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Teologia do Evangelho de Mateus

BIBLIOGRAFIA

AUNEAU, J. et al. Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1985. p.179-190. MARCONCINI, B. Os Evangelhos sinóticos: formação, redação, teologia. São Paulo: Paulinas, 2001. p.130-146. QUEIROZ, Carlos. Ser é o bastante: felicidade à luz do Sermão do Monte. Curitiba: Encontro, 2003. LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Exodus, 1997. p.113-125.

INTRODUÇÃO

O evangelho de Mateus desenvolve uma teologia da história em dupla perspectiva: do passado, com as genealogias (1,1-7), as citações e frases evocativas de amplos contextos do Primeiro Testamento, como a “Boa Notícia do Reino” (4,23; 9,35; 24,14), palavra e doutrina do Reino (13,19.52); do futuro, anunciando que todos os povos serão feitos discípulos graças à pregação dos enviados (cf. 28,16-20). Deus faz história com os seres humanos de maneira única e decisiva em Jesus, Cristo e Filho de Deus.

O itinerário terreno de Jesus proposto por Mateus é único. Pouco a pouco, Jesus vai se revelando às multidões enquanto formava seus discípulos na construção progressiva de sua Igreja – instrumento para o mundo da presença do Reino dos Céus.

O ponto de partida desse itinerário aparece no evangelho da infância. Com o auxílio dos profetas, Mateus explicita a maneira como Jesus realiza as esperanças judaicas. Mateus atribui-lhe os títulos messiânicos tradicionais. Segundo o anúncio profético, ele nasce em Belém, cidade real: é verdadeiramente “Filho de Davi” (9,27). Mas Jesus não é o Messias nacionalista esperado pelos seus contemporâneos. A fim de corrigir este equívoco, Mateus apela para a figura do “Servo” de Deus (8,17); extraídas de Isaías (Is 42,1-4 e 53,4); se ele é rei (21,5), o é na humildade, segundo a visão de Zacarias (9,9). De toda maneira, são as Escrituras que, incessantemente, autenticam sua identidade.

As cinco unidades discursivas de Jesus compostas pela “Escola de Mateus” desenham o perfil da vida em Igreja. Esta encontra-se reunida (10,1), instituída (16,18) e enviada (28,19-20) pelo próprio Cristo, regra viva e única do comportamento dos discípulos. A comum relação dos seguidores de Jesus com o Pai cria a comunhão fraterna que é legitimada pelos atos. Este compromisso com Deus é parâmetro para as relações fraternas e abre espaço para a “regra áurea” da solidariedade humana (7,12), bem conhecida do helenismo e do judaísmo. O célebre doutor fariseu Hillel a retoma: “Não faças aos outros o que não desejarias que te fizessem. Eis toda a Lei; o resto é apenas explicação. Vai, aprende-a!” (Talmude de Babilônia, tratado Shabbat 31a).

NÚCLEO DO PENSAMENTO MATEANO

Para Benito Marconcini, o núcleo do pensamento de Mateus é dividido em três elementos fundamentais que dão sustentação à teologia do evangelho:

1. Eclesiologia. A dimensão eclesiológica é fortemente enfatizada. Dos Sinóticos, Mateus é o único que introduz o tema da Igreja (16,18; 18,17). O evangelho é uma catequese continuada referente à construção da comunidade, constituída de regras próprias, o perdão, a oração, a correção fraterna (18) e que termina no Reino. A Igreja está aberta para todos os povos, fazendo aí uma diferença com o Antigo Israel (21,43).

2. Cristologia. Jesus é o fundamento da Igreja. A Igreja pertence a Ele. Ele é o seu Senhor. Entre os vários títulos dados a Jesus, Filho de Deus (2,15) unido a Senhor (Kýrios) fortalece a imagem referencial para as comunidades em formação. Jesus é o único mestre (23,10) capaz de iluminar, exortar, julgar e tornar leve o jugo (11,28-30) da Igreja. Ele está constantemente presente, desde a encarnação, quando se apresenta como Emanuel (Deus conosco, 1,23), no dia-a-dia, quando garante “estar no meio” daqueles que se reúnem para orar (18,20), continuando a assistência também após a ressurreição (“estarei com vocês todos os dias até o fim do mundo”, 28,20).

