Arquivo do autor:Carlos Cunha

Sobre Carlos Cunha

Professor universitário em instituições católicas e protestantes. Pós-graduado (mestrado e doutorado) pela FAJE (Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia), integrante do Grupo de Pesquisa - Fé e contemporaneidade: os impactos da sociedade moderna e pós-moderna sobre a fé cristã - do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e membro da SOTER (Sociedade de Teologia e Ciências da Religião). Atualmente é pós-doutorando em Teologia no PNPD/Capes/FAJE.

Quero regressar ao Caminho

“Quero voltar ao início de tudo / Encontrar-me Contigo, Senhor / Quero rever meus conceitos e valores / Eu quero reconstruir / Vou regressar ao caminho / Volver às primeiras obras, Senhor / Eu me arrependo, Senhor / Me arrependo, Senhor / Me arrependo, Senhor / Eu quero voltar ao primeiro amor / Ao primeiro amor, ao primeiro amor / Eu quero voltar a Deus”

A primeira vez que ouvi essa música foi há quase 30 anos. Tão bonita! Louvor de letra simples e de melodia suave. Lembro-me dos momentos de oração, individual e comunitário, regados por esse cântico… Trazer à memória essa recordação é reviver experiências de comunhão com Deus e com irmãos na comunidade de fé e para além dela também.

A letra da música continua atual e pertinente. É uma súplica de quem anseia voltar ao aconchego dos primeiros encontros com o Senhor. Voltar ao início de tudo requer coragem de quem está disposto a rever conceitos e valores. O encontro com Deus é libertador. Ele nos interpela a avaliar àquilo que temos como verdade, como certo, como inquestionável. A reconstrução da nossa vida com e para o Senhor pressupõe abertura para a possibilidade de se desinstalar dos lugares acomodados e fazer novas experiências.

O caminho proposto pelo cântico de súplica é regressar para reconstruir. Ao voltar ao início de tudo, avaliamos com mais clareza o nosso estado atual. Retornos assim são imprescindíveis para manter a mente e o coração em bom estado. Ao retornar à casa paterna, para o ponto de onde se partiu, fazemos o exercício da anamnese, isto é, rememoração gradativa das experiências essenciais e latentes que dão enraizamento a nossa existência.

Eu me arrependo! Esta é a confissão de quem lamenta o mal cometido, sofre com o erro praticado. Na fé cristã, arrependimento é um sentimento de contrição e não de rejeição. É próprio de quem quer ver a salvação/libertação/ humanização do mundo e do humano sendo feita plenamente. Para isso, necessário se faz, praticar o bem a todos e a todas sem restrição. Somos chamados ao seguimento de Jesus Cristo na prática constante do amor.

Alguém já disse que não é possível voltar ao primeiro amor. Mentira! Não só é possível como necessário também. Voltar ao primeiro amor é voltar a Deus, a fonte de todo verdadeiro amor. Ele é amor em seu ser mais profundo. Isso significa que toda a sua atividade é atividade amorosa que tem como expressão máxima o evento Cristo. De modo que o amor primário não é o nosso, mas o de Deus, amor incondicional, não causado e espontâneo. Todo o nosso amor é apenas um reflexo do de Deus e uma resposta a ele.

Carlos Cunha

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Reflexão teológica

O vento sopra onde quer

“O vento sopra onde quer e ouves o seu ruído, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito” (Jo 3,8), afirma a tradição joanina. O pequeno versículo aponta para duas direções. Primeira, a ação livre e libertadora do Espírito para além das nossas limitações. Como vento impetuoso, o Espírito desestrutura a ordem estabelecida e concede a novidade. Segunda, biblicamente, o poder do Espírito está relacionado à capacitação de sujeitos e grupos empenhados em projetos de libertação, transformação, salvação/humanização. A vida cristã implica num novo nascimento.

A tradição joanina reconhece a unção de Deus por meio de Jesus Cristo no poder do Espírito, quando faz do sopro do Cristo ressurreto o comissionamento para o envio dos discípulos: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio. E, havendo dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). O Espírito Santo remete Àquilo que produz vida, que está presente em tudo. A espiritualidade percebe a presença do Espírito no humano e na criação com o seu poder recriador. Ela guarda uma mística dos olhos abertos e das mãos operosas, consciente em relação ao sofrimento alheio. A sobrevivência da mística cristã nos tempos atuais está atrelada a um comportamento humanizador no relacionamento de valorização do outro, testificando o amor a Deus. Caso contrário, a “mística dos olhos fechados” ao humano e a criação seria puro modismo vazio e passageiro.

