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Teologia cristã e sua tarefa pública

No decorrer da modernidade, a teologia se tornou cada vez mais restrita aos muros eclesiais e destinada ao consumo interno dos sujeitos religiosos. Seu caráter acadêmico e público perdeu visibilidade, enquanto as ciências positivistas ganharam força e se institucionalizam no âmbito das universidades, nas suas mais variadas especializações e aplicações técnicas. Mesmo admitindo certa legitimidade ao religioso, enquanto opção individual inscrita no âmbito dos valores que não devem interferir no exercício da razão, a comunidade científica dispensou a teologia de suas buscas e atividades interdisciplinares. Assim, a teologia se refugiou no exílio sem ter o que dizer ao sujeito dotado de uma razão técnico-científica. Ela se encontrava em uma situação paradoxal, em termos de sua legitimidade epistemológica.

A teologia sai do exílio quando a crítica bate às portas da pretensão objetivista e empirista da concepção positivista da ciência. A suspeita hermenêutica e ideológica questiona a experiência científica moderna mostrando a incapacidade da apropriação de um dado puro. Todo dado é interpretado e mediado pela linguagem. Além disso, a suspeita ideológica revelou que todo conhecimento reflete interesse. Assim, a concepção positivista de ciência começa a ruir. Por revelar visão interessada, absoluta e apodítica, torna-se equivocada.

Nesse cenário, a teologia sai da periferia e retorna à praça pública onde acontecem as grandes discussões existenciais. Ela retoma a sua condição como ciência da intelecção da fé capaz de dialogar com o mundo.

Na contemporaneidade, a intelecção da fé recebe o status de teologia pública, cujo labor não se limita à confissão religiosa, mas envolve outras esferas da sociedade civil. Hoje temos um novo reconhecimento da importância do saber teológico. Em alguns países europeus, como Bélgica, Alemanha e Itália, a teologia tem sido acolhida como um conhecimento legítimo e pleno, gozando, inclusive, do reconhecimento acadêmico e a emissão de diplomas emitidos por suas faculdades de Teologia.

No Brasil, a discussão sobre a legitimidade da teologia na esfera pública está em alta. São muitas as contribuições vindas dos programas de pós-graduação em Teologia e Ciências da Religião. As contribuições oferecidas por esses programas registram, cada qual com o seu olhar específico, o momento que estamos vivendo no Brasil, na busca da institucionalização plena da teologia, seja como área de conhecimento, seja como curso superior. O futuro da teologia na vida acadêmica nacional dependerá em muito de sua capacidade de fazer-se legítima dentro da sociedade contemporânea. A teologia é desafiada a demonstrar sua capacidade de dialogar com as ciências na busca da “verdade” e afirmar sua especificidade metodológica e sua função pública como conhecimento apto a discernir a realidade.

A tensão entre o privado e o público na teologia é motivo de acaloradas discussões. No âmbito do cristianismo, a Igreja é vista como o lugar natural da teologia a serviço da fé, de onde ela nutre o seu saber. Para teólogos dessa linha, fora do tecido eclesial não há autêntica teologia cristã. Se a teologia não serve à Igreja e aos cristãos, não serve também a sociedade em que a comunidade de fé está inserida. Por outro lado, na missão da Igreja, a própria teologia questiona sua confessionalidade ao desenvolver uma reflexão retroalimentada das práticas eclesiais em perspectiva libertadora tanto na Igreja quanto na sociedade. A sociedade interpela o caráter confessional de toda teologia. Confessionalidade melhor explicitada se faz à medida que estiver aberta ao mundo e ao humano. Caso contrário, torna-se fundamentalismo.

A função da teologia não se restringe ao âmbito intraeclesial, pois a Igreja não existe para si mesma. Igreja, ekklesia, palavra grega composta pelo prefixo “ek”, dá ideia de movimento para fora: “reunião”, “assembleia” ou “congregação”, voltada para fora. A Igreja é essencialmente missionária, de portas abertas, voltada para o mundo, em sintonia com as necessidades concretas da vida das pessoas e em obediência à missão de Deus, missio Dei.

Os conteúdos revelados da fé são transculturais, recebidos segundo o modo de seus receptores e transmitidos por sujeitos contextualizados. Não existe teologia não inculturada, ela é produto humano, com resultados provisórios em formulações aproximativas à fé cristã, consequência dos limites dos instrumentos de investigação. A teologia é produto humano, limitado pelas contingências culturais, o que não reduz em nada a Revelação. Pelo contrário, além de livrá-la do reducionismo ideológico, dá-lhe condições de abertura à nova compreensão do mundo e dos seres humanos, o que “faz da teologia um discurso ‘sobre’ o Absoluto e não um discurso absoluto”, afirma Agenor Brighenti.

No mundo atual, a teologia estritamente fechada, privada, monoconfessional, está condenada a não ser ouvida e a não ser sequer entendida pela sociedade. Diante da complexidade das culturas contemporâneas, tal teologia se mostra incapaz de dirigir-se à sociedade atual. Não é possível encetar diálogos de qualquer tipo com a opinião pública da sociedade como conjunto e pretender fazê-lo a partir das referências exclusivas de uma religião ou confissão.

Não estamos sugerindo aqui que o teólogo e a sua teologia não tenha senso de pertença. Não se trata disso. A teologia sem enraizamento confessional sofre de raquitismo nos seus fundamentos, além de ser sujeita à manipulação ideológica. Ela perde a identidade por não estar enraizada em suas fontes e sua tradição. O teólogo precisa estar enraizado na fé de uma religião, mas se permanece somente ali ele não estará à altura daquilo que seu trabalho exige dele.

