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Quero regressar ao Caminho

“Quero voltar ao início de tudo / Encontrar-me Contigo, Senhor / Quero rever meus conceitos e valores / Eu quero reconstruir / Vou regressar ao caminho / Volver às primeiras obras, Senhor / Eu me arrependo, Senhor / Me arrependo, Senhor / Me arrependo, Senhor / Eu quero voltar ao primeiro amor / Ao primeiro amor, ao primeiro amor / Eu quero voltar a Deus”

A primeira vez que ouvi essa música foi há quase 30 anos. Tão bonita! Louvor de letra simples e de melodia suave. Lembro-me dos momentos de oração, individual e comunitário, regados por esse cântico… Trazer à memória essa recordação é reviver experiências de comunhão com Deus e com irmãos na comunidade de fé e para além dela também.

A letra da música continua atual e pertinente. É uma súplica de quem anseia voltar ao aconchego dos primeiros encontros com o Senhor. Voltar ao início de tudo requer coragem de quem está disposto a rever conceitos e valores. O encontro com Deus é libertador. Ele nos interpela a avaliar àquilo que temos como verdade, como certo, como inquestionável. A reconstrução da nossa vida com e para o Senhor pressupõe abertura para a possibilidade de se desinstalar dos lugares acomodados e fazer novas experiências.

O caminho proposto pelo cântico de súplica é regressar para reconstruir. Ao voltar ao início de tudo, avaliamos com mais clareza o nosso estado atual. Retornos assim são imprescindíveis para manter a mente e o coração em bom estado. Ao retornar à casa paterna, para o ponto de onde se partiu, fazemos o exercício da anamnese, isto é, rememoração gradativa das experiências essenciais e latentes que dão enraizamento a nossa existência.

Eu me arrependo! Esta é a confissão de quem lamenta o mal cometido, sofre com o erro praticado. Na fé cristã, arrependimento é um sentimento de contrição e não de rejeição. É próprio de quem quer ver a salvação/libertação/ humanização do mundo e do humano sendo feita plenamente. Para isso, necessário se faz, praticar o bem a todos e a todas sem restrição. Somos chamados ao seguimento de Jesus Cristo na prática constante do amor.

Alguém já disse que não é possível voltar ao primeiro amor. Mentira! Não só é possível como necessário também. Voltar ao primeiro amor é voltar a Deus, a fonte de todo verdadeiro amor. Ele é amor em seu ser mais profundo. Isso significa que toda a sua atividade é atividade amorosa que tem como expressão máxima o evento Cristo. De modo que o amor primário não é o nosso, mas o de Deus, amor incondicional, não causado e espontâneo. Todo o nosso amor é apenas um reflexo do de Deus e uma resposta a ele.

Carlos Cunha

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O vento sopra onde quer

“O vento sopra onde quer e ouves o seu ruído, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito” (Jo 3,8), afirma a tradição joanina. O pequeno versículo aponta para duas direções. Primeira, a ação livre e libertadora do Espírito para além das nossas limitações. Como vento impetuoso, o Espírito desestrutura a ordem estabelecida e concede a novidade. Segunda, biblicamente, o poder do Espírito está relacionado à capacitação de sujeitos e grupos empenhados em projetos de libertação, transformação, salvação/humanização. A vida cristã implica num novo nascimento.

A tradição joanina reconhece a unção de Deus por meio de Jesus Cristo no poder do Espírito, quando faz do sopro do Cristo ressurreto o comissionamento para o envio dos discípulos: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio. E, havendo dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). O Espírito Santo remete Àquilo que produz vida, que está presente em tudo. A espiritualidade percebe a presença do Espírito no humano e na criação com o seu poder recriador. Ela guarda uma mística dos olhos abertos e das mãos operosas, consciente em relação ao sofrimento alheio. A sobrevivência da mística cristã nos tempos atuais está atrelada a um comportamento humanizador no relacionamento de valorização do outro, testificando o amor a Deus. Caso contrário, a “mística dos olhos fechados” ao humano e a criação seria puro modismo vazio e passageiro.