Será que a cultura contemporânea oferece um lugar para esse tipo de espiritualidade? Há quem diga que não, isto é, não há lugar na cultura tecnicista de hoje para uma espiritualidade como base para o aprofundamento da fé. Há outros que acreditam em uma espiritualidade leiga, sem deuses, sem crenças e sem religião como a única capaz de dizer algo aos seres humanos atuais. O sujeito não precisa de fé religiosa para aderir a ela. Existem também aqueles que apostam no momento atual como oportunidade única para o desenvolvimento de uma teologia criativa, capaz de reatualizar as suas categorias, à luz de um novo paradigma, numa teologia da espiritualidade. Ou conforme Karl Rahner: “O cristão do futuro ou será místico ou não será cristão”.

O certo é que o mundo tem uma marca de “trans-espiritualidade”, ou seja, espiritualidade entre, através e além da nossa capacidade de apreensão e com infinitas possibilidades. O conhecimento místico ou espiritual, típico do saber originário da fé, é um saber experiencial. Ele não separa a realidade de Deus da realidade humana no labor de uma teologia da espiritualidade. É um risco para a intelecção da fé se perder nos meandros de uma multidão de detalhes e obscurecer a percepção do que é realmente essencial. Há o perigo na caminhada teológica de trocar a fé sincera pelo intelectualismo. A teologia pode se tornar um ídolo quando deixamos de utilizá-la como meio para compreender o divino e o humano e caímos na idolatria das ideias, dos conceitos e dos sistemas. As consequências desta idolatria são esterilidade, insensibilidade e indiferença frente às demandas da vida concreta.

Há um retorno de uma “teologia espiritual” na atualidade. Em décadas recentes, uma mudança importante teve lugar na teologia ocidental. A mudança foi de uma teologia meramente dedutiva, local, para uma reflexão séria sobre a vivência de Deus em suas culturas plurais e transreligiosas. Em harmonia com essa mudança, e parcialmente por ela provocados, os entendimentos da vida cristã também mudaram. A “teologia espiritual” que daí emergiu deu lugar a um conceito mais dinâmico e inclusivo sobre a espiritualidade e uma considerável aceitação ecumênica. Assim os estudos sobre ela tendem a se inspirar também na riqueza do diálogo inter-religioso. Por mais ambíguo que pareça, o termo também encontra favor em ambientes não religiosos para descrever os valores mais profundos das pessoas que não professam nenhum sistema de crença.

O nosso tempo é marcado por “perguntas fortes e respostas fracas” (Boaventura de Sousa Santos). Não basta ser tolerante. A tolerância aparece como resposta fraca diante do acolhimento das diferenças. O reconhecimento, mais do que a tolerância, surge como resposta forte às sociedades plurais da contemporaneidade. Reconhecer é dar sentido e legitimidade ao outro. É um ato libertador. Já o tolerar, por mais que se admitem maneiras de pensar, agir e de sentir diferentes das nossas, não é capaz de conferir ao diferente a dignidade que lhe é merecido. Para que o diálogo interfé seja uma realidade concreta, urge a necessidade de reconstrução de uma espiritualidade capaz de promover encontros com denominações religiosas diversas de modo relevante e libertador. Uma verdadeira teologia do reconhecimento.

O Brasil, com toda a sua diversidade religiosa, tem um potencial incrível para encontros micro e macro ecumênicos. A mobilidade religiosa assinalada pelo último senso religioso (IBGE 2010) mostra o quanto a nossa cultura é capaz de articular o religioso com os anseios e necessidades do povo brasileiro. É verdade que há muita intolerância, mas também há movimentos de “princípio ecumênico” (maior que o ecumenismo) conscientes da responsabilidade comum, para além da comunhão entre os cristãos, e que abraça toda a comunidade humana. Fazer uma opção pelo ecumenismo significa assumir uma postura política, uma atitude engajada na busca por um outro mundo possível. Tal escolha testifica a ação do Espírito na vida de quem se deixa ser conduzido pelo vento que sopra onde quer.