A contemporaneidade com toda a sua complexidade reclama a construção de uma teologia consciente da pluralidade cultural e religiosa capaz de abraçar dentro de seu horizonte as experiências sócio-religiosas do conjunto da humanidade. Esta tarefa de reescrever a teologia, e/ou de recriar seu conteúdo, não implica apenas uma novidade no objeto, mas exige também uma novidade no sujeito, ou seja, faz-se necessário um novo tipo de teólogo, com um novo tipo de consciência e postura diante da atualidade.

Acreditamos que a teologia pública é resposta a esse anseio. Ela tem se mostrado como um discurso teológico re-situado no ambiente acadêmico, em diálogo com as ciências, e com uma implicação ativa nos debates que se desenvolvem na esfera pública da sociedade. Separada do âmbito da política, sem ser alienada, a teologia reconhece plenamente a liberdade religiosa e procura contribuir como parceira crítico-construtiva para o bem comum. Para isso, assume o seu caráter acadêmico, plural, inter e transdisciplinar.

Carlos Cunha

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Em busca de uma teologia pública

imagesTIBLYSMDNem sempre as pessoas sabem o significado de teologia, sua tarefa e a função do teólogo. Com muita frequência, associam o estudo da teologia à vida clerical, ao trabalho eclesiástico e a atividade missionária. Quando dizemos que estudamos teologia, as pessoas olham perplexas e dizem: “Teologia! Você quer ser pastor?”. Elas associam a teologia à vida religiosa e, portanto, ao ambiente de Igreja. Resultado: teologia é coisa de Igreja.

A teologia pagou um preço alto por reduzir a sua tarefa à dimensão do mundo eclesiástico. Por muitos anos, o estudo da teologia esteve vinculado aos seminários teológicos e preocupado com situações internas referentes à doutrina, dogma, ética e moral da vida do religioso e assuntos diversos inerentes aos sujeitos vinculados ao círculo da Igreja. Com o surgimento das universidades na Idade Média, a teologia avança enquanto ciência, elabora diálogos em torno de assuntos para fora dos portões da Igreja, mas continua vinculada à Igreja sendo autorizada por bulas papais. Isto é, a teologia estava sob a chancela do papado.

O estigma da vinculação entre teologia e Igreja, principalmente a concepção que se criou sobre as ciências como servas da teologia (ancilla theologiae), levou a teologia para o exílio na modernidade. Sem se contextualizar e impossibilitada de dialogar com a cultura moderna emergente, a teologia habitou as margens da sociedade onde refugiam as questões encobertas. A teologia não compartilhava os grandes interesses que interpelavam a modernidade. Não havia habilidade e nem competência para tratar de assuntos comuns a toda humanidade.

Na contemporaneidade, a teologia aos poucos vai saindo do gueto religioso e tomando espaços públicos. A caminhada é tímida, mas é um caminhar. A proposta desta reflexão não é só objeto da minha pesquisa de doutorado como é também uma resposta da minha caminhada enquanto teólogo. Comecei os meus estudos teológicos em um seminário vinculado a uma Igreja Batista. Os temas eram relacionados à denominação batista e às necessidades apologéticas da Igreja diante as ameaças do “mundo”. Um fazer teológico amarrado à realidade da igreja local e quando muito à Igreja de Cristo frente aos dilemas da atualidade. Progressista entre nós era aquele que se envolvia com a Missão Integral e sua tarefa para além da Igreja.

Do seminário local, comecei a participar de seminários interdenominacionais, congressos e palestras vinculados à teologia da Missão Integral. Foi um passo importante na minha caminhada teológica, mas insuficiente para àquilo que pretendia. Fui para uma faculdade de teologia logo quando o MEC reconheceu a teologia como curso superior. Foi uma experiência enriquecedora, mas ainda continuava com a sensação de que a teologia estava presa às demandas da Igreja e não avançava nas discussões públicas. Permanecer no ambiente acadêmico foi importante porque foi lá, em contato com teologias em diálogo com as culturas, que eu comecei a encontrar um sentido mais pleno para a teologia. Nunca me conformei com o reducionismo teológico, igrejeiro, de gueto, ausente nas conversações públicas.

A teologia não se reduz somente ao ambiente da igreja. A teologia é pública. Sem um conceito único e autoritativo, a teologia pública busca ser uma contribuição de comunidades religiosas nas sociedades democráticas plurais e da teologia acadêmica que sobre elas reflete, crítica e autocriticamente, para o debate público. Ela procura ser uma teologia separada do âmbito da política, sem ser alienada, num estado secular de direito, que reconhece plenamente a liberdade religiosa e no qual ela procura contribuir como parceira crítico-construtiva para o bem comum. Para isso, assume o seu caráter acadêmico, plural, inter e transdisciplinar.

Para o teólogo protestante, Jürgen Moltmann, a teologia cristã é teologia pública por causa do Reino. Deve fazê-lo sempre de forma correlativa. Ela deve ser, ao mesmo tempo, conforme a Escritura e contextual. Ela torna-se uma teologia pública, que compartilha os sofrimentos desta época e que formula suas esperanças em Deus no lugar em que vivem os seus contemporâneos. A novidade e diversidade do Reino de Deus, que não cabem nas igrejas, exigem que a teologia seja pública.

Já para David Tracy, teólogo católico, toda teologia é um discurso público. Se pretende-se mostrar o caráter público de toda teologia, tornar-se imperativo estudar primeiro os “públicos” do teólogo. Tracy elege três públicos: a sociedade, a academia e a Igreja. Assim a tarefa da teologia consiste em abrir um diálogo com esses três públicos a fim de ser relevante no atual contexto.

Carlos Cunha

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