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Exegese, hermenêutica e Evangelhos Sinóticos

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agosto 10, 2013 · 1:15 pm

Introdução à Bíblia

Atualizado em 24/4/2013

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Arquivado em Aulas

Como ler a Bíblia?

Para os cristãos, a leitura da Bíblia é uma atividade fundamental. Será que sabemos “ler” as Sagradas Escrituras? Cada vez que a tomamos nas mãos, lembramo-nos de que a Bíblia é uma obra literária?

A leitura bíblica efetiva é norteada pela retidão (coração certo) e pela exatidão (mente certa). Ler, portanto, é decifrar, decodificar. Uma leitura competente pergunta pelo: 1. Autor – quem elaborou o texto? 2. Destinatário originário – a quem foi, primeiramente, destinado o texto? 3. Escopo do autor – com qual intenção escreveu? 4. Tema – qual o conteúdo? 5. Código – como? Qual a forma? Com quais palavras? 6. Tempo – quando? 7. Lugar – Onde? 8. Destinatário atual – quem é o atual leitor? 9. Aproximação – como decifrar o código? 10. Escopo do leitor – com qual intenção lê?

Qualquer trabalho exegético (compreender o texto em si mesmo) e hermenêutico (compreender o texto além de si mesmo) que não leva em consideração perguntas pela composição e contextualização do texto é incompleto. Diacronia e sincronia são movimentos complementares na busca pela apreensão da Bíblia. Portanto, caveat lector – acautele-se o leitor. Leia a Bíblia corretamente. Para isso, é necessário reunir todas as ajudas disponíveis para adquirir habilidades na leitura das Escrituras, habilidades que “integrem mentes afiadas e corações devotos” (Eugene Peterson).

Assim, gostaria de sugerir um caminho para a leitura competente da Bíblia.

1º. Momento – Aproximação ao texto

1.      Leitura atenta do texto
2.      Leitura comparativa entre versões – utilize 2 versões oriundas da correspondência formal (ex. Bíblia de Jerusalém e Bíblia de estudo Almeida) e duas versões oriundas da equivalência dinâmica (ex. Bíblia Pastoral e Nova Versão Internacional)

Anotações gerais (anote as primeiras impressões)

3.      Meditação

Perguntas de ordem pessoal – Qual é a primeira impressão que o texto provoca? O que ele comunica para mim nesta primeira leitura?
Perguntas de ordem eclesial – Quais são as implicações do texto para a minha espiritualidade pessoal e vida eclesio-social?

Anotações gerais

2º. Momento – Análise do contexto

1.      Qual é o gênero literário e as suas características?
2.      Contexto histórico geral

Quem é o autor?
Qual o objetivo da obra?
Quais são as características teológicas?
Quando (datação) e onde (lugar) a obra foi composta?
Faça um esboço da obra

3.      Contexto específico

Delimitação do texto
Perícopes anterior e posterior
Texto dentro do bloco narrativo
Relação do texto dentro do Evangelho
Relação do Evangelho dentro do Novo Testamento
Relação do Novo Testamento dentro da Bíblia

Anotações: Como a delimitação do texto ajuda na compreensão da perícope?

3º. Momento – Análise de conteúdo

1.      Significado original dos principais termos da perícope (uso do léxico e dicionário teológico)
2.      Que tipo de alusões históricas e teológicas existem por trás das palavras utilizadas pelo autor?
3.      Quadro sinótico (Mt / Mc / Lc)

Anotações: Quais são as diferenças entre os autores sinóticos? Por quê?

4.      Quadro comparativo entre versões (BJ/BA, BP/NVI)

Anotações: Destaque as diferenças

4º. Momento – Atualização do texto

  1. O que o texto tem a dizer? (dimensões: existencial, pastoral e social)

Carlos Cunha

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Bíblia: os distanciamentos que aproximam

A Bíblia não caiu pronta do céu, mas passou por um processo longo de reformulações, compilações, traduções e aceitação. Diferentes pessoas, tradições, lugares e línguas fazem parte do processo de formulação das Escrituras com uma série de distanciamentos que podem dificultar a inteligência dos textos.