Carlos Cunha

2 Comentários

Arquivado em Reflexão teológica

Teologia cristã e sua tarefa pública

No decorrer da modernidade, a teologia se tornou cada vez mais restrita aos muros eclesiais e destinada ao consumo interno dos sujeitos religiosos. Seu caráter acadêmico e público perdeu visibilidade, enquanto as ciências positivistas ganharam força e se institucionalizam no âmbito das universidades, nas suas mais variadas especializações e aplicações técnicas. Mesmo admitindo certa legitimidade ao religioso, enquanto opção individual inscrita no âmbito dos valores que não devem interferir no exercício da razão, a comunidade científica dispensou a teologia de suas buscas e atividades interdisciplinares. Assim, a teologia se refugiou no exílio sem ter o que dizer ao sujeito dotado de uma razão técnico-científica. Ela se encontrava em uma situação paradoxal, em termos de sua legitimidade epistemológica.

A teologia sai do exílio quando a crítica bate às portas da pretensão objetivista e empirista da concepção positivista da ciência. A suspeita hermenêutica e ideológica questiona a experiência científica moderna mostrando a incapacidade da apropriação de um dado puro. Todo dado é interpretado e mediado pela linguagem. Além disso, a suspeita ideológica revelou que todo conhecimento reflete interesse. Assim, a concepção positivista de ciência começa a ruir. Por revelar visão interessada, absoluta e apodítica, torna-se equivocada.

Nesse cenário, a teologia sai da periferia e retorna à praça pública onde acontecem as grandes discussões existenciais. Ela retoma a sua condição como ciência da intelecção da fé capaz de dialogar com o mundo.

Na contemporaneidade, a intelecção da fé recebe o status de teologia pública, cujo labor não se limita à confissão religiosa, mas envolve outras esferas da sociedade civil. Hoje temos um novo reconhecimento da importância do saber teológico. Em alguns países europeus, como Bélgica, Alemanha e Itália, a teologia tem sido acolhida como um conhecimento legítimo e pleno, gozando, inclusive, do reconhecimento acadêmico e a emissão de diplomas emitidos por suas faculdades de Teologia.

No Brasil, a discussão sobre a legitimidade da teologia na esfera pública está em alta. São muitas as contribuições vindas dos programas de pós-graduação em Teologia e Ciências da Religião. As contribuições oferecidas por esses programas registram, cada qual com o seu olhar específico, o momento que estamos vivendo no Brasil, na busca da institucionalização plena da teologia, seja como área de conhecimento, seja como curso superior. O futuro da teologia na vida acadêmica nacional dependerá em muito de sua capacidade de fazer-se legítima dentro da sociedade contemporânea. A teologia é desafiada a demonstrar sua capacidade de dialogar com as ciências na busca da “verdade” e afirmar sua especificidade metodológica e sua função pública como conhecimento apto a discernir a realidade.

A tensão entre o privado e o público na teologia é motivo de acaloradas discussões. No âmbito do cristianismo, a Igreja é vista como o lugar natural da teologia a serviço da fé, de onde ela nutre o seu saber. Para teólogos dessa linha, fora do tecido eclesial não há autêntica teologia cristã. Se a teologia não serve à Igreja e aos cristãos, não serve também a sociedade em que a comunidade de fé está inserida. Por outro lado, na missão da Igreja, a própria teologia questiona sua confessionalidade ao desenvolver uma reflexão retroalimentada das práticas eclesiais em perspectiva libertadora tanto na Igreja quanto na sociedade. A sociedade interpela o caráter confessional de toda teologia. Confessionalidade melhor explicitada se faz à medida que estiver aberta ao mundo e ao humano. Caso contrário, torna-se fundamentalismo.

A função da teologia não se restringe ao âmbito intraeclesial, pois a Igreja não existe para si mesma. Igreja, ekklesia, palavra grega composta pelo prefixo “ek”, dá ideia de movimento para fora: “reunião”, “assembleia” ou “congregação”, voltada para fora. A Igreja é essencialmente missionária, de portas abertas, voltada para o mundo, em sintonia com as necessidades concretas da vida das pessoas e em obediência à missão de Deus, missio Dei.