3. Ética e moral. O evangelho de Mateus oferece indícios da ética e moral da comunidade cristã. O que importa é agir (cf. 7,21). O juízo final, fortemente enfatizado, é feito com base nas obras de caridade. Não basta pertencer fisicamente à comunidade: tem-se o chamado, mas ainda não se é eleito. A condição de eleito transparece diante de ações cristãs concretas.

AS BEM-AVENTURANÇAS (Mt 5,1-16)

As bem-aventuranças dão o tom inicial do Sermão do Monte. O grande discurso reflete um estilo paradoxal capaz de criar admiração e angústia no ouvinte/leitor pela dificuldade em pô-lo em prática. C.H. Dodd esclarece a perspectiva ética do Sermão: “Não devemos supor que sejamos capazes neste mundo de amar nossos inimigos, ou mesmo o nosso próximo, na plena medida em que Deus nos amou; ou mesmo de sermos tão completamente desinteressados e ingênuos, tão puros quanto aos desejos e ansiedades do mundo e tão predispostos ao sacrifício, quanto as palavras de Jesus o exigem; e contudo estes são os padrões pelos quais nossas ações são julgadas […] Os preceitos de Cristo não são definições estatuárias como as do código mosaico, mas sim indicações da qualidade da direção de ação que devem ser aparentes mesmo nas mais simples atitudes”.

A mensagem contida no Sermão tem uma dimensão social e não apenas individual. A praticabilidade não diz respeito nem a qualquer pessoa excepcional nem a todos os seres humanos indistintamente, mas à comunidade cristã, salva pela graça de Deus. A possibilidade de os homens viverem essa insólita mensagem é provocada pelo ingresso na comunidade cristã.

As bem-aventuranças descrevem o povo de Jesus. Que tipo de vida, caráter e ação deveriam ter os discípulos do Mestre. O Sermão não descreve a felicidade, mas diz o porquê o seu povo é feliz. A ética de Jesus proposta nas bem-aventuranças descreve o ideal do ser humano em cuja vida o Reino de Deus é absolutamente realizado. Por isso, a palavra “bem-aventurado”, do grego Makarios aparece em forma exclamatória, “como são felizes!”; significa mais que “feliz”, porque a felicidade é um sentimento que muitas vezes depende das circunstâncias externas. Esta palavra refere-se aqui ao bem-estar máximo e à alegria espiritual exclusiva dos que têm parte na salvação do Reino de Deus.

Qual é o perfil ético e moral do povo de Jesus?

Bem-aventurados os pobres em espírito. É um povo carente e dependente de Deus. Povo assim, consciente da dependência, prioriza a comunhão com Deus e com o próximo.

Bem-aventurados os que choram. São os que lamentam tanto os seus próprios pecados e falhas, como o mal tão preponderante no mundo, causando tanto sofrimento e miséria.

Bem-aventurados os mansos. Povo que por Deus abre mão dos seus próprios direitos.No Reino de Deus a conjugação é feita de forma diferente: o maior no Reino de Deus não é o que manda e sim o que serve (20,25-28).

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça. Povo que quer ver a vontade de Deus sendo feita. Povo que tem fome e sede de solidariedade, fraternidade e justiça social.

Bem-aventurados os misericordiosos. Aqueles que constatam que são pecadores e, por isso, sentem compaixão pela vida dos outros.

Bem-aventurados os limpos de coração. São os íntegros. Pessoas livres da tirania de um “eu” dividido. Um povo transparente que fala com o coração.

Bem-aventurados os pacificadores. São os propagadores da paz de Jesus. Povo portador de uma mensagem de paz com Deus, consigo mesmo, com o próximo e com o planeta.

Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça.  Pessoas que sabem do preço pela obra de Jesus. A vitória do cristão não é sofrer, mas não ser derrotado pelo sofrimento. É isto que torna o povo de Jesus inabalável.

Bem-aventurados os injuriados e perseguidos por amor a Cristo. São aqueles que sofrem injustiças, calúnias e violências por amor a Cristo. O sofrimento do povo de Jesus é um indicador da linhagem dos profetas.

