Arquivo do mês: fevereiro 2016

Teologia leiga

imagesSJG1W7L2A “teologia leiga”[1], diferente de popular, como o labor teológico feito e escrito por leigos a partir do seu lugar, pode oferecer contribuições para a teologia pública. Pensar a fé no lugar da laicidade é permitir que a teologia seja interpelada por questionamentos diferentes da realidade da vida sacerdotal e religiosa. As perguntas dos leigos são outras, elas têm a ver com a vida matrimonial, profissional, cultural, eclesial e cotidiana que desafiam o fiel a viver, na prática, a vida cristã. Viver como teólogo leigo é “compartilhar, muitas vezes, com os pobres, a insegurança do amanhã”, diz Maria Clara Bingemer.[2] Isto soa estranho aos ouvidos do teólogo religioso desatento que fez da vida sacerdotal uma opção por dedicação exclusiva expressa em um discurso divorciado da vida cotidiana comum das pessoas.

A reflexão do leigo é fundamental na reflexão da Igreja e também na universidade, segundo Bingemer:

A teologia – sobretudo aquela que elabora seu pensamento e seu discurso no meio acadêmico – não pode deixar de levar em consideração essa nova presença, essa palavra outra de leigos e leigas que, a partir de diferentes experiências de vida, à luz de cotidianas e sempre surpreendentes situações, descobre e desvela ângulos insuspeitos do Mistério, sobre o qual reflete e discorre.[3]

A teologia está experimentando na atualidade uma reconfiguração. “São cada vez mais leigos e leigas que a cultivam e diminui de modo chamativo a proporção de clérigos entre os teólogos”, afirma O’Murchu.[4] Para que seja rico e fecundo, o confronto entre fé e prática deve, para o teólogo, se dar na vida real antes que na teoria teológica. Isso implica como condição necessária que o teólogo tenha uma vinculação real com a vida concreta da comunidade eclesial e com os problemas do mundo. A luz própria da prática para a teologia consiste em que ela, por um lado, provoca o conhecimento teológico e, por outro, o verifica.

Carlos Cunha

[1] O uso do termo “teologia leiga” não é adequado. A expressão pode sugerir a falsa compreensão de que a teologia feita por pessoas que não fizeram uma opção pela vida sacerdotal e religiosa é inferior à teologia elaborada por estes. Isto não é verdade como buscamos deixar claro no texto. Os lugares do labor teológico é que são diferentes. O uso depreciativo que a palavra “leigo”, como aquele que não sabe, o que não pode, o que não é, não é adequado à rica e fecunda tradição cristã. Cf. O verbete “leigo” em: BOFF, Leonardo. Leigo. In: FRIES, H. (Ed.). Dicionário de teologia: conceitos fundamentais de teologia atual. São Paulo: Loyola, 1970.v.3. BOUGEOIS, Daniel. Leigo/laicado. In: LACOSTE, Jean-Yves. Dicionário crítico de teologia. São Paulo: Paulinas, Loyola, 2004. Há também uma abordagem história interessante sobre o papel do leigo na teologia. Cf. ALMEIDA, Antônio José de. Leigos em quê? uma abordagem histórica. São Paulo: Paulinas, 2006.

[2] BINGEMER, Maria Clara. A teologia e a universidade: desafios e perspectivas. In: FREITAS, Maria Carmelita (Org.). Teologia e sociedade: relevância e funções. São Paulo: Paulinas, SOTER, 2006. p.146.

[3] Idem, p.147.

[4] O’MURCHU, Diarmuid. Religion in Exile: A Spiritual Homecoming. New York: Crossroad, 2000. p.218.

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O teólogo, a igreja e o mundo

niebuhr-tillichO mundo da experiência é uma fonte inesgotável para a teologia. É obrigação do teólogo participar ativamente dos questionamentos do mundo para que a sua teologia tenha o que dizer. Manter uma postura de abertura perante a experiência do mundo é fundamental. Segundo Paul Tillich:

Estar aberto a novas experiências, que podem inclusive ultrapassar os limites da experiência cristã, é agora a atitude própria do teólogo. Ele não está confinado a um círculo cujo centro é o evento de Jesus como o Cristo. Sem dúvida, como teólogo, ele também atua em um círculo, mas em um círculo cuja periferia é dilatável e cujo centro é móvel. A “experiência aberta” seria a fonte da teologia sistemática.[1]

Vemos neste pequeno trecho da Teologia Sistemática de Tillich uma intuição relevante para a teologia pública na atualidade. A percepção da dupla cidadania do teólogo, cidadão da Igreja e do mundo, dá condições à teologia de se lançar nas coisas do mundo sem que para isso negue as coisas da Igreja. Aliás, sem identidade própria o teólogo se perderia no mundo plural. O enraizamento na confissão não só permite a identificação como possibilita abertura ao diálogo com o outro como parceiro na construção de um mundo melhor.

O teólogo, para dialogar com as culturas, não precisa abandonar a Igreja. Pelo contrário, Tillich diz que a Igreja é o “lar” do teólogo. É a partir da Igreja, nela enraizado, sem se levar pelo ostracismo, que as fontes e as normas da teologia têm existência real. Só neste lugar a experiência pode converter-se em meio da teologia. O teólogo sem senso de pertença perde o lugar de trabalho.  A Igreja “é seu lugar mesmo que ele trabalhe e proteste contra ela. O protesto é uma forma de comunhão […] Para ser uma norma genuína, não deve ser uma opinião privada do teólogo, mas a expressão de um encontro da Igreja com a mensagem cristã”[2], conclui Tillich.

Carlos Cunha

[1] TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. 5.ed. São Leopoldo: Ed. Sinodal, 2005. p.60.

[2] Idem, p.63.

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