Os conteúdos revelados da fé são transculturais, recebidos segundo o modo de seus receptores e transmitidos por sujeitos contextualizados. Não existe teologia não inculturada, ela é produto humano, com resultados provisórios em formulações aproximativas à fé cristã, consequência dos limites dos instrumentos de investigação. A teologia é produto humano, limitado pelas contingências culturais, o que não reduz em nada a Revelação. Pelo contrário, além de livrá-la do reducionismo ideológico, dá-lhe condições de abertura à nova compreensão do mundo e dos seres humanos, o que “faz da teologia um discurso ‘sobre’ o Absoluto e não um discurso absoluto”, afirma Agenor Brighenti.

No mundo atual, a teologia estritamente fechada, privada, monoconfessional, está condenada a não ser ouvida e a não ser sequer entendida pela sociedade. Diante da complexidade das culturas contemporâneas, tal teologia se mostra incapaz de dirigir-se à sociedade atual. Não é possível encetar diálogos de qualquer tipo com a opinião pública da sociedade como conjunto e pretender fazê-lo a partir das referências exclusivas de uma religião ou confissão.

Não estamos sugerindo aqui que o teólogo e a sua teologia não tenha senso de pertença. Não se trata disso. A teologia sem enraizamento confessional sofre de raquitismo nos seus fundamentos, além de ser sujeita à manipulação ideológica. Ela perde a identidade por não estar enraizada em suas fontes e sua tradição. O teólogo precisa estar enraizado na fé de uma religião, mas se permanece somente ali ele não estará à altura daquilo que seu trabalho exige dele.

A contemporaneidade com toda a sua complexidade reclama a construção de uma teologia consciente da pluralidade cultural e religiosa capaz de abraçar dentro de seu horizonte as experiências sócio-religiosas do conjunto da humanidade. Esta tarefa de reescrever a teologia, e/ou de recriar seu conteúdo, não implica apenas uma novidade no objeto, mas exige também uma novidade no sujeito, ou seja, faz-se necessário um novo tipo de teólogo, com um novo tipo de consciência e postura diante da atualidade.

Acreditamos que a teologia pública é resposta a esse anseio. Ela tem se mostrado como um discurso teológico re-situado no ambiente acadêmico, em diálogo com as ciências, e com uma implicação ativa nos debates que se desenvolvem na esfera pública da sociedade. Separada do âmbito da política, sem ser alienada, a teologia reconhece plenamente a liberdade religiosa e procura contribuir como parceira crítico-construtiva para o bem comum. Para isso, assume o seu caráter acadêmico, plural, inter e transdisciplinar.

Carlos Cunha

2 Comentários

Arquivado em Reflexão teológica

Prêmio Capes de Tese 2016 – Menção Honrosa

Amigas e amigos do blog,

Com alegria comunico o recebimento da “menção honrosa” pela CAPES. Segue o texto recebido:

 

Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior

Coordenação dos Órgãos Colegiados

 Brasília, 10 de outubro de 2016.

É com grande honra e satisfação que a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) outorga a CARLOS ALBERTO MOTTA CUNHA, Menção Honrosa do Prêmio Capes de Tese 2016 da área de FILOSOFIA/TEOLOGIA:subcomissão FILOSOFIA pela tese O CONTRIBUTO DO MÉTODO DA CORRELAÇÃO DE PAUL TILLICH À EPISTEMOLOGIA DA TEOLOGIA PÚBLICA NO BRASIL NO CONTEXTO DO PENSAMENTO COMPLEXO E TRANSDISCIPLINAR”, defendida no ano de 2015, sob a orientação de GERALDO LUIZ DE MORI e Coorientação de , do Programa de Pós-Graduação em TEOLOGIA da FAJE – FACULDADE JESUÍTA DE FILOSOFIA E TEOLOGIA.

Sua contribuição certamente será de extrema valia para o desenvolvimento e aprimoramento da área, bem como para o avanço da pós-graduação e do conhecimento científico de qualidade no Brasil.

