Em busca de uma teologia consciente, inconclusa e criativa

imagesBCZWNAJWO escritor, biólogo e jornalista moçambiquenho Mia Couto no texto Repensar o Pensamento, Redesenhando Fronteiras ilustra a imagem física e abstrata suscitadas pelo signo “fronteira” e o desafio para o pensamento: “Nosso pensamento, como toda a entidade viva, nasce para se vestir de fronteiras. Essa invenção é uma espécie de vício de arquitetura: não há infinito sem linha do horizonte. Desde a mais pequena célula aos organismos maiores, o desenho de toda a criatura pede uma capa, um invólucro separador. A verdade é esta: a vida tem fome de fronteiras. É assim que se passa e não haveria nada a lamentar. Porque essas fronteiras da natureza não servem apenas para fechar. Todas as membranas orgânicas são entidades vivas e permeáveis. São fronteiras feitas para, ao mesmo tempo, delimitar e negociar. O ‘dentro’ e o ‘fora’ trocam-se por turnos”.

A fronteira é cheia de oportunidades e rica em novas possibilidades e desafios. O espaço fronteiriço desinstala o sujeito da zona de conforto e o provoca a mudança. Na fronteira, a ordem dá lugar à desordem e o simples cede espaço ao complexo. Segundo Couto: “Precisamos de modelos para entender um universo (que é, afinal, um pluriverso ou um multiverso) e que foi construído em permanente mudança, no meio do caos e do imprevisível. Esses modelos simplificam o que só pode ser entendido como entidade complexa e complicam o que só em simplicidade pode ser apreendido”.

As palavras de Couto mostram que a fronteira é o melhor lugar para romper com a inércia, o medo do diferente, e adentrar novos conhecimentos, novas experiências, uma visão mais ampla do mundo e do humano.

Pensar a teologia, especificamente no âmbito teórico-teológico, a partir do conceito de fronteira é colocá-la em um espaço propício para que ela, ao mesmo tempo, acolha a inquietação do lugar e manifeste a sua própria palavra, quer dizer, a teologia é interpelada pela estrutura teórica de outros conhecimentos a dizer o que lhe é próprio. Uma teologia de fronteira evidencia-se, sobretudo, na relação que ela institui entre religião e cultura secular, mediado por correlações, segundo o qual o conteúdo da revelação cristã se apresenta e demonstra como resposta às perguntas cruciais que brotam da existência do ser humano na modernidade.

A teologia faz da fronteira o lugar ideal para que haja intercâmbio entre as situações concretas da vida e a perspectiva da fé. A fronteira é ambiente de mobilidade, andança, no qual se permitem encontros com “o novo”. Na linguagem teológica, o espaço do “entre-lugares”, seria como um evento kairótico, em que a esperança do “além” entre os que dialogam, alimenta a expectativa da novidade por outro lugar.

Somos desafiados na contemporaneidade a sair da zona de conforto do interior da confissão e buscar os espaços de fronteira para um labor teológico que seja: 1) consciente – disposto ao diálogo com outras áreas da realidade na busca pela integração entre os conjuntos dos seus próprios sistemas permitindo uma visão ampla, não totalizante, mas mais apurada da vida e uma participação efetiva no espaço público; 2) inconcluso – ao assumir a metodologia transdisciplinar como possibilidade de abertura ao diferente e pela redefinição do seu lugar na vida e do seu papel no diálogo mundial, seja ele entre as ciências, as sabedorias e as tradições sociais e 3) criativo – capaz de se refazer de maneira nova e relevante diante da sociedade, da universidade e da Igreja.

Carlos Cunha

2 Comentários

Arquivado em Reflexão teológica

2 Respostas para “Em busca de uma teologia consciente, inconclusa e criativa

  1. DIVINO OLIVEIRA DE LIMA

    Boa tarde amado Carlos Cunha.
    Fui seu aluno no CPN, onde aprendi a respeitá-lo pela clareza e profundidade de suas aulas,sempre instigantes e provocadoras.
    Estou hoje fazendo Convalidação no IECEB(última colação de grau,na igreja OMEB-onde sou o pastor titular) e tenho por trabalho um Artigo Científico- Teoria Sistêmica Teológica . Me indique por favor ´livros para consulta e pesquisa. No aguardo,respeitosamente

    DIVINO OLIVEIRA DE LIMA.
    E

    • Olá, Divino.
      Espero que esteja bem.
      Com relação a sua solicitação, penso que o livro do Clodovis Boff – Teoria do método teológico (Ed. Vozes) -, poderá te ajudar bastante. Há também um material muito interessante com propostas sistêmicas para a teologia: A teia do conhecimento – fé, ciência e transdisciplinaridade [Ed. Paulinas, Ana Maria Tepedino e Alessandro Rocha (Orgs.)].
      Bons estudos.
      Abraço fraterno,
      Carlos.

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