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McMundo e as sementes do Reino de Deus: os lados da globalização

imagesuuu83v81O neologismo “McMundo”, em inglês McWorld, foi criado pelo sociólogo estadunidense Benjamin Barber em 1992, no seu livro Jihad vs. McWorld. Desde então, o termo passou a ser usado como referência à globalização econômica tendo a expansão internacional da rede de fast-food McDonalds como modelo. Para Barber, o McMundo é produto de uma cultura específica, impulsionado pelo comércio expansionista promovendo intercâmbios de bens e serviços. Longe de ser uma atividade isenta de valores ou culturalmente neutra, a nova ordem mundial age agressivamente em prol da difusão de uma cultura consumista globalizada reduzindo a vida e o humano a uma mercadoria.

“Intercâmbio econômico e cultural entre diversos países, devido à informatização, ao desenvolvimento dos meios de comunicação e transporte, à ação neocolonialista de empresas transnacionais e à pressão política no sentido da abdicação de medidas protecionistas”, esta é uma das definições dadas ao verbete “globalização” pelo ilustre linguista Antônio Houaiss em seu dicionário da língua portuguesa. Interessante a lucidez como Houaiss joga com as palavras. De um lado, ele realça o lado claro e notório da globalização. Ela não é um fenômeno exclusivamente econômico imbuído somente em espalhar capitalismo. A globalização, como plataforma global, compartilha trabalho, conhecimento, divertimento e culturas também. Seria tolice ignorar a sua capacidade em tornar global a liberdade e a diversidade humanas. Colhemos na atualidade os benefícios da troca de elementos culturais graças ao desenvolvimento das tecno-ciências. Isso é muito bom.

O outro lado acentuado por Houaiss é o lado oculto da globalização. Aqui está a “mcdonaldização” das comunidades planetárias pulverizando as diferenças por meio de ações neocolonizadoras regidas por um capitalismo selvagem. A perversidade desse movimento reside em iniciativas neocolonialistas que visam o controle e as intervenções, do uso da terra, dos recursos naturais e serviços públicos por parte das grandes empresas transnacionais. A riqueza das culturas subalternas desaparece diante da ganância de poucos que detêm as grandes fortunas. As imposições desse sistema neocolonizador não são só econômicas, numa espécie de neoliberalismo redutor da vida e do humano a um grande mercado livre. Há também imposições políticas, sociais, do conhecimento e até religiosas.

Devemos ter cuidado em não cair no lado oculto da globalização. Não podemos ser ingênuos. É preciso guardar a mente e o coração. O apóstolo Paulo escreveu aos cristãos de Roma: “E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente, a fim de poderdes discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito” (Rm 12,2). Precisamos descolonizar a nossa mente de ideias desumanizadoras impostas. Não podemos ceder a uma lógica mental que instrumentaliza as relações humanas e a criação. Seja para um cristão ou não, a vida é um bem supremo digno de honra. Não podemos convertê-la em uma simples mercadoria de consumo. Antigamente, trabalhava-se para viver com dignidade e qualidade de vida. Hoje, nesse mundo plano, o sujeito vive para trabalhar buscando atingir metas de lucro e acúmulos de bens.

Além de guardar a mente, devemos guardar o coração. Numa exortação paternal, o provérbio afirma: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração porque dele procedem as fontes da vida” (Pv 4,23). O mundo de hoje exige vigilância. Corremos o risco de “ganhar o mundo” e perder a vida. Não há problema algum em trabalhar, adquirir bens e serviços. Isso tudo é legítimo. A ilegitimidade está na obsessão pelo trabalho e aquisição desenfreada de bens. O mundo globalizado tem uma tendência a vender marcas globais e valores de consumo. É preciso ter cautela e discernimento para não cair nesse laço e criar ídolos no coração. Alguém já disse que não se entra no reino de Deus se não sair do reino das riquezas.

O mundo globalizado exige discernimento do sujeito. Soa de bom tom a postura equilibrada do jornalista Thomas Friedman, no seu famoso livro The world is flat: a brief history os the twenty-first century (O mundo é plano: uma breve história do século XXI). Diz Friedman: “A lei de ferro da globalização é muito simples: se você pensar que tudo isso é bom, ou que tudo isso é ruim, você não entendeu. A globalização tem nela embutida tendências de dar e tirar poder, de homogeneizar e particularizar, de democratizar e de tomar medidas autoritárias”. Pois bem, cabe a nós escolhermos entre o lado claro ou oculto da globalização.

Se a globalização possibilita também a evidência das particularidades, que o momento seja oportuno para a descoberta de uma lógica de vida saudável. Lembremos o surgimento do Reino de Deus proposto por Jesus. Ele surge de forma tímida, particular e atinge grandes proporções. O reinado de Deus não é novidade exclusiva da mensagem de Jesus. A categoria “Reino de Deus” era símbolo bem conhecido entre os israelitas. Havia no meio deles a expectativa da irrupção de um reino teocrático e independente, isto é, um reino dirigido por Javé e desvinculado dos povos pagãos. A novidade de Jesus está na ressignificação de seu conteúdo. Jesus recria, a partir da própria experiência de vida, nova concepção de “Reino” e dá-lhe outro horizonte de expectativa.