O resultado foi publicado no Diário Oficial da União de 10 de outubro de 2016, seção 1, páginas 18 a 21, Portaria n° 170, de 06 de outubro de 2016, disponível no link http://capes.gov.br/SECOL/PortariaOutorgaPCT2016.pdf. A Menção Honrosa constitui-se de certificado, conforme especificado no Edital nº 17/2016, publicado no DOU de 29/06/2016.

O evento de entrega dos prêmios acontecerá em Brasília, no dia 14 de dezembro de 2016, na sede da CAPES, às 18 horas. Durante o evento, os outorgados com menção honrosa serão destacados.

Não está prevista a concessão de passagens e diárias para essa premiação.

Contatos: premiocapes@capes.gov.br

Resultado de imagem para capesResultado de imagem para prêmio capes de tese 2015

Deixe um comentário

Arquivado em Reflexão teológica

McMundo e as sementes do Reino de Deus: os lados da globalização

imagesuuu83v81O neologismo “McMundo”, em inglês McWorld, foi criado pelo sociólogo estadunidense Benjamin Barber em 1992, no seu livro Jihad vs. McWorld. Desde então, o termo passou a ser usado como referência à globalização econômica tendo a expansão internacional da rede de fast-food McDonalds como modelo. Para Barber, o McMundo é produto de uma cultura específica, impulsionado pelo comércio expansionista promovendo intercâmbios de bens e serviços. Longe de ser uma atividade isenta de valores ou culturalmente neutra, a nova ordem mundial age agressivamente em prol da difusão de uma cultura consumista globalizada reduzindo a vida e o humano a uma mercadoria.

“Intercâmbio econômico e cultural entre diversos países, devido à informatização, ao desenvolvimento dos meios de comunicação e transporte, à ação neocolonialista de empresas transnacionais e à pressão política no sentido da abdicação de medidas protecionistas”, esta é uma das definições dadas ao verbete “globalização” pelo ilustre linguista Antônio Houaiss em seu dicionário da língua portuguesa. Interessante a lucidez como Houaiss joga com as palavras. De um lado, ele realça o lado claro e notório da globalização. Ela não é um fenômeno exclusivamente econômico imbuído somente em espalhar capitalismo. A globalização, como plataforma global, compartilha trabalho, conhecimento, divertimento e culturas também. Seria tolice ignorar a sua capacidade em tornar global a liberdade e a diversidade humanas. Colhemos na atualidade os benefícios da troca de elementos culturais graças ao desenvolvimento das tecno-ciências. Isso é muito bom.

O outro lado acentuado por Houaiss é o lado oculto da globalização. Aqui está a “mcdonaldização” das comunidades planetárias pulverizando as diferenças por meio de ações neocolonizadoras regidas por um capitalismo selvagem. A perversidade desse movimento reside em iniciativas neocolonialistas que visam o controle e as intervenções, do uso da terra, dos recursos naturais e serviços públicos por parte das grandes empresas transnacionais. A riqueza das culturas subalternas desaparece diante da ganância de poucos que detêm as grandes fortunas. As imposições desse sistema neocolonizador não são só econômicas, numa espécie de neoliberalismo redutor da vida e do humano a um grande mercado livre. Há também imposições políticas, sociais, do conhecimento e até religiosas.

Devemos ter cuidado em não cair no lado oculto da globalização. Não podemos ser ingênuos. É preciso guardar a mente e o coração. O apóstolo Paulo escreveu aos cristãos de Roma: “E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente, a fim de poderdes discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito” (Rm 12,2). Precisamos descolonizar a nossa mente de ideias desumanizadoras impostas. Não podemos ceder a uma lógica mental que instrumentaliza as relações humanas e a criação. Seja para um cristão ou não, a vida é um bem supremo digno de honra. Não podemos convertê-la em uma simples mercadoria de consumo. Antigamente, trabalhava-se para viver com dignidade e qualidade de vida. Hoje, nesse mundo plano, o sujeito vive para trabalhar buscando atingir metas de lucro e acúmulos de bens.