Será que a cultura contemporânea oferece um lugar para esse tipo de espiritualidade? Há quem diga que não, isto é, não há lugar na cultura tecnicista de hoje para uma espiritualidade como base para o aprofundamento da fé. Há outros que acreditam em uma espiritualidade leiga, sem deuses, sem crenças e sem religião como a única capaz de dizer algo aos seres humanos atuais. O sujeito não precisa de fé religiosa para aderir a ela. Existem também aqueles que apostam no momento atual como oportunidade única para o desenvolvimento de uma teologia criativa, capaz de reatualizar as suas categorias, à luz de um novo paradigma, numa teologia da espiritualidade. Ou conforme Karl Rahner: “O cristão do futuro ou será místico ou não será cristão”.

O certo é que o mundo tem uma marca de “trans-espiritualidade”, ou seja, espiritualidade entre, através e além da nossa capacidade de apreensão e com infinitas possibilidades. O conhecimento místico ou espiritual, típico do saber originário da fé, é um saber experiencial. Ele não separa a realidade de Deus da realidade humana no labor de uma teologia da espiritualidade. É um risco para a intelecção da fé se perder nos meandros de uma multidão de detalhes e obscurecer a percepção do que é realmente essencial. Há o perigo na caminhada teológica de trocar a fé sincera pelo intelectualismo. A teologia pode se tornar um ídolo quando deixamos de utilizá-la como meio para compreender o divino e o humano e caímos na idolatria das ideias, dos conceitos e dos sistemas. As consequências desta idolatria são esterilidade, insensibilidade e indiferença frente às demandas da vida concreta.

Há um retorno de uma “teologia espiritual” na atualidade. Em décadas recentes, uma mudança importante teve lugar na teologia ocidental. A mudança foi de uma teologia meramente dedutiva, local, para uma reflexão séria sobre a vivência de Deus em suas culturas plurais e transreligiosas. Em harmonia com essa mudança, e parcialmente por ela provocados, os entendimentos da vida cristã também mudaram. A “teologia espiritual” que daí emergiu deu lugar a um conceito mais dinâmico e inclusivo sobre a espiritualidade e uma considerável aceitação ecumênica. Assim os estudos sobre ela tendem a se inspirar também na riqueza do diálogo inter-religioso. Por mais ambíguo que pareça, o termo também encontra favor em ambientes não religiosos para descrever os valores mais profundos das pessoas que não professam nenhum sistema de crença.

O nosso tempo é marcado por “perguntas fortes e respostas fracas” (Boaventura de Sousa Santos). Não basta ser tolerante. A tolerância aparece como resposta fraca diante do acolhimento das diferenças. O reconhecimento, mais do que a tolerância, surge como resposta forte às sociedades plurais da contemporaneidade. Reconhecer é dar sentido e legitimidade ao outro. É um ato libertador. Já o tolerar, por mais que se admitem maneiras de pensar, agir e de sentir diferentes das nossas, não é capaz de conferir ao diferente a dignidade que lhe é merecido. Para que o diálogo interfé seja uma realidade concreta, urge a necessidade de reconstrução de uma espiritualidade capaz de promover encontros com denominações religiosas diversas de modo relevante e libertador. Uma verdadeira teologia do reconhecimento.

O Brasil, com toda a sua diversidade religiosa, tem um potencial incrível para encontros micro e macro ecumênicos. A mobilidade religiosa assinalada pelo último senso religioso (IBGE 2010) mostra o quanto a nossa cultura é capaz de articular o religioso com os anseios e necessidades do povo brasileiro. É verdade que há muita intolerância, mas também há movimentos de “princípio ecumênico” (maior que o ecumenismo) conscientes da responsabilidade comum, para além da comunhão entre os cristãos, e que abraça toda a comunidade humana. Fazer uma opção pelo ecumenismo significa assumir uma postura política, uma atitude engajada na busca por um outro mundo possível. Tal escolha testifica a ação do Espírito na vida de quem se deixa ser conduzido pelo vento que sopra onde quer.