Interpretar é tentar transpor os distanciamentos em suas várias formas e chegar ao sentido “ideal” do texto. Sabe-se que o tempo e o espaço são pré-determinantes na impossibilidade da exatidão do texto, mas ter consciência dos distanciamentos e respeitá-los no processo de interpretação é fundamental para o trabalho do exegeta.

A Bíblia como livro humano

O distanciamento temporal. Num mundo em constantes mudanças, faz com que a maneira de encarar o mundo (cultura, língua e etc.) dos escritores da Bíblia se perca no passado distante. Portanto, como qualquer documento antigo (diferente de velho), a Bíblia precisa ser lida levando-se isto em conta.

O distanciamento contextual também conhecido como Sitz im Leben, refere-se à origem dos escritos: às situações sociológicas ou necessidades da igreja que deram característica distintiva as unidades literárias. Identificar o âmbito existencial de um texto é se esforçar por levantar informações que ajudem o leitor identificar em que momento o texto foi elaborado.

O distanciamento cultural é marcado por textos que foram fixados numa cultura distinta com características próprias – cosmovisões, costumes, tradições e crenças. Os intérpretes devem levar em conta o jeito de escrever daquela época, a maneira de expressar conceitos e ilustrar verdades, para poder transpor a distância cultural.

O distanciamento linguístico busca conscientizar o intérprete de que os textos bíblicos foram grafados em línguas mortas. Isto é, não se fala mais o hebraico clássico e o grego koinê. São línguas oriundas de troncos linguísticos distintos (semita e indo-europeu) com estruturas próprias. Cabe ao leitor levar em consideração estas particularidades.

O distanciamento autoral é um desafio a ser transposto pelo intérprete na busca por identificar no texto marcas do autor ou tradições deixadas por escrito. Talvez seja o maior desafio, pelo seu caráter subjetivo (“o que o autor quis dizer?”) e pela própria morte do autor. Será que com a morte do autor a sua intenção também morre?

A Bíblia como livro divino

A natureza divina da Bíblia provoca outros tipos de distanciamentos que necessitam ser superados e apropriados.

O distanciamento existencial. A leitura da Bíblia precisa ser uma leitura preocupada com a vida, com as situações concretas das pessoas e da sociedade. O que interessa não são tanto os conhecimentos bíblicos, mas a realização do sentido pleno da vida.

O distanciamento ecumênico. Aberto e acolhedor, sem preconceitos ou sectarismos. Não se trata de perder a própria identidade religiosa ou de largar a própria comunidade a que se pertence e viver solto. Trata-se, sim, de estar aberto à vida, de ser acolhedor e solidário, de acolher com simpatia o diferente, dentro de um projeto comum que defende e valoriza a vida.

O distanciamento comunitário. Não é uma leitura individualista, elitista, produto exclusivo de pessoas estudiosas. É uma leitura feita em mutirão. A Bíblia é o nosso livro. Ninguém pode se apossar da Bíblia como de uma propriedade particular. É eclesial no sentido de comunidade dos seguidores de Jesus Cristo: “É preciso ter alma de Igreja para ler e entender a Bíblia” (Jerônimo, IV século d.C.).

O distanciamento espiritual. A leitura espiritual é leitura guiada pelo Espírito Santo e voltada para o hoje e o aqui, que clareia, ilumina, motiva a caminhada. A Bíblia deixa de ser um livro de biblioteca, um livro objeto de altos estudos, e torna-se preciosa companheira de caminhada. O interesse vai do texto-em-si para o texto-em-nós. Portanto, não é uma leitura espiritualista, que se separa corpo e alma, história e transcendência. É uma leitura mística, que vai às raízes da nossa existência e gera convicções profundas, capazes de enfrentar e assumir desafios.