Além de guardar a mente, devemos guardar o coração. Numa exortação paternal, o provérbio afirma: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração porque dele procedem as fontes da vida” (Pv 4,23). O mundo de hoje exige vigilância. Corremos o risco de “ganhar o mundo” e perder a vida. Não há problema algum em trabalhar, adquirir bens e serviços. Isso tudo é legítimo. A ilegitimidade está na obsessão pelo trabalho e aquisição desenfreada de bens. O mundo globalizado tem uma tendência a vender marcas globais e valores de consumo. É preciso ter cautela e discernimento para não cair nesse laço e criar ídolos no coração. Alguém já disse que não se entra no reino de Deus se não sair do reino das riquezas.

O mundo globalizado exige discernimento do sujeito. Soa de bom tom a postura equilibrada do jornalista Thomas Friedman, no seu famoso livro The world is flat: a brief history os the twenty-first century (O mundo é plano: uma breve história do século XXI). Diz Friedman: “A lei de ferro da globalização é muito simples: se você pensar que tudo isso é bom, ou que tudo isso é ruim, você não entendeu. A globalização tem nela embutida tendências de dar e tirar poder, de homogeneizar e particularizar, de democratizar e de tomar medidas autoritárias”. Pois bem, cabe a nós escolhermos entre o lado claro ou oculto da globalização.

Se a globalização possibilita também a evidência das particularidades, que o momento seja oportuno para a descoberta de uma lógica de vida saudável. Lembremos o surgimento do Reino de Deus proposto por Jesus. Ele surge de forma tímida, particular e atinge grandes proporções. O reinado de Deus não é novidade exclusiva da mensagem de Jesus. A categoria “Reino de Deus” era símbolo bem conhecido entre os israelitas. Havia no meio deles a expectativa da irrupção de um reino teocrático e independente, isto é, um reino dirigido por Javé e desvinculado dos povos pagãos. A novidade de Jesus está na ressignificação de seu conteúdo. Jesus recria, a partir da própria experiência de vida, nova concepção de “Reino” e dá-lhe outro horizonte de expectativa.

A expressão “Reino de Deus” transmite a ideia de mudança total e estrutural dos fundamentos desse mundo, introduzida por Deus. Não significa simplesmente algo interior ou espiritual. Do mesmo modo, não se trata de realidade que vem de cima ou se deva esperar fora deste mundo, depois da morte. Em sentido concreto, o Reino aponta para a liquidação da alienação com todas as consequências na vida de mulheres e homens, na sociedade e no cosmos, a transfiguração deste mundo compreendido a partir do projeto salvífico de Deus.

Aqueles que se associam ao projeto da implantação do governo divino não podem permanecer à mercê de um sistema que aliena e oprime o ser humano. Jesus introduziu novo modelo de comportamento social. É preciso conversão. A mudança de vida em prol do bem de toda criação é característica da(o) cidadã(ão) do Reino de Deus. Jesus anunciou o Reino do Pai: a transformação radical deste mundo, segundo o projeto libertador de Deus. Onde há justiça, liberdade e amor, aí estão as sementes do Reino. O cristão, como discípulo de Cristo, não tem outro compromisso senão com o Espírito que nos anima na direção dessa esperança. A fé desmascara, à luz da palavra de Deus, o discurso ideológico dos dominadores e revela a opção de Jesus pelos marginalizados. Jesus assume a identificação com oprimidos, e neles quer ser amado e servido.

Carlos Cunha

Deixe um comentário

Arquivado em Reflexão teológica

Paul Tillich e a teologia pública no Brasil

Amig@s,

O lançamento do livro está previsto para setembro.

Paul Tillich

Deixe um comentário

Arquivado em Li, gostei e indico

Curso: Ecumenismo e diálogo inter-religioso

Ista

Data: 1 – 5 de agosto de 2016 | 7h às 10h40 – 14h às 17h

Textos para a discussão

Claudio – Religiões e Paz Dupuis – El pluralismo religioso Ecumenismo, sociedade e missão Geffré – El futuro de la religion Hurtado – Diálogo inter-religioso Knitter – El Cristianismo como Religion Absoluta Magali – Pentecostalismo e Ecumenismo Nostra Aetate Santa Ana – Ecumenismo e novas chaves de leitura Unitatis Reintegratio Wolfl – Igrejas e ecumenismo Zwinglio – Ecumenismo e direitos humanos

 

Deixe um comentário

Arquivado em Aulas