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Paul Tillich e a teologia pública no Brasil

Amig@s,

O lançamento do livro está previsto para setembro.

Paul Tillich

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O teólogo, a igreja e o mundo

niebuhr-tillichO mundo da experiência é uma fonte inesgotável para a teologia. É obrigação do teólogo participar ativamente dos questionamentos do mundo para que a sua teologia tenha o que dizer. Manter uma postura de abertura perante a experiência do mundo é fundamental. Segundo Paul Tillich:

Estar aberto a novas experiências, que podem inclusive ultrapassar os limites da experiência cristã, é agora a atitude própria do teólogo. Ele não está confinado a um círculo cujo centro é o evento de Jesus como o Cristo. Sem dúvida, como teólogo, ele também atua em um círculo, mas em um círculo cuja periferia é dilatável e cujo centro é móvel. A “experiência aberta” seria a fonte da teologia sistemática.[1]

Vemos neste pequeno trecho da Teologia Sistemática de Tillich uma intuição relevante para a teologia pública na atualidade. A percepção da dupla cidadania do teólogo, cidadão da Igreja e do mundo, dá condições à teologia de se lançar nas coisas do mundo sem que para isso negue as coisas da Igreja. Aliás, sem identidade própria o teólogo se perderia no mundo plural. O enraizamento na confissão não só permite a identificação como possibilita abertura ao diálogo com o outro como parceiro na construção de um mundo melhor.

O teólogo, para dialogar com as culturas, não precisa abandonar a Igreja. Pelo contrário, Tillich diz que a Igreja é o “lar” do teólogo. É a partir da Igreja, nela enraizado, sem se levar pelo ostracismo, que as fontes e as normas da teologia têm existência real. Só neste lugar a experiência pode converter-se em meio da teologia. O teólogo sem senso de pertença perde o lugar de trabalho.  A Igreja “é seu lugar mesmo que ele trabalhe e proteste contra ela. O protesto é uma forma de comunhão […] Para ser uma norma genuína, não deve ser uma opinião privada do teólogo, mas a expressão de um encontro da Igreja com a mensagem cristã”[2], conclui Tillich.

Carlos Cunha

[1] TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. 5.ed. São Leopoldo: Ed. Sinodal, 2005. p.60.

[2] Idem, p.63.

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Teologia de fronteira: a contribuição de Paul Tillich

A divisão da trajetória biográfica, intelectual e espiritual de Paul Tillich em dois períodos, alemão (1886-1933) e americano (1933-1965), continua marcada por sua emigração. Tillich é considerado “teólogo da fronteira”. É mais do que estar na linha fronteiriça entre dois continentes, mas, ao mesmo tempo, estar entre os mundos, entre os tempos, estar em tensão e em movimento, pensar não em monólogos, mas em diálogo. A teologia de fronteira de Tillich evidencia-se, sobretudo, na relação que ele institui entre religião e cultura secular, e, no método de correlação, constantemente praticado em sua teologia sistemática.

Sua contribuição epistemológica, sintetizada no método da correlação, consiste em estabelecer uma ponte razoável e autêntica entre a fé, a revelação cristã e a cultura moderna. Para este fim desenvolveu o “método da correlação”, segundo o qual o conteúdo da revelação cristã se apresenta e demonstra como resposta às perguntas cruciais que brotam da existência do ser humano na modernidade. A teologia querigmática (Barth) leva em conta apenas o anúncio (querigma), sem olhar o outro pólo (destinatário), representado por todas as várias formas culturais que exprimem a interpretação da existência por parte do homem moderno. Daí nasce o projeto tillichiano de completar a “teologia querigmática” com uma teologia apologética, ou seja, uma “teologia que-dá-repostas” (answering theology).

O uso do método da correlação é uma opção pela fronteira entre perguntas e respostas. É preciso ouvir as perguntas para formular respostas. Sem a situação, não há perguntas. Numa época como a nossa, tão cheia de demandas, a teologia necessita ouvir atentamente o grito de uma sociedade plural que anseia por orientação.

No pensamento de Tillich, a “fronteira” (boundary) é chave hermenêutica de sua vida e teologia, a saber, a reivindicação do espaço de fronteira entre diferentes saberes e possibilidades. Estar na fronteira consiste em estar numa posição frutífera para o pensamento.

No ensaio On the Boundary, Tillich deixa transparecer o lugar privilegiado da situação de fronteira (boundary-situation) na aquisição do conhecimento: “A fronteira é o melhor lugar para a aquisição de conhecimento” (TILLICH, 1966, p.13).

Uma situação de fronteira se dá quando a possibilidade humana alcança seu limite, quando a existência humana é confrontada pela ameaça última. Segundo o próprio Tillich, em The Future of the Religions, a “existência na fronteira, em uma situação de limite, é cheia de tensão e movimento. Não é estática, mas, ao contrário, é uma travessia e retorno, uma repetição de retorno e travessia, um vai-e-vem, cujo objetivo é criar uma terceira área além dos limites territoriais, uma área onde se pode permanecer por um tempo sem ser encerrado em algo hermeticamente limitado” (TILLICH, 1966, p.53).

Pensar a teologia pública, especificamente no âmbito epistemológico, a partir do conceito de “fronteira” de Tillich é colocar a teologia pública numa zona de “encontro” (Tillich não utiliza o termo “diálogo” e, sim, “encontro” – encounter) para experimentar algo, sobretudo novo. Esse “algo novo” advém, no caso do Brasil, de uma situação nova em que a teologia se encontra perante a academia, a igreja e a sociedade.

O método da correlação, que tem como locus o lugar de fronteira (boundary-situation), perpassa toda a teologia sistemática de Tillich e pretende explicar os conteúdos da fé através de perguntas e respostas teológicas em interdependência mútua. Só há possibilidade de fronteira na abertura provocada pela situação. O próprio termo “correlação” já comporta em si mais de uma possibilidade. O vocábulo ocupa, assim, um lugar de prestígio na comunicação acadêmica, eclesial e social, pois abre caminho para expressar a relação entre conceitos, ideias e pensamentos que podem ser totalmente diferentes.

Carlos Cunha

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