O distanciamento da esperança. Essa leitura bíblica não é uma leitura estagnada, ela abre caminhos. É uma leitura criativa e não repetitiva, e busca interpretar a realidade da vida seguindo dois critérios básicos: fidelidade absoluta ao Deus da vida e aos anseios dos que clamam por vida e dignidade. É uma leitura que se renova constantemente, sempre apela para um processo de conversão permanente, tanto pessoal como socioeconômico-político-pastoral.

O entendimento da dupla natureza dos textos bíblicos é condição de possibilidade para uma leitura efetiva da Bíblia. Os distanciamentos, quando considerados, ajudam o leitor/intérprete na compreensão e apreensão dos Escritos Sagrados explorando toda a sua riqueza de significados.

Carlos Cunha

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Introdução ao Evangelho de Lucas: características gerais

BIBLIOGRAFIA

AUNEAU, J. et al. Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos. São Paulo: Paulinas, 1985. p.201-207; 212-213; 269-272. KÜMMEL, Werner G. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1982. p.149-188. MARCONCINI, B. Os Evangelhos sinóticos: formação, redação, teologia. São Paulo: Paulinas, 2001. p.147-158. LIBANIO, J.B. Linguagens sobre Jesus: linguagens narrativa e exegética moderna.v.2. São Paulo: Paulus, 2012. p.103-122. Bíblia de estudo ALMEIDA. São Paulo: SBB, 1999.

INTRODUÇÃO

Ao longo da história poetas, pintores, sacerdotes e cristãos de um modo geral se inspiraram na riqueza de detalhes das narrativas que compõem o evangelho de Lucas. Dante Alighieri e Rembrandt van Rijn, por exemplo, poeta e pintor, brindaram a tradição cristã com as suas belas obras inspiradas nos relatos sugeridos por Lucas. Relatos como o do pai pródigo em amor (MARCONCINI), parábola do bom samaritano ou dos discípulos de Emaús foram e continuam sendo fontes de inspiração para mensagens cristãs por todo o mundo.

O tamanho da beleza e riqueza de detalhes do evangelho de Lucas é do tamanho das dificuldades que perfazem a composição do texto. São muitas as questões textuais suscitadas por Lucas-Atos. Não há um versículo sequer que não problematize alguma questão. A riqueza de detalhes suscita variações textuais que desconcertam exegetas habilitados.

Não há como negar, o evangelho de Lucas é original. Dentre os Sinóticos, Lucas apresenta aproximadamente 500 versículos próprios (Sondergut). Enquanto Marcos e Mateus se concentram basicamente na vida de Jesus, Lucas divide seu trabalho em dois volumes: o Evangelho e os Atos. Lucas-Atos trata sobre o tempo de Jesus e os primórdios da Igreja.

Em nenhum manuscrito conhecido encontramos os Atos dos Apóstolos logo depois do evangelho de Lucas. Sabe-se que para compor um primeiro compêndio canônico, no século II, o evangelho de Lucas foi separado dos Atos e anexado aos três outros evangelhos para construir um primeiro corpus. Se por um lado essa medida auxiliou a leitura sinótica, por outro, criou uma descontinuidade literária pretendida por Lucas-Atos.

Lucas dirigi-se aos cristãos, mas pensa também nos leitores profanos. O seu evangelho tem um enfoque universal. Mesmo ajustando-se aos esquemas de Mateus e de Marcos, o texto de Lucas tem um caráter missionário e apologético, é muito próximo das obras apologéticas dos Pais da Igreja do século II. Graças ao domínio do idioma e da riqueza do vocabulário, Lucas pôde polir o seu texto com especial esmero.

A Bíblia de Estudo Almeida sugere o seguinte esboço.