Carlos Cunha

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Oração verdadeira, teologia verdadeira

OraçãoA linguagem da espiritualidade cristã também é invocativa. É a linguagem da oração. “Antes de falar de Deus, fala-se a Deus. E é só no quadro e na força do falar-a-Deus que emerge o falar-de-Deus”, afirma Clodovis Boff.[1] A chave para a boa teologia da espiritualidade é a oração, entendida em seu sentido mais pleno como um relacionamento com o divino, ou sua contemplação, e não simples devoções e técnicas de meditação. “A oração é pura e perfeita, segundo a autoridade de Santo Antão, quando o contemplativo não mais percebe que está orando e nem sequer existe”, ensina Thomas Merton.[2] Talvez devamos ir mais além e dizer que toda verdadeira oração é teologia verdadeira, e vice-versa. Pois a verdadeira oração e a verdadeira teologia são ao mesmo tempo assuntos do coração e da cabeça. Cada uma delas aponta para uma unidade de amor e conhecimento que está além da divisão tradicional pós-Iluminismo.

Mas será que cultura pós-moderna oferece um lugar para esse tipo de espiritualidade? Há quem diga que não, isto é, não há lugar na cultura tecnicista da contemporaneidade para uma espiritualidade como base para o aprofundamento da fé. Há outros que acreditam em uma espiritualidade leiga, sem deuses, sem crenças e sem religião como a única capaz de dizer algo aos seres humanos atuais. O sujeito não precisa de fé religiosa para aderir a ela. Existem também aqueles que apostam no momento atual como oportunidade única para o desenvolvimento de uma teologia criativa, capaz de reatualizar as suas categorias, à luz de um novo paradigma, numa teologia da espiritualidade. Ou conforme Karl Rahner: “O cristão do futuro ou será místico ou não será cristão”.[3]

Somos escravos de uma mentalidade eficiente do tempo. O chronos (tempo, em grego) dita as regras do uso do tempo do sujeito hodierno. É o chronos que diz a hora de levantar e deitar, comer, estudar e trabalhar. O tempo cronometrado preenche a agenda de atividades dos seres humanos contemporâneos, influenciando o seu comportamento. O problema não está na delimitação do tempo, mas no aprisionamento da vida a um uso inadequado do tempo. A oração pode ajudar a romper com esse uso obsessivo do tempo. Isto porque a oração não se coloca na esfera da necessidade, como trabalhar, estudar, dormir, comer. Orar é pura gratuidade. É desafiador para o sujeito de hoje, inserido em uma sociedade que diz que “tempo é dinheiro” e “perder tempo” em oração é perder dinheiro, optar por uma vida de oração. Para quem não está disposto a “perder tempo”, é muito difícil entrar nessa dinâmica.

Carlos Cunha

[1] BOFF, Clodovis. Teoria do método teológico. 3.ed. Petrópolis: Vozes, 1998. p.134.

[2] MERTON, Thomas. O pão no deserto. 3.ed. Petrópolis: Vozes, 2008. p.34.

[3] Cf. RAHNER, Karl. O cristão do futuro. São Paulo: Novo Século, 2004. p.78-81.

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“O vento sopra onde quer”: estudo sobre pneumatologia

O vento sopra onde quer

missão 1

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junho 25, 2014 · 2:44 pm

“Ora a teu Pai que está lá, no segredo”

Gosto muito do texto do Evangelho de Mateus: “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechando tua porta, ora a teu Pai que está lá, no segredo; e teu Pai, que vê no segredo, te recompensará” (6,6). O versículo citado faz parte do ensinamento de Jesus sobre o prazer da oração. Prefiro dizer “prazer” a “dever” da oração. O prazer carrega em si uma carga de sensação ou emoção agradável, ligada à satisfação de uma necessidade, do exercício harmonioso de uma oração desinteressada movida pela pura gratuidade. Já o dever aponta para a obrigação, evoca um contexto de algo a ser pago a alguém, uma obrigatoriedade.