A GRANDE COMISSÃO

Junto à mensagem das bem-aventuranças aparecem as condições do testemunho prestado pelos enviados por Jesus. A comunidade reunida por Jesus é automaticamente missionária, pois a missão nada mais é do que a participação do discípulo na ação do Mestre (10,24-25).

O teste decisivo da pertença ao Reino é a prática das obras de misericórdia, não somente em relação aos discípulos, essas “pequeninas” vítimas da perseguição (18), mas ainda para com todos os seres humanos em situações angustiosas.

A Igreja constrói-se enquanto vive e proclama Jesus que reúne todas as nações do mundo e mergulhadas, pelo batismo, em sua morte e ressurreição, para fazê-las compartilhar da vida do Pai no Espírito. Esse é um grande desafio! Infelizmente, o texto da Grande Comissão (28,19-20) foi mal interpretado. William Carey, missionário protestante, em Inquérito sobre a obrigação dos cristãos usarem meios para a conversão dos pagãos (1792), enfatizou que a Grande Comissão é uma ordem para ser obedecida. Isto não é bom. Não há passagens paralelas que contém um imperativo para a evangelização. Evangelização surge não de ordem e sim de Pentecostes. É uma dívida de gratidão e não de dever. Evangelismo não se define pelo “ide” e sim por “fazer discípulos”.

Carlos Cunha

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Introdução ao Evangelho de Mateus: características gerais

BIBLIOGRAFIA

AUNEAU, J. et al. Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1985. p.135-178; 191-199. KÜMMEL, Werner G. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1982. p.121-148. MARCONCINI, B. Os Evangelhos sinóticos: formação, redação, teologia. São Paulo: Paulinas, 2001. p.117-130. LIBANIO, J.B. Linguagens sobre Jesus: linguagens narrativa e exegética moderna.v.2. São Paulo: Paulus, 2012. p.122-142. Bíblia de estudo ALMEIDA. São Paulo: SBB, 1999.

INTRODUÇÃO

Dos Sinóticos, Mateus foi o evangelho mais citado pelos primeiros escritores eclesiásticos e os Pais da Igreja. Isto se deu ao fato desse evangelho ser o que dedicou maior espaço aos ensinamentos de Jesus. A tradição cristã o considerou como o “Evangelho Eclesial”, isto é, aquele a partir do qual se elaborou a doutrina da Igreja, o novo povo de Deus, com o propósito de instruir o fiel acerca de Jesus Cristo.

Mateus é o evangelho mais valorizado em toda a tradição da Igreja e tem sido objeto de numerosos estudos e comentários. Orígenes, João Crisóstomo, Cirilo de Alexandria, Ilário de Poitiers, Jerônimo, Agostinho são alguns dos Pais que dedicaram esforços no estudo de Mateus.

O texto proposta pelo evangelista é atrativo. A composição didática do evangelho impressiona. Há, de certa maneira, um quadro da cristologia das comunidades primitivas. Graças às pesquisas estruturais é possível identificar a estrutura mateana. Cinco grandes unidades discursivas de Jesus escalonam o evangelho:

  1. O sermão do monte 5,3-7,27
  2. O apostolado cristão 10,5-42
  3. O reino dos céus 13,3-52
  4. A vida da comunidade cristã 18,3-35
  5. O final dos tempos 24,4-25,46

Estas cinco unidades de discurso demonstram como Jesus vive com os seus discípulos sobre os quais vai construir a comunidade do Reino, e dá-lhes diretrizes para o tempo pós-Páscoa. As unidades são compostas com o objetivo de ajudar os crentes a aprendê-las de memória. Segundo J. Radermakers, os  cinco grandes discursos de Jesus “distribui a doutrina do Mestre conforme os progressos da formação de sua comunidade. Trata-se de uma catequese. Esses discursos são um vademecum para os responsáveis de comunidades e para os catequistas que atuam em meios cristãos saídos do judaísmo”.

Como Marcos, o evangelho de Mateus contará, numa primeira parte, o anúncio que Jesus faz do Reino de Deus, através de seus ensinamentos e suas curas, com a preparação longínqua da Igreja; e, numa segunda parte, o evangelista mostra a maneira como o Mestre, caminhando para a sua paixão, reúne seus discípulos a fim de constituir a comunidade, testemunha do Reino em gênese.