Prólogo (1,1-4)

  1. Infância de João Batista e Jesus (1,5-2,52)
    1. Os anúncios do anjo (1,5-38)
    2. Nascimento de João e de Jesus (1,39-2,20)
    3. Infância de Jesus (2,21-52)
  2. Preparação do ministério de Jesus (3,1-4,13)
  3. Ministério de Jesus na Galileia (4,14-9,50)
    1. Atividades de Jesus (4,14-7,17)
    2. Jesus e João Batista (7,18-35)
    3. Atividades e ensinamentos (7,36-9,17)
    4. Jesus, o Cristo de Deus (9,18-50)
  4. A viagem a Jerusalém (9,51-19,27)
  5. Ministério de Jesus em Jerusalém (19,28-21,38)
  6. Semana da paixão (22,1-24,12)
    1. A véspera da crucificação (22,1-22,62)
    2. Paixão, morte e ressurreição (22,63-24,12)
  7. Jesus ressuscitado (24,13-53)

A maneira como Lucas entrelaça os assuntos permite verificar a riqueza de detalhes textuais com o objetivo de criar “uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram” (1,1).

AUTORIA

Como nos Sinóticos, a dificuldade de extrair a autoria do evangelho do emaranhado da tradição redacional permanece. Com base na composição de Lucas-Atos, François Bovon sugere que o autor do evangelho de Lucas é um “homem da segunda ou terceira geração, de língua grega materna, cristão de orientação paulina, mais preocupado com o aspecto missionário da Igreja do que com a sua organização; bom conhecedor do Primeiro Testamento, porém leitor mais assíduo das profecias e dos Salmos do que da Lei; gentio-cristão que, na escola dos primeiros teólogos cristãos, dedicou-se à exegese cristológica das Escrituras; homem de origem social abastada e culta; simultaneamente desejoso de facilitar a conversão das pessoas de seu meio e de não lhes esconder as renúncias que a fé impõe; pouco a par da geografia da Palestina e dos usos judaicos, mas bem à vontade na bacia do mar Egeu”.

Todos esses elementos não nos permitem considerar o autor como uma testemunha ocular e um companheiro imediato de Paulo. Contrapondo à tradição conservadora que, desde o século II apresenta Lucas como médico e companheiro de Paulo (Cl 4,14; 2Tm 4,11), como autor da obra a Teófilo, a história da tradição e o resultado da composição impedem situar o autor como parte integrante do grupo de Paulo. Assim a utilização do “nós” em Atos dos Apóstolos (16,10-17; 20,5-15; 21,1-18; 27,1-28,16), provém de uma prática literária confirmada na época, fim do século II, em que a Igreja devia encontrar uma origem apostólica direta ou indireta para os diversos escritos que ela desejava tornar canônicos.

Já a perspectiva conservadora, atribui o evangelho a Lucas, um dos 72 discípulos (Lc 10,1) e, portanto, testemunha direta do que Jesus “fez e ensinou” (At 1,1); identificado com o discípulo de Emaús cujo nome não é mencionado (Lc 24,13-14.18), ou com Lúcio da Carta aos Romanos (16,21) ou dos Atos dos Apóstolos (13,1); considerado celibatário e acredita-se que tenha vivido até os oitenta anos de idade ou então que tenha sido submetido ao martírio quando tinha um pouco menos de idade.

Fundamentado na tradição dos Pais, a autoria conservadora se apoia em Irineu, Orígenes, Eusébio de Cesareia e Jerônimo que fazem de Lucas o companheiro fiel do apóstolo Paulo, segundo Fm 24 e Cl 4,14. E mais, para fortalecer essa colaboração Lucas-Paulo citam as chamadas “seções-nós” dos Atos dos Apóstolos (16,10-17; 20,5-15; 21,1-18; 27,1-28,16), em que Lucas aparece presente nos fatos narrados, como fonte primária.

Para amenizar as divergências literárias e teológicas existentes entre as cartas paulinas e a obra de Lucas e as chamadas “seções-nós” como uma ficção literária e não uma prova histórica, exegetas conservadores dizem que tais discrepâncias são oriundas de enfoques distintos: Paulo personaliza muitos os fatos e Lucas enquadra as histórias em uma estrutura de tipo fundamentalmente teológico.

Enfim, o  que a tradição da Igreja bem captou e exprimiu a seu modo, modo narrativo próximo do estilo do evangelista, é que o autor de Lucas-Atos se inscreve na trilha de Paulo e que desenvolve uma atividade missionária mais do que pastoral.

