências da Religião) que poderia dar uma ótima contribuição ao debate. Tal audiência tem tudo a ver com a Sociedade. Depois, a presença do pentecostalismo foi reduzida à Assembleia de Deus. Ok. É a maior igreja pentecostal do Brasil, mas poderíamos ouvir outras comunidades. Os dados religiosos do Brasil mostram a presença massiva de filhos de pais pentecostais nas escolas públicas. Não seria importante ouvi-los?

Há muita coisa para dizer, mas fico por aqui na certeza de boas discussões futuras. Fico feliz com a iniciativa da audiência e faço votos para que o ministro Barroso tome o rumo certo na orientação do tema em pauta.

 Carlos Cunha

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Em busca de uma teologia consciente, inconclusa e criativa

imagesBCZWNAJWO escritor, biólogo e jornalista moçambiquenho Mia Couto no texto Repensar o Pensamento, Redesenhando Fronteiras ilustra a imagem física e abstrata suscitadas pelo signo “fronteira” e o desafio para o pensamento: “Nosso pensamento, como toda a entidade viva, nasce para se vestir de fronteiras. Essa invenção é uma espécie de vício de arquitetura: não há infinito sem linha do horizonte. Desde a mais pequena célula aos organismos maiores, o desenho de toda a criatura pede uma capa, um invólucro separador. A verdade é esta: a vida tem fome de fronteiras. É assim que se passa e não haveria nada a lamentar. Porque essas fronteiras da natureza não servem apenas para fechar. Todas as membranas orgânicas são entidades vivas e permeáveis. São fronteiras feitas para, ao mesmo tempo, delimitar e negociar. O ‘dentro’ e o ‘fora’ trocam-se por turnos”.

A fronteira é cheia de oportunidades e rica em novas possibilidades e desafios. O espaço fronteiriço desinstala o sujeito da zona de conforto e o provoca a mudança. Na fronteira, a ordem dá lugar à desordem e o simples cede espaço ao complexo. Segundo Couto: “Precisamos de modelos para entender um universo (que é, afinal, um pluriverso ou um multiverso) e que foi construído em permanente mudança, no meio do caos e do imprevisível. Esses modelos simplificam o que só pode ser entendido como entidade complexa e complicam o que só em simplicidade pode ser apreendido”.

As palavras de Couto mostram que a fronteira é o melhor lugar para romper com a inércia, o medo do diferente, e adentrar novos conhecimentos, novas experiências, uma visão mais ampla do mundo e do humano.

Pensar a teologia, especificamente no âmbito teórico-teológico, a partir do conceito de fronteira é colocá-la em um espaço propício para que ela, ao mesmo tempo, acolha a inquietação do lugar e manifeste a sua própria palavra, quer dizer, a teologia é interpelada pela estrutura teórica de outros conhecimentos a dizer o que lhe é próprio. Uma teologia de fronteira evidencia-se, sobretudo, na relação que ela institui entre religião e cultura secular, mediado por correlações, segundo o qual o conteúdo da revelação cristã se apresenta e demonstra como resposta às perguntas cruciais que brotam da existência do ser humano na modernidade.

A teologia faz da fronteira o lugar ideal para que haja intercâmbio entre as situações concretas da vida e a perspectiva da fé. A fronteira é ambiente de mobilidade, andança, no qual se permitem encontros com “o novo”. Na linguagem teológica, o espaço do “entre-lugares”, seria como um evento kairótico, em que a esperança do “além” entre os que dialogam, alimenta a expectativa da novidade por outro lugar.

Somos desafiados na contemporaneidade a sair da zona de conforto do interior da confissão e buscar os espaços de fronteira para um labor teológico que seja: 1) consciente – disposto ao diálogo com outras áreas da realidade na busca pela integração entre os conjuntos dos seus próprios sistemas permitindo uma visão ampla, não totalizante, mas mais apurada da vida e uma participação efetiva no espaço público; 2) inconcluso – ao assumir a metodologia transdisciplinar como possibilidade de abertura ao diferente e pela redefinição do seu lugar na vida e do seu papel no diálogo mundial, seja ele entre as ciências, as sabedorias e as tradições sociais e 3) criativo – capaz de se refazer de maneira nova e relevante diante da sociedade, da universidade e da Igreja.

Carlos Cunha

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