O esboço sugerido pela Bíblia de Estudo Almeida ajuda a perceber esse processo:

1. Infância de Jesus (1,1-2,23)

a)      Genealogia de Jesus Cristo (1,1-17)

b)      Nascimento e infância de Jesus (1,18-2,23)

2. Começo do ministério de Jesus (3,1-4,11)

a)      Pregação de João Batista (3,1-4,11)

b)      Antecedentes do ministério de Jesus (3,13-4,11)

3. Ministério de Jesus na Galileia (4,12-13,58)

a)      Começo do ministério (4,12-25)

b)      O sermão do monte (5,1-7,29)

c)      Atividades de Jesus (8,1-9,38)

d)     Instrução dos apóstolos (10,1-11,1)

e)      Atividades de Jesus (11,2-12,50)

f)       As parábolas do Reino (13,1-58)

4. Ministério de Jesus em diversas regiões (14,1-20,34)

a)      Atividades de Jesus (14,1-17,27)

b)      Sermão sobre a vida da comunidade (18,1-35)

c)      Atividades de Jesus (19,1-20,34)

5. Jesus em Jerusalém: semana da paixão (21,1-28,20)

a)      Atividades de Jesus (21,1-23,39)

b)      Sermão sobre o final dos tempos (24,1-25,46)

c)      Paixão, morte e ressurreição (26,1-28,20)

Mateus, como fonte, desconcerta o leitor contemporâneo. Os princípios de composição e modos de interpretação remontam as correntes do judaísmo do século I. Já o seu alcance, e por vezes o sentido, escapam à mentalidade moderna. Sobre isto, falaremos melhor no tópico Estrutura literária.

AUTORIA

A teologia tradicional identificou o evangelista Mateus com o apóstolo Levi de quem fala o evangelho. O nome de Mateus, que significa “Dom de Deus” ou “Deus dado”, em grego “Theodoro”, é mencionado em todas as listas de apóstolos do Segundo Testamento (Mt 10,3; Mc 3,18; Lc 6,15; At 1,13). A tradição sinótica cita a vocação de Levi, um “publicano” ou coletor do imposto romano (Mc 2,13-14; Lc 5,27-28). Marcos menciona Mateus como “filho de Alfeu” e conta que ele recebeu Jesus em sua casa (Mc 2,15), mas o primeiro evangelho designa-o como Mateus (9,9). Sua pátria teria sido Cafarnaum, segundo o relato evangélico. Embora fosse pouco comum usar dois nomes semíticos, falou-se a seguir de Levi Mateus como se fez com Simão Pedro.

Os Pais da Igreja como Papias, Irineu, Orígenes, Agostinho, Eusébio, Atanásio  e muitos outros reforçam a dedução bíblica e sustentam a ideia de que Mateus seja o nome e Levi o sobrenome, ainda que reconheçam a dificuldade da junção de dois termos semíticos.

A crítica moderna é quase unânime em negar o apóstolo Mateus como o autor do evangelho que leva o seu nome. Alguns estudiosos, com razões e ênfases diferentes, na década de 1960, atribuíram a paternidade do escrito a um gentio. Para esses exegetas só um judeu-gentio poderia usar uma linguagem paradoxal: ora apresentar Jesus como ligado ao judaísmo (10,6; 15,24; 5,17-19), ora como decisivo contestador do grupo dominante, fariseu e saduceu, e aberto à missão voltada para todos os povos.

Segundo a opinião mais comum hoje, a autoria do evangelho de Mateus pertence a um “judeu-cristão” da segunda geração que escreve por volta do ano 80, em meio a uma comunidade da Síria, envolvida em um confronto com o judaísmo. É evidente que o trabalho de redação levou tempo e que outros discípulos da primeira hora nele interferiram, até a sua redação definitiva. Esse trabalho redacional foi por vezes atribuído à “escola da São Mateus”.

LINGUAGEM

A linguagem utilizada por Mateus facilita à memorização. Ela contém uma estrutura sólida e claramente compreensível com uma diretriz ética e moral. Os seus discursos são montagens literárias inspiradas nos processos rabínicos de composição: formas repetidas, paralelismos antitéticos ou sinonímicos, e que foram bem conservados por Mateus. Provém do ensinamento oral praticado pelos rabinos.