LINGUAGEM

A linguagem de Lucas é a do relato. Ela fica a poucos passos da prosa clássica (Séculos V e VI a.C.) e do grego moderno. Lucas redige em uma linguagem literária, mas só o faz excepcionalmente. O prólogo de seu evangelho (1,1-4) representa uma das raras passagens elaboradas de sua obra; as palavras são escolhidas e possuem cadência. Outro caso é o discurso de Paulo em Atenas; redigido por Lucas, mostra ao leitor que o cristianismo consegue dialogar com a cultura grega em seu mais alto nível.

Lucas é o mais grego dos autores do Segundo Testamento. Maneja com elegância a língua comum falada; preocupa-se em ser compreendido pelos ouvintes pouco afeitos às tradições judaicas. Na maior parte das vezes, com simplicidade, Lucas narra os acontecimentos evitando o que pudesse vir a ser trivial ou chocante para o leitor. A preocupação social do evangelista manifesta-se, pois, no uso do grego popular.

Há na linguagem lucana certo pudor. Lucas evita colocar nos lábios de Jesus expressões vulgares ou expressões familiares (cf. 18,25; 21,14; 22,46.53) como no texto de Marcos. Lucas suprime palavras como sperma (20,29 cf. Mc 12,20), porneia (luxúria), ao invés de citar “uma prostituta”, prefere “uma mulher pecadora da cidade” (7,37). O preço dessa correção é uma perda de ingenuidade, de espontaneidade, de cor local.

A impostação de Lucas, como filho da cultura helenista, difere da de outros evangelistas. Ele desloca a linguagem do mundo palestino para o helenístico, a fim de falar ao cristão vindo da gentilidade. A sua sintaxe é mais requintada e a sua prosa é mais monótona do que as dos outros evangelistas.

DATAÇÃO

Ignora-se em que lugar e em que tempo foi redigido o evangelho. Há hipóteses que apontam para Corinto, Éfeso e Roma como lugares prováveis de redação e datas que vão desde o ano 60 até 95.

Dentre as muitas possibilidades, há um número considerável de estudiosos que pensam que o evangelho de Lucas foi redigido por volta do ano 80 em uma cidade helenista, mais provavelmente da Grécia, sem que, contudo, se possa excluir a Alexandria ou mesmo a Cesaréia. Inaceitáveis são tanto a data antiga (antes dos anos 70), com base no final dos Atos dos Apóstolos, como a tardia (por volta do ano 95).

DESTINATÁRIO

Com a dedicatória ao excelentíssimo (Almeida, RA) ou ilustre (Jerusalém) Teófilo (crátistos Theóphilos),  o destinatário é considerado como “representante de um amplo círculo de leitores, ou seja, possivelmente, de todos os cristãos”. Na realidade, o termo “crátistos” pode ser tanto o título de um alto funcionário do governo como simplesmente uma forma polida de tratamento.

Os enfoques temáticos e a teologia de Lucas apontam para uma “comunidade que atenua fortemente a expectativa escatológica e corre o risco de uma volta à vida pagã. Ela parece cansada de viver a vontade de Deus no dia-a-dia. A santidade é o ideal, a frouxidão e também o pecado, de forma crescente, são o normal. No afã de aproximar-se do homem do tempo, há a necessidade de não se afastar da fidelidade a Cristo e da autêntica tradição e de entender o valor do tempo que a separa da vinda de Jesus, considerada não iminente” (MARCONCINI).

Parece ser uma comunidade carente de conversão. A palavra “metanóia”, conversão, aparece 14 vezes no evangelho e 11 nos Atos dos Apóstolos, ao passo que em Marcos, por exemplo, aparece apenas 3 vezes. Tal fato diz respeito ao preocupante e progressivo enfraquecimento da fé, como resulta na pergunta emblemática do episódio da viúva que pede com insistência a justiça ao juiz desonesto: “O Filho do Homem, quando vier, será que vai encontrar a fé sobre a terra?” (18,8).

