Oração verdadeira, teologia verdadeira

OraçãoA linguagem da espiritualidade cristã também é invocativa. É a linguagem da oração. “Antes de falar de Deus, fala-se a Deus. E é só no quadro e na força do falar-a-Deus que emerge o falar-de-Deus”, afirma Clodovis Boff.[1] A chave para a boa teologia da espiritualidade é a oração, entendida em seu sentido mais pleno como um relacionamento com o divino, ou sua contemplação, e não simples devoções e técnicas de meditação. “A oração é pura e perfeita, segundo a autoridade de Santo Antão, quando o contemplativo não mais percebe que está orando e nem sequer existe”, ensina Thomas Merton.[2] Talvez devamos ir mais além e dizer que toda verdadeira oração é teologia verdadeira, e vice-versa. Pois a verdadeira oração e a verdadeira teologia são ao mesmo tempo assuntos do coração e da cabeça. Cada uma delas aponta para uma unidade de amor e conhecimento que está além da divisão tradicional pós-Iluminismo.

Mas será que cultura pós-moderna oferece um lugar para esse tipo de espiritualidade? Há quem diga que não, isto é, não há lugar na cultura tecnicista da contemporaneidade para uma espiritualidade como base para o aprofundamento da fé. Há outros que acreditam em uma espiritualidade leiga, sem deuses, sem crenças e sem religião como a única capaz de dizer algo aos seres humanos atuais. O sujeito não precisa de fé religiosa para aderir a ela. Existem também aqueles que apostam no momento atual como oportunidade única para o desenvolvimento de uma teologia criativa, capaz de reatualizar as suas categorias, à luz de um novo paradigma, numa teologia da espiritualidade. Ou conforme Karl Rahner: “O cristão do futuro ou será místico ou não será cristão”.[3]

Somos escravos de uma mentalidade eficiente do tempo. O chronos (tempo, em grego) dita as regras do uso do tempo do sujeito hodierno. É o chronos que diz a hora de levantar e deitar, comer, estudar e trabalhar. O tempo cronometrado preenche a agenda de atividades dos seres humanos contemporâneos, influenciando o seu comportamento. O problema não está na delimitação do tempo, mas no aprisionamento da vida a um uso inadequado do tempo. A oração pode ajudar a romper com esse uso obsessivo do tempo. Isto porque a oração não se coloca na esfera da necessidade, como trabalhar, estudar, dormir, comer. Orar é pura gratuidade. É desafiador para o sujeito de hoje, inserido em uma sociedade que diz que “tempo é dinheiro” e “perder tempo” em oração é perder dinheiro, optar por uma vida de oração. Para quem não está disposto a “perder tempo”, é muito difícil entrar nessa dinâmica.

Carlos Cunha

[1] BOFF, Clodovis. Teoria do método teológico. 3.ed. Petrópolis: Vozes, 1998. p.134.

[2] MERTON, Thomas. O pão no deserto. 3.ed. Petrópolis: Vozes, 2008. p.34.

[3] Cf. RAHNER, Karl. O cristão do futuro. São Paulo: Novo Século, 2004. p.78-81.

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