Mateus não teme o redito: ele repete uma fórmula típica em diversos lugares de seu evangelho, para estabelecer correspondências e facilitar a memorização: “O Reino de Céus está próximo” (3,2; 4,17; 10,7); “nas trevas exteriores” (8,12; 22,13; 25,30); “a consumação dos tempos” (13,49; 24,3; 28,20) etc. Contaram-se até 27 repetições deste gênero. Contribuem para ressaltar a dinâmica própria do evangelho mateano, seguindo o ritmo de uma assimilação progressiva.

A linguagem mateana pensa à maneira dos semitas: exprime-se com os termos das Escrituras e das tradições palestinas de sua época. Isso parece claramente no emprego de certas palavras e, sobretudo, de expressões características. Encontramos, assim, um grande número de semitismos, composições próprias à sintaxe hebraica, passados para o grego; enumeraram-se 329, ou seja, três vezes mais do que em Marcos. Mateus cita alguns termos hebraicos, sem explicá-los, com raka (cabeça oca, cretino) em 5,22; Beelzebul (mestre-príncipe, alcunha de Satanás) em 10,25; corbã (tronco das ofertas, tesouro do templo) em 27,6 e etc.

Quanto às expressões típicas do meio palestino do século I, citamos especialmente: “Reino dos Céus” de preferência a “Reino de Deus” (12 vezes); “meu Pai” ou “nosso Pai que está nos céus” (5,16.45; 6,1.8; 7,11.21; 10,32.33; 16,17; 18,10.14.19), o “Pai celeste” (15,13; 18,35; 23,9); “cumprir a Lei” (5,17), “a Lei e os Profetas” (5,17; 7,12; 22,40); “casa de Israel” (10,6; 15,24), “Os filhos de Israel” (26,9) etc.

O grego utilizado por Mateus é bem melhor do que o de Marcos. A fluidez da língua contribui no sentido de mostrar para o seu leitor que Jesus “realiza” pela sua palavra, como por seus atos, o que os profetas haviam anunciado. Trata-se de situar os eventos históricos no dinamismo da única história da salvação, manifestando a coerência e a continuidade do plano de Deus, cuja expressão definitiva é a pessoa de Jesus.

DATAÇÃO

Com respeito ao tempo de composição do evangelho de Mateus, não é possível fixar com exatidão. Muitos pensam que o evangelho foi escrito em terras da Síria, talvez em Antioquia, depois que os exércitos romanos destruíram Jerusalém no ano 70.

Já alguns estudiosos pensam que Mateus mostra em sua revisão de Marcos uma clara evolução da concepção da igreja e da reflexão teológica (cf. 18,15ss e 28,19) assim uma data de composição logo depois de Marcos seria menos provável do que o período de tempo situado entre 80 e 100. Uma data situada depois do ano 100 está excluída, devido ao uso que Inácio fez de Mateus. Então, ficamos com uma data entre os anos 70 e 80 d.C.

DESTINATÁRIO

Sobre o destinatário do evangelho de Mateus há certo consenso entre os estudiosos. Trata-se de uma comunidade em Antioquia, na Síra (At 11,19-26; 13,1), capital da província romana, terceira cidade do Império, depois de Roma e Alexandria.

A comunidade de Antioquia é uma comunidade viva, formada em grande parte por judeus da diáspora com uma minoria de pagãos convertidos; é mais aberta na interpretação das Escrituras, na aplicação da Lei, no relacionamento com os pagãos do que a Igreja de Jerusalém, conservadora e ligada à tradição.

Portanto o evangelho de Mateus é dirigido a uma igreja judaico-cristã com a necessidade de tomar posição em face do judaísmo oficial, do qual se originaram. A grande questão da comunidade é se deveriam eles manter a continuidade com suas raízes judaicas, ou proceder a uma irremediável separação? Mateus enfatiza com firmeza a continuidade, pois Jesus cumpre a história de Israel; mas a própria realização provoca uma ruptura (cf. 4,23; 9,35; 10,17; 12,9; 13,54; 22,7 etc.).