Além disso, o evangelho realça temas que apontam para uma igreja em dificuldades diante da apostasia: a) Enfraquecimento pela procura do reino (16,8); b) Comportamento mundano (11,24-26); c) Pouco senso de responsabilidade dos líderes da comunidade (12,48).

ESTRUTURA LITERÁRIA

A estrutura literária lucana se inscreve a partir dos seguintes elementos:

  • Projeto literário

Lucas é o único evangelista a formular seu projeto literário. O prólogo que redige chama a atenção sobre os esforços de seus predecessores: “Visto que muitos já tentaram compor uma narração…” (v.1a)e daí as fontes utilizadas; indica o tema do trabalho “dos fatos que se cumpriram entre nós” (v.1b) e a maneira como o autor escreveu. Após uma pesquisa exaustiva e meticulosa, redigiu uma obra bem elaborada “a mim também pareceu conveniente, após acurada investigação de tudo desde o princípio, escrever-te de modo ordenado” (v.3). Dedicado a Teófilo, a obra destina-se a um grande público (v.4).

  • Intenção literária

O prólogo revela uma intenção literária: procurar transpor estas tradições e estas fontes para um nível literário. A questão do Sitz im leben da obra inteira, ou ambiente no qual ela nasceu, apresenta-se diferente daquele que serviu para o Evangelho de Marcos, por exemplo, ou para pequenas unidades isoladas; sim, porque a obra não é o produto de uma comunidade, mas o resultado de um trabalho pessoal.

  • Intenção missionária e apologética

Sua intenção, entretanto, conforme o prólogo demonstra, não é unicamente histórica: é também missionária e apologética. Quer demonstrar a respeitabilidade do “caminho”, isto é, da mensagem cristã e da Igreja; ilustrar o vigor da missão, assinalando seus sucessos; manifestar o apoio que Deus dispensou a Jesus e depois às testemunhas; e, mais ainda, proclamar que a vida de Jesus realiza as promessas da Escritura, revela a afeição de Deus pelo povo e pelas nações desgarradas, oferece uma ocasião de voltarem-se para o Deus vivo.

  • Fontes utilizadas

Tem ele à sua disposição o evangelho de Marcos, a coleção dos logia (Q), sua característica, alguns ciclos sobre a comunidade de Jerusalém, os helenistas, a conversão e as missões de Paulo, algumas informações isoladas, traçados de itinerários etc.

  • Lucas como testemunha

Se o estilo do prólogo inscreve Lucas na linhagem dos historiadores, a matéria e o modo de comunicação põe em evidência outra ordem: a do testemunho. Neste ponto, o evangelista aproxima-se dos historiadores judeus que extraem certas regras da historiografia grega para evocar o sustento que Deus trouxe a teu povo.

  • Testemunha “tardia”

Como seus predecessores, Lucas não teve acesso direto aos acontecimentos. Conhece-os por intermédio daqueles que são ao mesmo tempo testemunhas oculares e servos da palavra. Situa-se assim na segunda, talvez mesmo na terceira geração do cristianismo.

  • Itinerário

Lucas apoia-se num esquema: revelação em Cristo. Em seguida, marcando melhor os três tempos da vida de Jesus, herdados de Marcos (Galileia, viagem, Jerusalém). Fazendo uma seleção do material sobre os apóstolos e, por fim, organizando-os.

  • Pudor judaico

Lucas não é polêmico. Sabe que a Igreja não é poupada das tensões, mas não fustiga nenhuma heresia especial. Sua apresentação da Igreja de Jerusalém prova que ele se retrai a respeito do judeu-cristianismo da Cidade Santa. Sua discrição a respeito de João que coloca na sombra de Pedro, indica que ele não dá seu aval às convencionices joaninas. Sua fidelidade ao Primeiro Testamento insinua a desconfiança que nutre dos paulinismos excessivos que superestimam a novidade do cristianismo e criticam exageradamente a Lei de Moisés. Mas, como Paulo, Lucas tem sempre em mente o judaísmo. Reivindica, sem cessar, para sua Igreja, a herança de Israel, e insiste em mostrar que a oposição ao cristianismo tem sua origem na dureza de coração das congregações judaicas e de seus chefes.