A expressão “Reino de Deus” transmite a ideia de mudança total e estrutural dos fundamentos desse mundo, introduzida por Deus. Não significa simplesmente algo interior ou espiritual. Do mesmo modo, não se trata de realidade que vem de cima ou se deva esperar fora deste mundo, depois da morte. Em sentido concreto, o Reino aponta para a liquidação da alienação com todas as consequências na vida de mulheres e homens, na sociedade e no cosmos, a transfiguração deste mundo compreendido a partir do projeto salvífico de Deus.

Aqueles que se associam ao projeto da implantação do governo divino não podem permanecer à mercê de um sistema que aliena e oprime o ser humano. Jesus introduziu novo modelo de comportamento social. É preciso conversão. A mudança de vida em prol do bem de toda criação é característica da(o) cidadã(ão) do Reino de Deus. Jesus anunciou o Reino do Pai: a transformação radical deste mundo, segundo o projeto libertador de Deus. Onde há justiça, liberdade e amor, aí estão as sementes do Reino. O cristão, como discípulo de Cristo, não tem outro compromisso senão com o Espírito que nos anima na direção dessa esperança. A fé desmascara, à luz da palavra de Deus, o discurso ideológico dos dominadores e revela a opção de Jesus pelos marginalizados. Jesus assume a identificação com oprimidos, e neles quer ser amado e servido.

Carlos Cunha

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O Reino entre nós

O reinado de Deus não é uma novidade exclusiva da mensagem de Jesus. A categoria “Reino de Deus” era um símbolo bem conhecido entre os israelitas. Havia entre eles a expectativa da irrupção de um reino teocrático e independente, i.é, um reino dirigido por Iavé e desvinculado dos povos pagãos. A novidade de Jesus está na resignificação que ele dá para o símbolo “Reino de Deus” já contido no coração do povo. Jesus recria a partir de sua própria experiência de vida uma nova concepção de “Reino de Deus” dando-lhe um novo horizonte de expectativa.

O “Reino de Deus” ocorre 122 vezes nos evangelhos sendo 90 vezes na boca de Cristo. A ideia transmitida é de uma revolução total e estrutural dos fundamentos desse mundo, introduzida por Deus. “Reino de Deus” não significa algo de interior ou espiritual ou mesmo que vem de cima ou que se deva esperar fora deste mundo ou depois da morte. Em seu sentido pleno “Reino de Deus” é a liquidação do pecado com todas as suas consequências na vida das mulheres e dos homens, na sociedade e no cosmos, a transfiguração total deste mundo no sentido de Deus.

A declaração de Jesus: “O Reino de Deus já chegou” (Mc 1,15) trouxe inquietação aos seus contemporâneos. Os israelitas ficaram confusos, pois o domínio político ainda era romano e as autoridades romanas se sentiram ameaçadas com os rumores de uma possível rebelião. No entanto, o “Reino de Deus” proferido por Jesus enfatiza: Deus se faz presente e atuante. Seu reinado pode ser percebido no mais profundo da vida em forma de presença salvadora. A expectativa do Reino futuro cede lugar a uma força salvadora de Deus presente e em curso.

“O Reino de Deus não vem de forma espetacular nem se pode dizer: ‘Ei-lo aqui ou ali’. No entanto, o Reino de Deus já está entre vós” (Lc 17,21). Jesus traz para a história as expectativas dos visionários que entendiam o reinado de Deus como algo espetacular ou cósmico. O reinado de Deus não é algo a ser perscrutado nos céus. É preciso captar os “sinais dos tempos” (Mt 16,3) da sua presença na realidade do dia a dia.

Com muita frequência a expressão “o Reino de Deus já está entre vós” foi mal traduzida como: “o Reino de Deus está dentro de vós” (grifo meu). Este tipo de leitura perverte o sentido proposto por Jesus e reduz o Reino de Deus a algo privado e espiritual. O que não é verdade, pois o Reino tem dimensões públicas e sociais também. Ao focar o Reino de Deus como algo individual somente, as forças libertadoras são canalizadas mais em processos terapêuticos, de cura interior, do que em movimentos de transformação social. Esta não é a única proposta libertadora do governo de Deus.

Diferente das perspectivas apocalípticas da época de Jesus, o governo divino não é algo paralelo que abruptamente se irrompe diante deste mundo perverso. A soberania de Deus já está no mundo conduzindo a vida à sua libertação definitiva. O seu reinado proclamado e vivido por Jesus luta contra a desumanização do ser humano e a favor da dignidade da vida.

Se o Reino de Deus não é um Reino cósmico muito menos é um Reino que se põe do lado dos justos e contra os pecadores. O reinado de Deus não consiste numa vitória triunfal dos santos e condenação dos pecadores. Antes o Reino do Pai amoroso consiste em libertar a todos para uma vida digna e feliz. É curioso observar como Jesus, que fala constantemente do “Reino de Deus”, não chama a Deus de “rei”, mas de “pai”. Sua soberania não é para impor-se a ninguém pela força, mas para introduzir na vida sua misericórdia e encher a criação inteira com sua compaixão. Esta misericórdia, acolhida de maneira responsável por todos, é que pode destruir Satanás, personificação desse mundo hostil que trabalha contra Deus e contra o ser humano.