Ao citar a “Lei e os Profetas” e dizer que Jesus não vem abolir, mas cumprir (5,17), Mateus  ressalta a fidelidade de Jesus à Aliança de Deus com Israel. Mateus retrata Jesus com traços judaicos, como livre seguidor e aperfeiçoador da lei e costumes judeus. Jesus supera o ensinamento dos rabinos.

Segundo J. Radermakers, o ensinamento de “Jesus libertou seu povo de uma Lei que se tornava opressora porque aqueles que eram seus guardiães tinham pouco a pouco substituído o espírito de liberdade por uma série incontável de observâncias minuciosas, inutilmente rigoristas. Essa libertação não consistia em uma supressão mais em realização prática: o cristão tem, pois, de viver a mesma Lei da Aliança, mas numa solicitude filial proporcionada à própria liberdade do Filho de Deus. Trata-se, para a Igreja primitiva, de se preservar de todo legalismo que negaria tal realização”.

Para Mateus, o elemento de ruptura é a abertura incondicional do povo eleito a todos os homens. Sem dúvida, o universalismo existia no judaísmo, especialmente nos profetas do pós-exílio, e anunciava a era messiânica.

ESTRUTURA LITERÁRIA

São muitas afinidades entre Mateus e Marcos quanto às partes narrativas. Há 178 passagens em comum. Mas há também mais ou menos 300 passagens próprias do evangelho de Mateus. O material é conhecido como Sondergut, que dizer: “peculiar, próprio de…”. Além das fontes de Mc e Q, Mateus se serviu de outras informações.

Essas informações, juntamente com Mc e Q, compõem a estrutura literária de Mateus. A composição literária mateana é fortemente marcada pelo Sitz im leben do destinatário e com características singulares. Vejamos:

  • Citações do Primeiro Testamento

Há 43 citações do Primeiro Testamento em Mateus. O evangelista se inscreve na tradição dos rabinos. Entre as citações bíblicas de Mateus, devemos destacar onze (1,23; 2,6.15.18.23; 4,15-16; 8,17; 12,18-21; 13,35; 21,5; 27,9-10), chamadas “citações de cumprimento” por causa da fórmula que as introduz: “a fim de que se cumprisse o que foi dito…”. Específicas de Mateus, todas se referem aos profetas, com exceção de (Sl 78,2 em 13,35). Designam-se também como “citações reflexivas” por exprimirem uma reflexão do evangelista.

  • O Midraxe

Midraxe é uma reflexão sobre a Escritura, onde os dados bíblicos são atualizados em função da situação presente. O Midraxe tem a função de edificar o leitor seja pela exortação (hagádico) seja pela orientação (haláquico).

Mateus utiliza o midraxe nos dois primeiros capítulos iniciais. Constitue um discurso profético sobre Jesus criança. Serve-se de um “midraxe de Moisés criança”, baseando no cap. 2 do Êxodo: o jovem Moisés, escapando ao massacre dos recém-nascidos e salvo das águas, torna-se o salvador de seu povo por meio da sabedoria e beldade com que Deus o agraciou. Mateus adapta este relato à apresentação de Jesus criança, mas não no espírito de uma lenda dourada. O evangelista age diferentemente do rabino: este último partia da Escritura para fazer perceber a atualidade; Mateus parte de Jesus, de sua vida concreta, de sua morte e de sua ressurreição, e esclarece sua identidade e ação com o auxílio da Escritura e das tradições orais que a prolongam, bem conhecidos de seus destinatários. Apoiando-se nos profetas, anuncia os títulos messiânicos de Jesus: Emanuel (Is 7,14), governante-pastor (2Sm 5,2), Filho de Deus (Os 11,1) etc. De resto, é bem um “testamento de Jesus”, novo Moisés com a diferença de que em Jesus, a revelação de Deus alcança o seu ponto definitivo.

  • A Mishna

Mishna constitui o código fundamental do judaísmo rabínico; é uma compilação de prescrições, com base em tradições mais antigas. A Mishna “dobra” a Escritura (o termo significa “repetição”), mas sua composição é sistemática, a fim de realçar os grandes princípios de conhecimento e de ação do povo de Israel.