  • Riqueza literária

Lucas tem sido equiparado ao lado dos grandes escritores de seu tempo, como Flávio Josefo e Políbio. Impressiona que na obra se alternem páginas pitorescas e vivazes com narrações áridas ou esquemáticas, momentos de envolvente poesia que desperta fortes emoções religiosas e expressões pobres. A razão não está na sua inconstância e volubilidade, e sim no fato de que Lucas não é alguém que cria, mas um transmissor fiel de uma tradição na qual ele soube intervir com sabedoria, respeito e espírito de artista.

  • Referências históricas

Chama atenção a referência a personagens conhecidos contemporâneos dos fatos narrados: Augusto, Tibério, Pôncio Pilatos, Filipe, os sumos sacerdotes Anás e Caifás. Igualmente curioso é o fato de Lucas transmitir diversas datas: ano quinze do império de Tibério César (3,1); “Jesus tinha cerca de trinta anos…”, informações bibliográficas (8,3), e os Atos dos Apóstolos oferecem dados ainda mais abundantes. O objetivo de Lucas é duplo: garantir a continuidade e a fidelidade da tradição.

  • Justiça social

Lucas, mais do que Marcos e Mateus, narra Jesus expressando o amor de Deus pelos desprezados deste mundo, tanto com atitudes, como com a sua mensagem. Vemos expressa a sua simpatia pelos: pecadores (5,1ss; 7,36ss; 15,1ss etc.); samaritanos (10,30ss; 17,11ss); mulheres (7,12.15; 8,2s; 10,38ss etc.). Isso expressa também a rejeição dos ricos (12,15ss; 16,19ss); a advertência a respeito da manonas tês adikías (16,9.11). Lucas acentua mais fortemente a influência exercida sobre Jesus pela “piedade feita de pobreza” (BOVON).

Carlos Cunha

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Como ler o Novo Testamento?

O Novo Testamento (NT) é a base decisiva e orientadora de tudo aquilo que se designa por cristianismo e por Igreja. Ele contém as únicas fontes fidedignas a respeito da atividade de Jesus, sobre a formação da Igreja e da sua pregação. Embora se considere o valor de fontes extrabíblicas no processo de composição do  NT, por meio de derivação, influência e/ou criação análogo própria, os textos do NT tem um valor primário.

A leitura efetiva do NT passa pelo condicionamento histórico em que os textos foram elaborados a partir de situações históricas específicas. O Sitz im Leben refere-se à origem dos escritos: às situações sociológicas ou necessidades da igreja que deram uma característica distintiva de uma forma determinada ou unidade literária. Tanto o “contexto de vida”, quanto o “contexto de vida de Jesus” (Sitz im leben Jesu) e, o “contexto de vida da igreja” (Sitz im leben kirche), devem ser levados em conta no processo de leitura/interpretação do NT.

O objetivo da teologia do NT é o de deduzir, de escritos isolados ou de grupos de escritos, imagens objetivas e coerentes da atividade de Jesus ou da pregação e da doutrina das primeiras igrejas cristãs. Isso é possível por meio da exegese – interpreta o texto no horizonte de seu autor, contexto e cultura.

Assim, a teologia do NT é fruto da exegese. A teologia neotestamentária não somente coleta os resultados da exegese, mas desenvolve um panorama que enriquece a interpretação dos textos bíblicos para hoje (hermenêutica).

Não é bom submeter à compreensão do NT, de maneira estática, as premissas ideológicas do pensamento moderno, nem confrontar ser humano e a sociedade hodierna com meras citações do NT. Os dois aspectos, o Novo Testamento e o contexto atual, devem ser confrontados em um dialogo crítico de modo que os escritos neotestamentários tenham relevância temática para a contemporaneidade.

Carlos Cunha

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