É evidente que o ensinamento de Jesus é um convite a uma vida prazerosa de oração. Pena que algumas pessoas não entendem assim e fazem da oração um momento de falatório enfadonho e repetitivo. Eu penso que esse tipo de “oração” incomoda os ouvidos de Deus. É barulho aos ouvidos do Altíssimo. Lembrei-me de Rubem Alves na crônica “Sobre deuses e rezas”: “Ora, se a gente fica no falatório é porque não acredita nisso. Não acredito em oração em que a gente fala e Deus escuta. Acredito mesmo é na oração em que a gente fica quieto para ouvir a voz que se faz ouvir no meio do silêncio” (Teologia do Cotidiano, p.68).

Diferente de um falatório sem sentido, a oração que encontramos nos textos bíblicos é composta por simples ações de graças. A Bíblia narra momentos de orações intensas em que homens e mulheres estiveram diante de Deus com o coração aberto ao mover do Senhor. O místico Walter Hilton (séc. XIV) definiu corretamente a postura correta do sujeito que ora: “Não devemos imaginar que o propósito da oração seja o de dizer a Deus o que necessitamos, porque ele sabe muito bem quais são as nossas necessidades. Pelo contrário, o propósito da oração é o de nos tornar prontos e aptos para receber, como vasos limpos, a graça que nosso Senhor livremente nos dá”.

Somos uma geração que desaprendeu a orar. A espiritualidade contemporânea é nutrida por inquietações e uma busca louca e insana por experiências que nunca satisfazem a alma. Precisamos voltar ao manancial perene de águas que satisfazem a sede de coração. O pedido dos discípulos de Jesus é também o nosso pedido: “Senhor ensina-nos a orar” (Lc 11,1). Orar é entrar numa relação única com o Pai e experimentar o prazer de conhecer sua vontade e cumpri-la; é desprender-se da própria vontade e permitir que a vontade de Deus molde o nosso caráter; é submeter-se à vontade de Deus e se converter à sua vontade. Orar é sempre um segundo ato. Primeiro, ouvimos a Deus, depois, em um momento de quietude, oramos a Ele.

Carlos Cunha

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Teologia: assunto do coração e da cabeça

Espiritualidade e teologia estão relacionadas. Isto é, as tentativas de verbalizar o Mistério não podem ser separadas da fé e vivência espiritual. Todo o esforço de falar sobre o nosso entendimento de Deus (teologia) somado aos esforços para viver à luz desse entendimento (espiritualidade) resultam numa teologia cristã genuína. Uma teologia viva está sempre fundamentada na vivência espiritual. A teologia é para ser vivida tanto quanto estudada e explicada.

Para Agostinho (De Trinitate, Livros XII-XIV), Deus é conhecido, não por scientia, mas por sapientia.  Para o bispo de Hipona, Deus é experimentado não pela objetivação e análise, mas por um conhecimento contemplativo de amor e desejo. A teologia patrística não era uma disciplina abstrata separada da teoria e prática pastoral. Os Pais da Igreja se esforçavam por manter a união entre o conhecimento teológico reflexivo e a vida de oração e contemplação.

O segredo para uma boa teologia é a oração. Isso equivale a dizer que uma teologia lúcida e rica se produz num contexto de relacionamento com o Divino, e não simples devoções e técnicas de meditação. Alguém já sugeriu que “toda verdadeira oração é teologia verdadeira, e vice-versa. Pois a verdadeira oração e a verdadeira teologia são ao mesmo tempo assuntos do coração e da cabeça”. O lugar ideal do teólogo é de joelhos – teologia genuflexa.

A teologia é essencialmente performativa além de informativa; a sua preocupação primeira é com a ação, depois, com as ideias. Nesse sentido “ser um teólogo” equivale dizer alguém envolvido profundamente com a realidade sobre a qual reflete. “Teólogo” é um sujeito de fé que por meio da análise especializada e informação demonstra a racionalidade da sua “práxis”.

O resgate da relação entre espiritualidade e teologia é desafiador para a teologia acadêmica contemporânea. Somos desafiados a reconstruir relações fecundas entre as atividades acadêmicas de pesquisa e os ensinos e aplicações práticas da oração, pregação, cuidado pastoral e evangelização. A “teologia leiga” que brota das comunidades da fé interpela a teologia acadêmica a repensar as suas raízes e seus frutos.

 

Carlos Cunha, setembro de 2012.

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