A atuação de Jesus visa a construção de uma sociedade mais justa. Curar doenças e enfermidades, libertar do mal, dar ânimo e purificar a religião são alguns dos caminhos percorridos por Jesus para acolher e promover do Reino de seu Pai. O Reino de Deus não é algo etéreo. O convite a “entrar” no Reino de Deus implica em conversão (metanoia) profunda. É deixar ser transformado e transformar a vida tal como Deus a quer.

Aqueles que se associam ao projeto da implantação do governo divino não podem permanecer à mercê de um sistema que aliena e oprime o ser humano. “Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro” (Mt 6,24). Jesus introduziu um novo modelo de comportamento social. Não é possível entrar no Reino de Deus sem sair do Reino de Mamon. É preciso conversão. A mudança de vida em prol do bem de toda criação é característica da(o) cidadã(ão) do Reino de Deus. Jesus anunciou o Reino do Pai, a transformação radical deste mundo, segundo o projeto libertador do Pai. Onde há justiça, liberdade e amor, aí estão as sementes do Reino. O cristão, como discípulo de Cristo, não tem outro compromisso senão com o Espírito que nos anima na direção dessa esperança. A fé desmascara, à luz da palavra de Deus, o discurso ideológico dos dominadores. Jesus assume a identidade dos oprimidos, e neles quer ser amado e servido (cf. Mt 25, 35-36).

Pode parecer estranho o fato de Jesus ensinar os seus discípulos a oração: “Venha a nós o teu Reino” e, ao mesmo tempo, convidar todos a “entrarem” no Reino. Ao mesmo tempo, Jesus trata do governo de Deus como algo que está por chegar como algo que já está presente. Aqui não há contradições. O Reino de Deus já manifesta a sua força libertadora. Não em sua totalidade e plenitude final, mas de maneira parcial e fragmentada. O Reino divino é uma ação continuada do Pai, não uma intervenção pontual. É uma ação que pede acolhida responsável e que não se deterá, apesar de todas as resistências, enquanto não alcançar sua plena realização. Já está “germinando” um mundo novo, mas só no futuro alcançará sua plena realização.

Carlos Cunha

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Venha o teu Reino

O batismo de Jesus foi um momento decisivo no seu ministério como arauto do Reino de Deus. Ao emergir das águas do Jordão, Jesus se lança exclusivamente à tarefa de caráter profético que surpreende os seus famimagesCA44IYNMiliares e amigos.

Ao desvincular-se da família e dos seus afazeres diários, Jesus se entrega ao povo como ato de renúncia e de justiça. Ele cumpre cabalmente o rito proposto pelo Batista e junto a ele assume, pelo batismo, o sinal de compromisso de uma mudança radical. Jesus concretiza o seu chamado e atende a voz de Deus para uma nova missão.

Um novo horizonte se abre para Jesus. Com o fim do período de preparação no deserto, irrompe-se um novo tempo para a concretização da salvação de Deus. “É chegado o Reino de Deus!” (Mc 1,15). Jesus supera as expectativas apontadas por João: Não mais se deve esperar o reino e o juízo, é preciso acolhê-lo, “entrar” no Reino de Deus e aceitar o seu perdão salvador.

O novo discurso inaugurado por Jesus abarca o perdão a todos. Batizados e não batizados são acolhidos por um Deus salvador. O convite à salvação é oferecido indistintamente aos seres humanos e cabe a cada um, individualmente, aceitar ou não. Deus não força ninguém; apenas convida. Seu convite pode ser acolhido ou rejeitado. Cada um decide seu destino. Uns ouvem o convite, acolhem o Reino de Deus, entram em sua dinâmica e se deixam transformar; outros não ouvem a boa notícia, rejeitam o Reino, não entram na dinâmica de Deus e se fecham à salvação.

O convite à salvação é feito pelo próprio Cristo. Ele percorre cidades e povoados pregando o Evangelho do Reino (Mt 9,35-38) e convidando todos a participarem deste novo momento. Lugares que até então eram tidos como redutos de marginalizados transformam-se agora no novo cenário para acolher a salvação.

Nas aldeias e povoados a presença de Jesus é cada vez mais marcante. A vida itinerante de Jesus entre os marginalizados é símbolo vivo de sua liberdade e de sua fé no governo de Deus. Ele abandonou a segurança do sistema para “entrar” confiantemente no Reino do Pai. É ali, no impacto das boas novas na vida dos necessitados, que o Reino de Deus vai sendo gestado.

A vida itinerante de Jesus é a grande ilustração do teor da sua pregação. Toda a sua vida remete ao Reino de Deus – seus discursos, sua convicção, sua paixão. O Reino de Deus é a força propulsora do ministério de Jesus e o que dá sentido a sua história. É este Reino que Jesus se empenha em implantar na Galileia, no povo de Israel e em todos os povos de forma definitiva.

Carlos Cunha

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