O teólogo, a igreja e o mundo

niebuhr-tillichO mundo da experiência é uma fonte inesgotável para a teologia. É obrigação do teólogo participar ativamente dos questionamentos do mundo para que a sua teologia tenha o que dizer. Manter uma postura de abertura perante a experiência do mundo é fundamental. Segundo Paul Tillich:

Estar aberto a novas experiências, que podem inclusive ultrapassar os limites da experiência cristã, é agora a atitude própria do teólogo. Ele não está confinado a um círculo cujo centro é o evento de Jesus como o Cristo. Sem dúvida, como teólogo, ele também atua em um círculo, mas em um círculo cuja periferia é dilatável e cujo centro é móvel. A “experiência aberta” seria a fonte da teologia sistemática.[1]

Vemos neste pequeno trecho da Teologia Sistemática de Tillich uma intuição relevante para a teologia pública na atualidade. A percepção da dupla cidadania do teólogo, cidadão da Igreja e do mundo, dá condições à teologia de se lançar nas coisas do mundo sem que para isso negue as coisas da Igreja. Aliás, sem identidade própria o teólogo se perderia no mundo plural. O enraizamento na confissão não só permite a identificação como possibilita abertura ao diálogo com o outro como parceiro na construção de um mundo melhor.

O teólogo, para dialogar com as culturas, não precisa abandonar a Igreja. Pelo contrário, Tillich diz que a Igreja é o “lar” do teólogo. É a partir da Igreja, nela enraizado, sem se levar pelo ostracismo, que as fontes e as normas da teologia têm existência real. Só neste lugar a experiência pode converter-se em meio da teologia. O teólogo sem senso de pertença perde o lugar de trabalho.  A Igreja “é seu lugar mesmo que ele trabalhe e proteste contra ela. O protesto é uma forma de comunhão […] Para ser uma norma genuína, não deve ser uma opinião privada do teólogo, mas a expressão de um encontro da Igreja com a mensagem cristã”[2], conclui Tillich.

Carlos Cunha

[1] TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. 5.ed. São Leopoldo: Ed. Sinodal, 2005. p.60.

[2] Idem, p.63.

2 Comentários

Arquivado em Reflexão teológica

2 Respostas para “O teólogo, a igreja e o mundo

  1. Flávio Henrique Rossini Ferreira

    Olá Carlos….gostei do teu blog. Sou estudante de teologia, estou no primeiro ano, e em Filosofia da Religião tive o primeiro contato com os pensamento de Tillich. Gostei bastante e pensei em estudar um pouco mais, por qual livro acha que devo começar? um abraço

    • Olá, Flávio.
      Que bom que gostou do blog.
      Para conhecer o pensamento de Tillich o melhor é ler o próprio autor. A Teologia Sistemática é o principal texto tillichiano, mas você também pode se aventurar por:

      TILLICH, Paul. A coragem de ser. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1972.
      ______. A Era Protestante. São Paulo: ASTE, 1996.
      ______. Autobiographical Reflections. New York: Macmillan, 1952.
      ______. Biblical Religion and the Search for Ultimate Reality. Chicago: University of Chicago Press, 1955.
      ______. Dinâmica da fé. 7.ed. São Leopoldo: Sinodal, 2002.
      ______. El futuro de las religiones. Buenos Aires: Megápolis; La Aurora, 1976.
      ______. My Search for Absolutes. New York: Simon and Schuster, 1967.
      ______. On the boundary: an autobiographical sketch. New York: Charles Scribner’s Sons, 1966.
      ______. Perspectivas da teologia protestante nos séculos XIX e XX. São Paulo: ASTE, 2004.
      ______. Systematic Theology. v.1. Chicago: The University of Chicago Press, 1951. TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. 5.ed.rev. São Leopoldo: Ed. Sinodal, 2005.
      ______. Systematic Theology. v.2. Chicago: The University of Chicago Press, 1957. TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. 5.ed.rev. São Leopoldo: Ed. Sinodal, 2005.
      ______. Systematic Theology. v.3. Chicago: The University of Chicago Press, 1963. TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. 5.ed.rev. São Leopoldo: Ed. Sinodal, 2005.
      ______. Teologia da cultura. São Paulo: Fonte Editorial, 2009.
      ______. Textos selecionados. São Paulo: Fonte Editorial, 2006.
      ______. The Future of the Religions. New York: Harper& How Publishers, 1966.
      ______. The Interpretation of History. New York, 1936.
      ______. The New Being. New York: Charles Scribner’s Sons, 1955.
      ______. The Shaking of the Foundations. New York: Charles Scribner’s Sons, 1948.

      Além de vários artigos de Tillich e sobre ele. Recentemente, eu lancei um livro – Paul Tillich e a teologia pública no Brasil -, no 2º capítulo, eu faço uma síntese sobre a vida e o pensamento dele. Vale a pena conferir.
      Bons estudos!
      Abraço,
      Carlos.

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