Mateus cria analogias entre as secções casuísticas da Mishna (ex. “Ouvistes que foi dito… eu, porém, vos digo…” – 5,21-22; 27-28; 33-34; 38-39; 43-44). O discurso de Jesus na montanha, dirigido a todos, discípulos e multidões reunidos, parece inspirar-se nos tratados rabínicos da Mishna que desenvolvem uma moral do comportamento graças a leis determinadas. A diferença é que as orientações catequéticas do sermão do monte (6,19-7,27) são destinadas a dar um estilo de vida realmente fraternal à comunidade cristã; mostram como o engajamento exclusivo face a Deus exige uma abertura misericordiosa e discreta para o irmão e um discernimento leal do agir. A preocupação principal do discurso da montanha é, antes de tudo, pastoral.

  • A missão

O discurso sobre a missão (10, 5-42) dos discípulos escolhidos pelo Mestre é particularmente desenvolvido em Mateus. Apresenta-se como um compêndio de recomendação destinada aos apóstolos para lhes transmitir o espírito de sua missão. Encontramos exortações análogas nos escritos apocalípticos judeus.

Em Mateus a obra missionária a ser realizada consiste em prolongar a ação de Jesus (10,1; 9,35): ir ao encontro “das ovelhas perdidas da casa de Israel”. Para eles, “seguir” Jesus quer dizer estar pronto a entregar a vida para que se estabeleça o Reino, confiando naquele que envia e que se identifica com seu enviado (10,24-25,40).

  • Sabedoria

O discurso das parábolas utiliza-se de um gênero literário frequente nos livros históricos das Escrituras, como nos dos profetas e nos escritos da Sabedoria. A parábola consiste em explicar, ou antes, em fazer descobrir uma verdade profunda, uma realidade espiritual, por meio de comparações figuradas que o espírito apreende.

Na linha das invectivas dos profetas, Mateus mostra Jesus dirigindo-se aos “escribas e fariseus hipócritas” por sete ou oito vezes. Denuncia o falso discernimento e o abismo que se abre entre sua doutrina e seus atos (Is 5,8-25 e 10,1-4).

  • Escatologia

O discurso sobre a vinda do Filho do homem é muitas vezes designado como discurso escatológico, porque oferece uma perspectiva definitiva sobre o compromisso do cristão com o que Mateus chama de “parusia”, isto é, o último “evento” do Filho do homem na história humana. Em Mateus ele toma a forma de um discurso sobre a vigilância.

Visões deste gênero existiam na literatura judaica, encontramo-las nos profetas, especialmente em Daniel. Os apocalipses judaicos, cuja maioria foi escrita entre o século II antes e o século I depois de Cristo, apresentam uma visão global do mundo e da história da humanidade. Nascidos numa época de marasmo ou de crise, estes escritos visam reforçar a fé e a esperança das comunidades judaicas e promovem a expectativa messiânica. Todos estes escritos foram amplamente utilizados pelos primeiros cristãos, para manter a coesão de suas comunidades durante as perseguições; também reformularam estes textos, a fim de fazer aparecer neles o anúncio explícito de Jesus Cristo.

  • Quiasmo

Encontra-se frequentemente uma figura do estilo chamado quiasmo, ou cruzamento dos membros de uma frase, a fim de realçar um paralelismo. Por exemplo, Mt 16,25: “Aquele que quiser salvar sua vida (A), perdê-la-á (B), ou aquele que perder sua vida (B) por causa de mim, vai encontrá-la (A)”.

  • Aritmética teológica e gematria

Mateus apela para aritmética teológica dos rabinos, que atribui aos números valor simbólico: 1 é o número de Deus; 2 = criatura; 3 = constituição do homem; 4 = criação; 5 = agir divino; 6 = falta; 7 = história humana; 8 = plenitude; 12 = a comunidade etc.

Outro processo é a gematria. Esse processo consiste em adicionar o valor numérico das letras hebraicas, a fim de descobrir correspondências misteriosas, de origem teológica. Este sistema engenhoso, tradicionalmente empregado pelos rabinos, será desenvolvido de maneira sistemática pelo Cabala. Este nome (do hebraico Qabbalah = acolhimento) designa um movimento de filosofia mística no seio do judaísmo medieval; tendia à união com Deus pelo conhecimento íntimo das harmonias do universo e usava uma linguagem codificada, empregando o mistério dos números.

 

Carlos Cunha

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